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Lula em Londres

17.07.2003 | Fonte de informações:

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Encontrei com Lula em Londres, no domingo pela manhã, quando ele inaugurou um pequeno e bonito pavilhão de Niemeyer na Serpentine Gallery, em pleno Hide Park. Na segunda, assisti sua palestra na London School of Economics (LSE), em um auditório de 1.400 lugares cujas reservas haviam se esgotado quase um mês atrás.

Fazia muito calor quando Anthony Giddens, um dos mais respeitados intelectuais europeus e diretor da LSE, abriu a "lecture" apresentando "Mr. da Silva" e resumindo, em cinco minutos, a trajetória de Lula. Antes de passar a palavra ao presidente do Brasil, Giddens virou-se para a platéia e disse: "Estão vendo essas lágrimas que correm pelo meu rosto? Bem, há duas razões para elas: primeiro, esta é a última atividade pública que tenho como diretor da LSE porque, após 40 anos de trabalho, estou me aposentando. Segundo, estou ao lado de um homem que deseja mudar o Brasil, mas que eu penso que poderá mudar o mundo".

Penso que a frase de Giddens resume um tanto da expectativa que se pode encontrar nesse momento em muitos lugares do mundo. Lula é a chance pela qual gerações inteiras têm lutado e o fato dela ter sido construída em um país como o nosso exerce enorme influência sobre a América Latina, abre perspectivas para os países emergentes e desperta vivo interesse na esquerda mundial, particularmente na Europa.

Lula foi perfeito em sua palestra e pareceu estar no melhor de sua forma. Falou sobre o início de seu governo, sobre as dificuldades que terá de enfrentar e sobre suas prioridades, mas seu discurso foi centrado no tema da política internacional — coisa para a qual não se costuma dar a menor importância no Brasil. Lula sabe que o jogo político contemporâneo é disputado na esfera internacional e quer uma nova relação do Brasil com o "primeiro mundo".

Primeiro, trata-se de unir politicamente a América Latina e de construir mecanismos práticos de integração, a começar pela atração dos países andinos ao Mercosul. Segundo, Lula quer organizar uma espécie de "G-7 do-lado-de-cá", com países como África do Sul, Índia e China, e vê como uma obrigação moral o desenvolvimento de intensas relações com o continente africano.

Nesse tabuleiro, Lula quer a União Européia ao seu lado para que a negociação com a Alca tenham melhores prognósticos e vai brigar para que o Brasil seja membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Para Lula, o que está em jogo é a criação de uma nova ordem internacional onde seja possível o equilíbrio e a solidariedade, em que nenhum país possa iniciar uma guerra sem uma resolução internacional e conflitos como os do Oriente Médio sejam prontamente resolvidos.

O que todos puderam ver em Londres, em síntese, foi um presidente do Brasil com vocação para um papel histórico. Alguém que está imbuído por uma rara determinação e cujos compromissos humanitários se confundem com sua vida. Lula foi aplaudido de pé e todos nós que estávamos ali, ingleses e brasileiros, experimentamos a estranha sensação de dividir aquele auditório com um pedaço luminoso do futuro.

Marcos Rolim (PT-RS), ex-deputado federal, é jornalista www.pt.org.br

 
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