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Lula: Temos de fazer com que haja integração definitiva da América do Sul

11.12.2003 | Fonte de informações:

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Falou, principalmente, sobre a inserção do Brasil nas relações internacionais, política interna, reforma agrária, além de um balanço de seus primeiros 11 meses à frente do país. Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida ao jornalista Hélio Campos Mello.

A sua estratégia ao assumir o governo foi recuperar a credibilidade externa. Isso causou impacto no mercado doméstico, mas foi um sucesso internacional. Onde o senhor pretende chegar com sua política externa?

Eu acho que, em 11 meses, nós fizemos em política internacional o que não foi feito em 11 anos. Algumas coisas que nós estamos fazendo compõem uma estratégia de um país que quer ter mais força nas relações internacionais, quer ser mais respeitado e quer ter mais influência nas negociações internacionais. Não somos um país coitadinho, um país pequeno, insignificante. Somos um país grande, com um potencial extraordinário, e precisamos fazer valer as coisas em que acreditamos ou, pelo menos, discuti-las com um pouco mais de respeitabilidade. A primeira coisa que fizemos foi reagrupar o Brasil em seu time original, que é a América do Sul. Acabar com a desconfiança histórica entre Brasil e Argentina. Tentar trazer para o Mercosul países que estavam fora do bloco. Temos que lutar para ter um bloco capaz de fazer mais negócios com os Estados Unidos e com a União Européia. A segunda coisa importante que nós fizemos foi discutir com os nossos companheiros da América do Sul como fazer o continente crescer. Temos que sair da integração apenas no discurso e fazer com que haja integração física definitiva no continente. Precisamos construir pontes, estradas, ferrovias, hidrovias, energia elétrica, comunicação. Isso se faz com duas coisas: com projetos e investimentos. Precisamos ter bons projetos e depois buscar financiamentos. Estamos trabalhando a possibilidade de constituir uma grande instituição financeira na América do Sul para que possamos ter os recursos ou captar os novos recursos para fazer as obras que entendemos necessárias para o nosso desenvolvimento. O segundo passo em política internacional foi tentar agrupar os iguais para que pudéssemos competir com os mais fortes que nós. Foi por isso que, em Cancún, criamos o G-22. Na medida em que se consegue juntar Brasil, Argentina, China, Rússia, Índia, África do Sul, apenas para dar o exemplo, consegue-se unir uma grande parte da humanidade e passa-se a ter mais força nas negociações com os chamados blocos dos países ricos. Criamos também o G-3, com a África do Sul e a Índia, que tem tanto em comum na questão científica e tecnológica quanto na política de troca de produtos. E queremos ampliar o G-3 para incluir a China e a Rússia.

Logo no início do governo, o senhor teve muito destaque internacional. O senhor não teve uma certa paúra de sair pelo mundo?

Eu acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tive a sorte, logo no início do governo, de ir a Evian e a Davos...

... E antes foi a Porto Alegre. Não foi uma jogada de risco?

Não havia risco algum. Tinha companheiros que me diziam: "Você não pode ir a Davos porque o Fórum Social Mundial não vai permitir que você vá a Davos. Teve gente que foi direto: "Você vai ser vaiado lá em Porto Alegre." Então, eu falei: não só vou a Porto Alegre como vou comunicar que vou a Davos. Sabe por quê? Eu não era mais membro de um movimento social. Eu era presidente da República do Brasil. Eu tinha o que falar em Davos. Era uma caixa de ressonância que interessava ao Brasil. Dou graças a Deus por ter ido a Porto Alegre, onde fui tratado da forma mais maravilhosa possível. E fui a Davos, onde também fui tratado da forma mais maravilhosa possível. Saí de cabeça erguida de Porto Alegre e saí de cabeça erguida de Davos. Depois, fui a Evian, me reuni com os 20 maiores chefes de Estado do mundo. Eu confesso a você que não vi ninguém inferior a mim nem superior. São seres humanos normais, cada um com seus problemas. E eu com os meus.

Falando agora de política interna, o que o governo tem para oferecer para os sem-terra?

