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Timor-Leste: Importância da resistência é tema de tese de jornalista brasileiro

20.03.2003 | Fonte de informações:

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Este é o tema da tese de mestrado em Ciência Política intitulada "A Independência de Timor-Leste - um estudo sobre as causas do sucesso da Resistência Timorense na luta contra a Indonésia", que o jornalista brasileiro Leonardo Moretti Sakamoto defendeu na Universidade de São Paulo (USP).

Contactado hoje pela Agência Lusa, Leonardo Moretti Sakamoto disse que a "resistência à dominação indonésia criou uma identidade reactiva timorense", possibilitando que as diferenças que poderiam bloquear a consolidação da unidade nacional "fossem deixadas de lado em prol de um objectivo único", como sublinha no seu estudo.

"Ao mesmo tempo, fortaleceu símbolos de uma identidade timorense", argumenta Sakamoto, que visitou Timor- Leste em 1998.

Timor-Leste foi invadido pela Indonésia em Dezembro de 1975. Em Abril do ano seguinte, Jacarta declarou a antiga colónia portuguesa como a 27ª província indonésia, decisão que não foi reconhecida pelas Nações Unidas, nem pela generalidade da comunidade internacional.

Após a demissão do presidente Suharto, em 1998, Jacarta ofereceu a Timor-Leste um estatuto especial de autonomia, que foi recusado pela maioria do povo timorense na consulta popular de 30 de Agosto de 1999, organizada pela ONU, cujo resultado abriu caminho para a independência do território.

No seu estudo, Leonardo Moretti Sakamoto destaca que o povo timorense nunca aceitou qualquer forma de dominação.

Apesar de ser um território com cerca de 800 mil habitantes, mas com diferenças entre os cerca de 30 grupos etnolinguísticos, a determinação pela independência sobrepôs- se à qualquer tipo de interesse ideológico, afirma.

O ressentimento da população perante o total desrespeito pelos seus direitos fundamentais "manteve aceso o desejo" de criar um país em que os habitantes nativos participassem efectivamente na sua administração, explica Leonardo Moretti Sakamoto.

Por isso, o jornalista considera que a forma de organização da resistência e a própria história do povo timorense foram fundamentais para o sucesso na luta pela independência.

Sakamoto considera que as relações sociais presentes na estrutura da sociedade timorense mesmo antes da chegada dos portugueses, no século XVI, propiciaram a manutenção de uma cultura de relações comerciais e familiares.

Somada a isso, prossegue, a coesão contra invasores auxiliou na criação da identidade nacional entre as diversas etnias e grupos ideológicos do país.

Sakamoto nota também que a ocupação pela Indonésia levou grupos ideologicamente rivais a juntarem-se no Conselho Nacional de Resistência Timorense (CNRT), que objectivava a criação de um Estado soberano.

O jornalista diz que a reorganização política do contexto internacional após a Guerra Fria e a crise económica que abalou o Sudeste Asiático em 1997, provocando a queda do ditador Suharto, não são factores fundamentais para explicar o êxito do processo político timorense.

"A tudo se sobrepôs um desejo maior, o da independência da nação", sublinha.

A luta de guerrilha levada a cabo pelas Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (Falintil) deu suporte a esse objectivo. Mais do que um exército para a reconquista do território, a guerrilha foi um símbolo de luta, tanto para os timorenses como para a comunidade internacional, afirma Sakamoto.

Depois de se desligaram do partido Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin), as Falintil passaram a ser consideradas as forças armadas do povo de Timor-Leste, nota Sakamoto no seu estudo.

A guerrilha "serviu a defesa de um projecto nacional e não o favorecimento de um grupo ou de outro, ou de uma ideologia específica".

Sakamoto considera, no entanto, que não é possível enquadrar da mesma forma as Falintil e a União Nacional pela Independência Total de Angola (Unita).

Segundo explica, com o fim da Guerra Fria e do apoio norte-americano na luta contra o governo socialista do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), a Unita transformou o confronto "numa disputa por poder, sob falso verniz ideológico".

As Falintil, que tinham apoio popular, souberam reorganizar-se em momentos complicados e mesmo formar novas lideranças, como aconteceu com a ascensão de Xanana Gusmão após a morte em combate, em 1978, de Nicolau Lobato, presidente da Fretilin e comandante da guerrilha. A Unita, destaca o jornalista na sua tese, não defendia um ideal de nação e o personalismo do seu líder Jonas Savimbi impediu a formação de quadros com capacidade para lhe suceder, a ponto de a sua morte, em Fevereiro de 2002, ter representado o fim do conflito.

No seu trabalho, Sakamato afirma ainda que a ocupação indonésia de Timor-Leste, mantida à força pelo governo do general Suharto, causou o maior genocídio do século XX, com 44% de timorenses mortos directa ou indirectamente pelo conflito.

Uma nova onda de violência invadiu o país em 1999, antes e depois da consulta popular de 30 de Agosto, quando grupos paramilitares armados pela Indonésia espalharam o terror entre os timorenses.

Em virtude desse cenário, a ONU enviou para Timor- Leste uma força internacional para manter a paz e, após a retirada da Indonésia, administrou provisoriamente o território até a proclamação da independência. Sakamoto pretende transformar a sua tese em livro e está agora a aprofundar o tema no doutoramento.

www.lusa.pt

 
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