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Viagem à África reforça política externa de Lula

11.11.2003 | Fonte de informações:

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"Eu acho que essa visita está dentro da nova política externa brasileira que não está só de olho na África, mas também em outros países em desenvolvimento que possam dar um equilíbrio nas relações mundiais no cenário internacional", disse ela à Agência Brasil. Campbell, que vive há 30 anos na África do Sul, também vê de maneira positiva a ampliação das relações comerciais com o continente africano. Leia a íntegra da entrevista, veiculada no site da Agência Brasil no último sábado:

Agência Brasil - O Brasil está dando uma atenção maior, em sua política externa, ao continente africano. Como a senhora avalia essa iniciativa? Zélia Campbell - O Brasil tem assumido, desde a posse do presidente Lula, uma nova posição de liderança no mundo em desenvolvimento. Antigamente, o país tinha uma política externa com perfil de pouca visibilidade, agora quer ser aceito como país líder do sul. Uma política que já foi chamada de ousada, embora Lula não queira admitir que o Brasil tenha certas aspirações hegemônicas. Até o presidente [dos EUA, George W.] Bush reconheceu essa aspiração de querer montar um esquema de parceria com outros países em desenvolvimento de grande extensão territorial e alto índice populacional, como Índia, China, Rússia e também a África do Sul. Quanto aos países pobres, o Brasil quer ajudar, mas sabe que tem limitações, sabe que a política externa de um país que quer uma posição de liderança custa dinheiro. O que o governo tem feito é propor alguns programas de ajuda, como por exemplo, no combate à Aids. O governo brasileiro tem feito algo muito limitado evidentemente pelo seu Orçamento. Destina US$ 1 milhão por ano para financiar um programa piloto para o tratamento de cem pessoas com Aids em 10 países pobres, desses, 5 estão na África (Burundi, Burkina Fasso, Moçambique, Namíbia e Quênia).

Em relação ao comércio, temos a União Aduaneira da África Austral (SACU) e, do lado de cá, o Mercosul. Seriam instituições equivalentes? Não. No princípio, quando o Brasil começou a ver o que poderia ser feito em relação a uma área de livre comércio entre Mercosul e África Austral, pensou em fazer essa união com SADC, que é a comunidade comercial da África Austral. Ela tem 14 países e vai até à África Oriental. Isso seria muito mais viável do ponto de vista econômico, mas a SADC está numa situação periclitante, não funciona tão bem e há muitos países que estão em ritmo de colapso, como o Zimbábue. Essa instituição seria o equivalente ao Mercosul. O Brasil ficou tão desanimado que não conseguia nada com a SADC que resolveu unilateralmente fazer uma tentativa de fazer uma aproximação entre Mercosul e África do Sul, atualmente por meio da SACU, que também inclui Botsuana, Lesotho, Namíbia e Suazilândia, o que está dando certo.

A sra. acredita que seja possível criar uma área de livre comércio entre o Mercosul e países africanos? Eu acho que sim, principalmente, tomando como base o Atlântico Sul. Tenho esperança de que isso tenha um lugar no futuro porque o Brasil é um país com uma costa totalmente voltada para o Atlântico, fato que resulta na criação de um grande interesse estratégico e comercial. Claro que, se os países africanos se consolidarem democraticamente e se houver um progresso econômico suficiente, há grandes possibilidades desse acordo vigorar. Por outro lado, há muitos problemas que terão de ser resolvidos. Por exemplo, a Libéria está enfrentando uma situação gravíssima politicamente. E um país como a Nigéria, embora esteja crescendo muito, teve problemas em tempos bem recentes. São Tomé e Príncipe acabou de passar por um golpe, mas agora parece que se consolidou. Precisamos pensar também no Golfo da Guiné, que tem uma riqueza enorme de petróleo de alta qualidade, que também interessa muito ao Brasil e aos Estados Unidos. Acredito que Angola possa ser a chave para entrada do Brasil neste grande mercado africano.

