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Eu vi essa gente atuar!

07.07.2003 | Fonte de informações:

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Digo isso porque é bom desconfiar daqueles que ocupam cargos de chefia. Geralmente os que lá estão, mexeram muitos pauzinhos, jogaram poeira por baixo do tapete e fecharam os olhos a irregularidades gritantes. Eles fazem qualquer negócio.

Isso tudo acontece especialmente em cidades e capitais periféricas, onde não há uma imprensa livre que possa descobrir os “podres” e levar a informação para a sociedade. Qual o último escândalo descoberto pela imprensa local envolvendo um vereador, prefeito; deputado estadual, federal; senador, governador ou um de seus respectivos secretários? Alguém sabe? Alguém? Temos duas opções para este caso: ou a nossa imprensa-assessoria-de-imprensa é muito desinformada ou os nossos políticos, tanto de direita quanto de esquerda, são uns anjinhos celestiais de conduta irrepreensível. Há também uma terceira alternativa que nenhum estudante de jornalismo não fala nem sob tortura chinesa por medo de se “queimar” com o mercado. Aliás, os cursos de Jornalismo do Rio Grande do Norte são verdadeiras lojas de tintas. Não se fala aqui em se ter uma imprensa “revolucionária”, seja qual for a definição que isso tenha hoje, mas em se cumprir o bê-a-bá da profissão, aquilo que lhe é primário e inerente.

Acreditem, se nosso país está assim como conhecemos, isso não se deve tanto aos grandes peculatos, mas as pequenas corrupções e tráficos de influência gerados nos seios das famílias, nos gabinetes de políticos, sindicatos, repartições públicas, pequenas empresas, polícia, nos judiciários, universidades e até nas redações jornalísticas dentre outros. Tudo agravado pela passividade e apatia do cidadão brasileiro. Os 10% cobrados que vão parar no bolso de um funcionário público, são os mesmos 10% que vão faltar na merenda de crianças famintas, como os filhos de sua faxineira, ou na bolsa de estudo de pós-graduação de seu próprio filho. Os 10% são os tijolos a menos na casinha popular e é o motivo pelo qual o asfalto da rodovia ficou mais fino e logo deixará esburacada a estrada por onde transitam de carroças de catadores de papel a Ferraris.

A corrupção prejudica ricos e pobres, atinge a todos e é uma infâmia para tanto quem recebe quanto para quem dá suborno.

No nosso país reivindicar significa ser mal visto, geralmente como metido, exibido ou esquerdista (só porque os petistas são exibicionistas). Frente a isso tudo, a corrupção no Congresso Nacional, chega a ser insignificante. Até porque os nossos congressistas não vêm de Marte, eles vêm da nossa sociedade. Se o Brasil assim o é, é porque nós não fazemos a nossa parte. O motorista e o guarda de trânsito falam mal do governo antes e depois de um corromper e o outro tornar-se corrompido. Dizer – “Se eu não roubar, outros vêm e roubam”, é não só uma desculpa esfarrapada de adolescente, como prova irrefutável de mal-caratismo. Afinal, não é porque há estupradores no mundo que nós vamos sair pelas ruas estuprando quem encontramos na rua. Quem disse que ser honesto e ter temperança seria fácil? Isso não se mede por palavras elogiosas mas pelas ações que fazemos no dia-a-dia. Da mesma forma, não existe corruptos em tamanho pequeno, médio ou grande.

Não estamos falando de roupas. Tanto é corrupto quem se corrompe por R$ 1,00 ou por 1 mais seguido de uma dúzia de zeros à direita. Da mesma forma que não existem ateus crentes ou gays heterossexuais.

Poucos cidadãos sabem as diferenças e atribuições do Congresso Nacional e de seus formadores: Câmara dos Deputados e Senado Federal. Se a corrupção partisse exclusivamente deles, seríamos um Canadá tropical. Ou você acha que os parlamentares canadenses, americanos, alemães e japoneses não roubam? Ingenuidade nossa pensar que nossos problemas se resolverão aqui com aquele ou outro candidato demagogo ou com o governo em Brasília.

Não adianta construirmos submarinos nucleares de um lado e instituirmos o Fome Zero do outro, quando o real problema são os malditos 10% de quem venderia a alma de sua mãe e a própria ao diabo pela mesma porcentagem...ou até por um pouco a menos de pedirem desconto.

Na última visita oficial do presidente Clinton ao Brasil, quando a embaixada americana emitiu um informe dizendo que a corrupção no Brasil é endêmica houve protestos do PFL ao PSTU, passando pela, imprensa, Igreja, Forças Armadas, Xuxa, Faustão e Gugu, muito patriótico da parte deles. Nem quando o presidente Reagan disse que estava feliz por visitar a Bolívia, quando por aqui esteve, houve tanto protesto! Talvez pelo paliativo dele ter dito que estava feliz, afinal como bem diriam os professores de Jornalismo da UFRN, o que vale é a intenção.

Mas a questão principal não é a intromissão dos yankees em nossos assuntos internos, nem o apêndice da típica hipocrisia americana. A hipocrisia é de nossa parte. A questão primordial é: os americanos mentiram? Não, esse pecado eles não cometeram.

Para os norte-rio-grandenses pelo menos, a saída não é o aeroporto Augusto Severo. Porque passagem de avião é cara, além de se correr o risco de, na pressa, pegar um vôo para São Paulo. Para nós a saída é mesmo a nado, tomando cuidado para não pegar uma corrente marítima daquelas de Cabral (o culpado por tudo) que nos leve para a África.

AÍ, nós pularíamos da caldeira para cair no fogo...cruzado, literalmente.

Quando alguém, por exemplo, acusa outra pessoa de ter cometido um crime ou pede explicações sobre possíveis irregularidades em algum órgão do serviço público, é fácil encontrar obstáculos quase intransponíveis e ver mudadas em armadilhas as denúncias feitas àquelas próprias autoridades a quem se compete julgar o caso.

Tudo poque há entre eles a obediência a um código mafioso. Eu vi essa gente atuar!

Tudo isso mostra o quanto aqueles que detém o poder são perigosos e ferozes. Verdadeiros especialistas em tratar a coisa pública como se deles fosse. Eles sabem como a banda toca, sabem como decodificar as informações, as leis, os estatutos e se utilizam disso para nos intimidar. Para eles, herdeiros da tradição colonial da casa-grande e senzala, o ideal seria baixarmos as nossas cabeças ao início da verborréia de quem pensa deter a primazia do conhecimento e do poder. Um vaqueiro usa um tronco para amansar um touro, os medíocres acham que uma ameaça de processo penal basta para nós.

Não é preciso se ter a idéia ingênua de que é possível revolucionar o mundo de uma hora para a outra. É preciso apenas que cada um faça a sua parte...aliás, não tire a sua parte.

O corrupto finge não conhecer a face triste de quem tem fome. Quem tem olhos que brilham ante os 10% não pensa que seus filhos e netos poderão não ver o verde sobre a Terra. Ele não se importa com nada, só com os 10% que irá receber. Pobre idiota, ele não sabe que ganha mais quem se importa com os 100%, com todos.

Adriano COSTA PRAVDA.Ru RIO GRANDE DO NORTE BRASIL

 
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