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O PT que tu me deste era ...

14.02.2005 | Fonte de informações:

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A análise do deputado petista é minuciosa, precisa, verdadeira e criteriosa. Vai ao encontro da desilusão e desesperança que se abateu em toda Nação brasileira depois que o PT chegou ao poder. Com uma consciência cívica, crítica, lúcida e realista sobre a relação dos antigos companheiros com o poder, o deputado petista fala dos anseios que nortearam durante anos o partido e que, chegado ao poder, se apagou, ficando na curva do caminho. O texto, transparente, sofrido e verdadeiro, do deputado, fala por si. Segue abaixo, na íntegra, sem alteração de uma sílaba sequer.

“Para onde vai o PT? Não é pouca coisa um partido popular completar 25 anos na história brasileira. O jubileu de prata do PT é motivo de orgulho. Essa data coincide com a chegada do PT ao governo federal. No entanto, já não é mais o mesmo PT. O PT rompeu com os partidos tradicionais das elites e da esquerda, feitos de cima para baixo e dominados por meia dúzia de políticos. O PT surgiu como partido de massas. Deu vez aos trabalhadores para disputar o poder. Organizou milhões de trabalhadores, de sem-terra, de mulheres, de jovens e de excluídos. Incorporou a questão racial, de gênero e das minorias.

Criado sob a ditadura militar, o PT foi parte fundamental na luta pela democracia. Iniciou a campanha na luta pela democracia. Iniciou a campanha Diretas-Já (1983), a jamais vista mobilização popular no Brasil. Sem o povo, não teria havido Colégio Eleitoral, nem Tacredo Neves (1985). Depois, apoiou a participação popular na Constituinte (1988). E esteve à frente das mobilizações pelo impeachment de Fernando Collor de Mello (1992).

O objetivo do PT é a conquista do socialismo democrático. Que socialismo é esse, ainda não sabemos. No essencial, o PT definiu-se anticapitalista e encarnou o ideal de justiça social e de igualdade. Isso colocou o partido na luta pela transformação social. Um partido radical, militante e combativo.

O PT assumiu a democracia como valor estratégico, a ética no trato da coisa pública e a crítica às alianças fisiológicas. Aceitou participar das eleições, mas combateu o neoliberalismo e a submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI). E propôs mudanças estruturais, reforma agrária, distribuição de renda e poder. Elegeu vereadores, deputados e senadores. Elegeu prefeitos, governadores e o presidente da Câmara Federal. Elegeu prefeitos, governadores e o presidente da República. Carrega a esperança por profundas mudanças.

Em dois anos de governo. Quem mudou foi o PT. Virou um partido da ordem. O discurso das origens foi substituído pela “Carta ao Povo Brasileiro”. O PT aplica o modelo econômico do FMI. Adversários históricos tornam-se aliados de poder (Sarney, ACM, PP, PTB etc). O PT assimila o fisiologismo político. A conduta ética se enfraquece, a democracia partidária é golpeada e o partido se distancia da organização popular. Velhos companheiros são expulsos.

Milhares de sonhadores se desencantam com o PT. Alguns formam novos partidos. Outros assumem a dissidência. Achamos que abandonar o barco petista não é a melhor saída. Somos parte desse patrimônio. Constituir um novo partido não é um simples ato de ajuntamento de insatisfeitos. Muitos têm esperanças no novo governo Lula, e é impossível hoje uma alternativa à esquerda desse governo. O PT é um espaço de milhares de lutadores que ainda acreditam em suas lideranças. É preciso travar uma disputa pelo resgate do PT, acumular forças e apoio de massas para derrotar a atual direção. Por isso, lançamos a Carta ao PT durante o Fórum Social Mundial. Convocamos toda a esquerda petista a se unir em torno de propostas para disputarmos as eleições internas do PT, em setembro. Queremos retornar os rumos que orientaram a criação do PT há 25 anos. Por um partido ético, de massas, militante, democrático e anticapitalista. Por um Partido dos Trabalhadores”.

Depois de ler o testemunho histórico do deputado petista Gilmar Machado, lembrei-me da frase histórica do filósofo da Unicamp Roberto Romano: “É infinita a capacidade dos intelectuais de se curvarem diante do poder, seja ele fascista ou socialista”. Será?!

Petrônio Souza Gonçalves jornalista e escritor belooriente@cidademais.com.br

 
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