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Duas ou três coisas sobre “Cidade de Deus”

16.02.2004 | Fonte de informações:

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A primeira coisa que nos ocorre sobre o livro, e agora, para todos, sobre o filme, é que ele é a história real de fatos reais. E para continuar nessa tautologia, diremos: a primeira coisa que nos ocorre é que ele é o relato real da coisa real escrito por um ser real, que está dentro desse real. Uma realidade de realidade da realidade da realidade ... real.

Mas sem nenhuma nobreza. Isto porque ele fala de um lixo humano que é jogado no lixo que nos faz lixo que faz todas as coisas serem lixo. Lixo, matéria podre orgânica de restos de gente. Lixo que tem cara, com a boca cheia de formigas, com o sangue coalhado, com as carnes abertas, ração de ratos, cães e abutres.

Segurem o estômago e o engulho porque essa primeira impressão é falsa. Segurem, não desperdicem alimentos em digestão, porque “Cidade de Deus” não é o diário de um favelado. E isto quer dizer, lição primeira: a criação é bem diferente da toalha de Verônica, o objeto criado não duplica o rosto de sofrimento do autor. O cristo criador cruza e crava outro calvário. Isto quer dizer, mais precisamente, que Paulo Lins é um escritor, não um favelado, ou, se quiserem elementos mais biográficos, que Paulo Lins é um homem formado em Letras, amante, na juventude, da poesia concreta. Sei que Letras e poesia concreta não fazem de ninguém uma pessoa culta (às vezes até fazem o contrário). Muito menos um escritor. Mas esses dados aqui se escrevem para somente observar que a vida é muito mais que matéria bruta. Como diz um samba, “que a vida não é só isso que se vê / é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber”. Ou como diz o próprio Paulo Lins em entrevista:

”O problema é que não existe escritor que não leia, isso é impossível. Se não tem leitura, se não se tem biblioteca, não aparece o escritor...”.

Passado esse equívoco, a segunda coisa que nos ocorre sobre “Cidade de Deus” é que a obra é tal qual a realidade. Nesta altura, substituímos o criador pela coisa mesma, pelo objeto criado. Se ele, escritor, não pode ser um simples morador da favela, o que ele cria é o retrato, e voltamos ao rosto de Cristo a caminho da cruz, o que ele cria é a tolha de Verônica, o desenho perfeito do mundo entre chagas. Parêntese. De passagem, observemos que há criadores, alguns de ótimo nível, na favela. Referimo-nos aqui à impossibilidade ontológica de se fazer criação com as armas da ignorância, sob condições ruins de sobrevivência humana. A essa fábula de mau gosto aqui e ali voltamos, quando levamos os olhos para um mundo primitivo, do terceiro mundo, índio, africano, ou negro-miserável-de-favela. Fechemos o parêntese.

Em nosso segundo momento, achamos que o cenário criado pelo artista é a reprodução, mecânica, ou muito esperta, de uma realidade que basta fotografar. Percebem? Como souvenirs amontoados numa viagem turística pelos Andes. Tudo très exotique. Or very exotic. Imaginem negrinhos correndo pelas ruas com pistolas azeitadas, prontas para meter chumbo entre os cornos de toda a gente, de fazer arrancar a cabeça e fazer saltar os miolos. Imaginaram? Tão horrível quanto simples – é só fotografar. Mas seguremos antes nossas cabeças e nossos crânios, nossos olhos e nossa estupidez. Para ver, para conhecer, para aprender: Cidade de Deus, como qualquer outra obra que se eleve do medíocre, não é isto. Essa reprodução, por mais aparentemente brutal, tosca, como se fosse flagrada num instantâneo kodak, não há.

A sangue frio não sai a sangue quente. Só se a arte fosse uma sessão espírita, de autêntica possessão demoníaca. Melhor então ouvir os esclarecimentos de Paulo Lins numa entrevista, quando se refere ao tal qual de Cidade de Deus:

“José Lins do Rego tem o Fogo Morto, esse livro é de uma poesia... Eu copiei esse livro, roubei. Só que botei na versão urbana. Recomendo aqui assim: antes de ler o Cidade de Deus, leia Fogo Morto.

Graciliano também é outro. O Graciliano, rapaz! Vidas Secas, São Bernardo - é, roubei muito dali também. Roubei do Lima Barreto, do Dostoievski... ah, tem que roubar...

Na realidade, eu reescrevia os romances que admirava. Eu pegava os capítulos e ia fazendo mutações no texto. Eu reescrevi o Fogo Morto inteiro. Aquele romance de José Lins do Rego é maravilhoso, me deixou louco com o sentimento pela linguagem. .. Então eu roubei passagens inteiras do Fogo Morto... ‘Vai passando assim pela estrada, com o diabo no seu coração batendo forte’... Então o Mané Galinha também sai ‘com uma tocha de fogo na mão para incendiar a casa do assassino do seu irmão com o diabo no seu coração batendo forte’.

Fiz isso com muitos romances. No ‘Crime e Castigo’, o Dostoievski começa o romance planejando e contando como ele vai matar a velha proprietária avarenta da casa onde mora o personagem central. Eu fui pegando só os trechos em que ele bolava esse assassinato, dividi em vários e coloquei no computador. E botei isso em ‘Cidade de Deus’ no episódio do sujeito que mata por vingança o filho, porque ele era preto e o filho nasceu branco. Essa parte é igual à de Raskolnikov. Então é isso. Roubei e é meu!”

O que importa aqui não é levar o autor à Delegacia de Roubos e Furtos. Até porque, de modo universal, todo criador, em qualquer campo da arte, é um ladrão, de modo consciente, declarado, sincero, como o faz aqui Paulo Lins, ou de modo subliminar, inconsciente, em longos, permanentes e definitivos furtos, quando os chamamos, aos furtos, de influências (como se gripes fossem) ou de admirações.

Importa aqui ressaltar, para o reflexo de uma realidade tão bárbara, o que de civilização vai buscar o indivíduo que na aparência é só um espelho, é só, ou seria, em nosso desconhecimento, um criador de clones. No melhor José Lins ele bebeu, no melhor Graciliano ele se fortificou, no melhor Dostoievski ele cresceu, e na primeira experiência, de homem brasileiro, favelado, muito bem digeriu, e viu. Com os olhos de civilização e barbárie feitos. Para isto ele só considera o tempo de escrever o livro: angustiados e longos dez anos. Mas sabemos, enfim: para isto levou toda a vida. Esta era a terceira e última coisa, tão óbvia que deveríamos ter vergonha de dizer.

Urariano Mota

 
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