O governo tem muito para oferecer. Primeiro, nós vamos apresentar para os sem-terra uma proposta de assentamento que engloba aproximadamente 450 mil famílias. Mas assentar de forma mais adequada do que vinham sendo feitos os assentamentos até então. Não adianta você assentar um milhão, dois milhões, três milhões e meio se você apenas dá a terra e não cuida de levar para aquela terra escola, saúde, eletricidade, saneamento básico. Tem que organizá-los em cooperativas, criar a agroindústria para que as pessoas possam produzir de modo saudável, ter mercado para os seus produtos e viver condignamente. Esse é o sonho da reforma agrária. O MST, movimento pelo qual eu nutro um respeito muito profundo, vai ter que, em algum momento, tomar uma decisão na vida deles. Ou eles continuam com a política de ocupações, que está sendo feita há muito tempo no Brasil, ou eles dão uma parada e dizem: "Vamos fazer funcionar as terras em que nós já estamos assentados." São milhares e milhares de famílias que precisam produzir, precisam morar, precisam de acesso ao lazer, precisam ganhar dinheiro. Eu tenho dito que a gente não pode disputar números com nenhum governo. Nem com Médici, que fez a política de assentamento da Amazônia, nem com Fernando Henrique Cardoso. Nós temos que buscar qualidade em cada assentamento que fizermos, para servir de orgulho para eles próprios. O que interessa é garantir a terra e assistência técnica. Tentar combinar produção, industrialização e comercialização para colocar valor agregado nos produtos deles. Tem que se dar efetivamente aos sem-terra uma possibilidade de eles viverem com dignidade. Eu acho que esse é um desejo nosso, é um desejo deles.

O governo completou 11 meses. O que mudou no Brasil e o que mudou na sua cabeça?

Nós temos que falar de 11 meses de governo sempre lembrando o que era o país na época e como funcionava a cabeça de muita gente que faz análise sobre política econômica. Há 11 meses, diziam que a economia brasileira não ia se sustentar, que nós não íamos conseguir equilibrar as finanças, que nós não íamos conquistar credibilidade externa e que não íamos segurar a inflação. Hoje, nós temos credibilidade como em poucos momentos da história nós tivemos. Isso pode ser demostrado pelo risco Brasil e pelo financiamento que temos das nossas exportações. Hoje, trabalhamos com a possibilidade de a inflação ser de 6% ao ano, ou até menos, em 2004. E hoje também trabalhamos com a certeza de que a economia brasileira está sob controle. Por isso, tomamos a decisão de baixar os juros: não tão lentamente como querem os conservadores nem tão rápido como querem os apressados. Diziam também que nós teríamos uma grande dificuldade no Congresso Nacional, que não iríamos ter maioria para votar as coisas que queríamos votar. Até agora, nós conseguimos votar tudo o que entendemos que é importante para o país. Temos construído as alianças políticas da forma mais democrática, mais transparente e mais pública possível. Agora, estamos num momento excepcional do Brasil. Mesmo os mais pessimistas já estão se dando conta de que a economia brasileira está voltando a crescer. É por isso que eu estou muito otimista para 2004. Há um tempo atrás, diziam que nós não íamos baixar os juros para o consumidor. Nós não só estamos baixando os juros da taxa Selic como estamos fazendo acordos com os sindicatos para que eles possam – através de acordos com os bancos – fazer empréstimos para os trabalhadores descontando em folha de pagamento.

E com que taxas de juros?

A CUT fez licitação. Apareceram 19 bancos. Tem acordo de 1,75% até 2% e pouco de juros ao mês. Bem diferente do cara que tem um cartão de crédito ou um cheque especial, que está pagando 8%, 10%, 12% ao mês. Agora vamos fazer o mesmo para os 19 milhões de aposentados. Vamos criar linhas de crédito com descontos na folha de pagamento do aposentado que quiser fazer um empréstimo. Fizemos um teste para abrir contas para pessoas que nunca tiveram acesso a banco. A Caixa Econômica vai comemorar um milhão de pessoas que abriram contas sem nenhuma comprovação, sem nenhuma exigência.

E os programas na área social?

O programa Fome Zero já está implantado em 1.277 cidades, atendendo um milhão e 300 mil famílias. Unificamos os programas sociais no Bolsa Família para que a gente possa não só melhorar a quantidade de dinheiro que as pessoas recebem como fazer receber dinheiro aqueles que efetivamente precisam do dinheiro. Chegaremos ao final de dezembro com três milhões e 600 mil famílias cadastradas e recebendo o Bolsa Família. Nós saímos de uma média de R$ 28 por mês que eram dados nos planos anteriores para uma média de R$ 75 para cada família, exigindo das pessoas a contrapartida da educação, ou seja, quem tiver criança tem que colocá-la na escola, quem for analfabeto tem que se alfabetizar. As crianças têm que tomar vacina, as grávidas tem que fazer o pré-natal. Isso sem falar, por exemplo, das contas que nós já fizemos dos alimentos produzidos no semi-árido. Eu fui lançar um programa de compra da safra do feijão na região da seca e não precisamos comprar porque, por conta do compromisso do governo, as pessoas plantaram mais e o preço não baixou. Ou seja, quem produziu vendeu no mercado.