Na área da saúde, o Brasil pode participar mais ativamente dos projetos na África? O Brasil poderia colaborar se esses países estiverem dispostos a optar por genéricos. Mas esse é um problema muito grande. A vontade política de vários países africanos não existe ou é muito pouca. Mesmo na África do Sul houve muita divergência no programa de combate à Aids porque o governo, até hoje, não assumiu inteiramente a responsabilidade de oferecer os medicamentos necessários para o tratamento dos soropositivos. Se levarmos em conta os dados do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o Brasil tem uma incidência de Aids de 0,65% da população. Na África do Sul, esse número é de 21%. Em Botsuana, vizinha da África do Sul, a incidência é de 38,8% e no Zimbábue, de 33,73%. Um exemplo positivo desse combate à Aids ocorreu em Uganda, que conseguiu reduzir a incidência da doença de mais de 20% da população para 5%, simplesmente porque o presidente teve uma vontade política. E nesse aspecto a ajuda brasileira pode ser fundamental, tentando convencer os líderes políticos a fazer o que é preciso.

Como a sra. avalia a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à África? Eu acho que essa visita está dentro da nova política externa brasileira que não está só de olho na África, mas também em outros países em desenvolvimento que possam dar um equilíbrio nas relações mundiais no cenário internacional. Por exemplo, na formação do G-3. Essa comissão trilateral entre Brasil, África do Sul e Índia já é um começo, uma vez que possivelmente incluirá China e Rússia, tornando-se um contra peso ao G-8. Nos fóruns mundiais, como na última rodada da Organização Mundial do Comércio, em Cancún, o Brasil encontrou um grande parceiro na África do Sul para reivindicar os direitos dos países em desenvolvimento.

A sra. acredita que a curto ou a médio prazo nós possamos ampliar essas parcerias? Já estamos aumentando. Nos últimos quatro anos, o comércio entre o Brasil e a África do Sul tem crescido bastante, não de forma astronômica. Eu acho que não chegou ainda ao primeiro US$ 1 bilhão, mas, logo que chegar, vai para a frente. Com a Índia, o Brasil já tem um comércio que beira os US$ 2 bilhões. Devia acontecer o mesmo com a África do Sul, mas houve muitos empecilhos e as negociações ainda são lentas. Os governos agora aprenderam a lição: não vão procurar uma área de livre comércio tipo guarda-chuva, mas vão fazer pouquinho por pouquinho, setor por setor.

Em sua opinião, em quanto tempo poderíamos ter essa área de livre comércio operando? Não vou arriscar uma previsão. Digo que, se esse bloco não se concretizar antes do fim de 2005, então poderemos esquecê-lo, porque, ao que parece, teremos a Alca [Área de Livre Comércio das Américas] entrando em vigor nesse período. Se esse bloco entre Mercosul e África Austral não estiver já em funcionamento antes da Alca, vai complicar muito.

A Alca seria, na sua opinião, uma boa área de comércio para o Brasil? A Alca ainda está no formato primitivo de uma área de livre comércio. O Mercosul já ultrapassou isso, já é uma união aduaneira e quase um mercado comum. No atual formato da Alca, os EUA são o centro e os demais países estão vinculados a eles como num processo de servidão. É o que está acontecendo com o México, que tem ganhado com o Nafta, mas também tem se prejudicado muito. Não se sabe se o México estaria melhor dentro do Mercosul ou de uma área de livre comércio da América Latina porque ele está muito ligado à economia norte-americana. Isso é o que pode acontecer com os outros países. O Brasil tem essa noção e está lutando muito pelos seus interesses antes de concordar com a implementação da Alca nos moldes propostos pelos EUA.

Com um bloco econômico forte no Mercosul e a ampliação das relações econômicas com o continente africano, teríamos maior poder de barganha na Alca? Certamente. Não se esqueça de uma coisa: os Estados Unidos estão malucos pelo petróleo que vem da costa atlântica da África, já que o produto é de ótima qualidade. Os EUA também ficarão apreensivos se houver muita cooperação no eixo sul-sul, pois eles acreditam que esta área também seja sua esfera de interesse.

PT

 
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