Tem uma questão tão ou mais urgente que é a criação de empregos. O que o governo tem feito para cumprir a promessa de 10 milhões de novos postos de trabalho em quatro anos?

O emprego só vai aparecer quando a economia voltar a crescer, mas essa questão continua sendo uma obsessão minha. Mesmo com a economia crescendo, temos que tomar muito cuidado. Pois o crescimento pode acontecer com a utilização de novas tecnologias que não necessariamente gerem empregos. Por isso é que a reforma agrária é importante, por isso é que a política agrícola, a construção civil e o saneamento básico são importantes. E, sobretudo, obras de infra-estrutura. Esses são setores altamente geradores de empregos. Por isso, estamos criando todas as condições para oferecer às empresas que têm recursos, sejam brasileiras, sejam estrangeiras, para que possam fazer as obras que o governo não pode. Obras de energia, de saneamento, de eletrificação rural, estradas, ferrovias, portos, aeroportos. Nós conseguimos um excepcional sucesso nesses 11 meses e vamos obter muito mais no segundo ano; isso é uma coisa que eu tenho certeza absoluta. É só fazer uma combinação da ação política correta com a utilização dos poucos recursos que nós temos. Além disso, mandamos para o Congresso Nacional a reforma da Previdência e a reforma tributária, que tantos governos tentaram ao longo dos anos e não conseguiram.

O que o senhor gostaria de ter feito e não fez nesse primeiro ano? Que desgosto o senhor teve?

Não teve nada que a gente quis fazer e que não foi possível ser feito. A diferença, muitas vezes, é entre a urgência da sociedade e a limitação do Estado. Por exemplo, quem no governo não gostaria que os juros brasileiros não fossem semelhantes às taxas dos juros europeus e dos juros americanos? E por que não é? Não é porque a economia brasileira não tem a solidez da economia americana. Não tem a confiabilidade da economia européia. Os compradores de títulos do governo não têm a confiança no Estado que têm os compradores de títulos dos Estados Unidos ou da França e da Alemanha. A nossa economia é frágil. Na hora em que a economia estiver mais sólida e nós tivermos mais reservas, certamente essa confiança vai aparecer. E eu trabalho sempre com a hipótese de que, em política econômica, não existe aventura. Eu já vi presidente da República com 90% de aprovação num mês e, seis meses depois, cair em desgraça. Porque faz as coisas de maneira meio atabalhoada e depois tem que voltar atrás. Eu quero aprender as coisas boas que os outros fizeram e quero aprender as coisas ruins para não repetir os erros e aprimorar os acertos. Então, a redução dos juros tem que ser feita com os passos do tamanho que a economia comporta. Não adianta você dar uma tacada e abaixar os juros 6 pontos porcentuais de uma só vez. A inflação repica para 10% e aí você é obrigado a aumentar os juros novamente. Quando se começa a fazer isso, se perde a confiança. Como eu tenho quatro anos de mandato e só 58 de idade, é suficiente para fazer as coisas certas no tempo certo. Sem ser moroso nem precipitado demais.

Seus críticos também costumam dizer que a máquina pública foi tomada de assalto pelo PT.

Os que levantam isso devem ter, dentro da máquina, pessoas que não gostariam que fossem trocadas. Gente do PFL, gente do PSDB. Qualquer cidadão brasileiro entende que, se eu ganhei as eleições, tenho que montar um time da minha confiança para trabalhar comigo. Eu não posso montar um time com alguém que não seja da minha confiança. É como se o Parreira fosse disputar um jogo com o Uruguai e pusesse um goleiro uruguaio para defender o gol do Brasil na hora dos pênaltis.

Por falar em Parreira, ele ficou nervoso com seu comentário sobre a atuação da Seleção no jogo contra o Uruguai.

Fiz apenas um comentário com o Stucker (Ricardo Stucker, fotógrafo da Presidência da República). Eu não dei entrevista. Acho que a Seleção Brasileira não tem muito mais jogadores do que o Parreira convocou. Eu considero o Parreira um grande técnico, porque ele treinou o Corinthians em um momento muito bom da história corintiana. E ele tem uma tese que eu concordo plenamente: a melhor forma de ganhar um jogo, em primeiro lugar, é não perder a bola. Quanto mais tempo você estiver com a bola, mais certeza terá que o adversário não marcará gol. Agora, da mesma forma que eu não posso achar ruim quando alguém critica alguma coisa errada no governo, o Parreira não pode ficar nervoso quando alguém diz que a Seleção não jogou bola. Quem conhece Ronaldinho, quem conhece Rivaldo, quem conhece Kaká, quem conhece os jogadores brasileiros sabe que eles podem render muito mais do que estão rendendo.

Partido dos Trabalhadores

 
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