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Urariano Mota: O TEMPO DE PAULINHO DA VIOLA

04.08.2003 | Fonte de informações:

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Sabem aquele irmão a quem muito prezamos e em silêncio guardamos? Sabem aquele afeto que não se expressa em verbo porque no que carregamos ele já é uma expressão? Sabem aquela comunhão antiga que nem precisa falar? Então sabem por que essas palavras até aqui não foram ditas. Mas compreender não é o mesmo que ficar contente. Pois como existe este tempo de barbárie, de soberano desprezo à manifestação da alma, de ódio e destruição até ao existir, então é chegada a hora de falar de Paulinho da Viola. Para que a ausência da fala do sentimento não se confunda com a ausência do próprio sentimento. Para que o equívoco não tome o lugar da pessoa. Falemos, mas com cuidado. Com cuidado para não cair em um pior silêncio, o vazio da expressão gasta. Tentemos então, para perder e ganhar.

A gente nem precisa dizer que Paulinho, em uma música popular tão rica, tão larga e múltipla como a brasileira, a gente nem precisa dizer que Paulinho é um dos seus melhores compositores. Isso poderia ser dito em relação a Noel Rosa, a Cartola, a Pixinguinha, ou a Chico, ou a Caymmi, ou a Tom. Dizê-lo um dos melhores ainda não é o seu específico. Avizinhando-nos da luz, pressentimento, a gente nem precisa dizer que ele faz a ligação entre a tradição e a vanguarda. Não precisa porque isso pode ser dito de todo compositor brasileiro digno do nome. Isso ainda não é o seu específico. O que precisa ser dito, argumento, é que Paulinho da Viola não é Um compositor. Precisa ser dito que Paulinho da Viola é muitos e vários compositores, é uma soma de gerações de compositores da Velha Guarda do samba. Mas isto, se é específico, ainda não é exato, preciso. Porque a soma não é a unidade, ela é um amontoado, visto de longe. Vista assim do alto, para melhor vê-lo, a presença de Paulinho seria uma reencarnação de sambistas que se foram, se por reencarnação compreendemos as folhas secas que ressurgem no verde, queremos dizer, folhas secas que se fizessem azuis, vermelhas,brancas, negras, queremos dizer, por fim, se por reencarnação compreendemos as gerações que voltam reiventadas, algo como um 1920 mudado em 2020, como um 12 mudado para um certo 21, ou: como se Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Batista, Nelson Sargento, Candeia, sem deixarem de ser eles mesmos fossem um outro, que vem a ser um compositor nascido hoje. A alma dessa gente renascida.

Mas como é mesmo que Paulinho faz esse feitiço? A gente nem precisa consultar a discografia, basta anotar o que nos vem à memória. Minha vez de sorrir chegou agora, quem perde é quem chora, Nelson Sargento. Duas horas da manhã, contrariado espero pelo meu amor...parece até que o coração me diz, sem ela eu não serei feliz, Nelson Cavaquinho. Cego é quem vê só aonde a vista alcança, Candeia. Pra quê, pra quê mentir, se tu ainda não tens esse dom de saber iludir? pra quê mentir tanto assim, se tu sabes que eu já sei, que tu não gostas de mim, apesar de ser traído pelo teu ódio sincero, ou por teu amor fingido?, Noel. Quem me conhece, passa por mim, jogando piada, sorrindo, Geraldo Pereira. Fim da tempestade, o sol nascerá, Cartola, Elton Medeiros. E tantos nos vêm e deixamos escapar que a omissão de um nome é crime, Carlos Cachaça, Zé Kéti, Casquinha, Aniceto, Manacéa, Monarco, Zé da Zilda, Mijinha... que as reticências nos defendam.

Poderia ser dito, regravar velhos sambas é simples: basta pôr a voz e gravar. A resposta a isto, sentimos a esta altura, quase nos cala. Falar de um compositor de música somente com palavras não é fala precisa, seta na mosca. Porque teríamos que fazer ouvir a quem nos lê: - “Ouça Duas horas da manhã, é Nelson Cavaquinho e é ao mesmo tempo Paulinho, o mesmo Paulinho de Sol e Pedra, e de Coração leviano. Ouça”. Porque dizer que ele faz de composições da Velha Guarda composições suas, ou dizer que ele busca na Velha Guarda a própria voz cantada antes, não seria claro e preciso para quem simplesmente nos lê sem a experiência e a felicidade da música de Paulinho. Façamos então um pacto com o mais simples: falemos do tempo de Paulinho da Viola refletido em instantes de 2 linhas de nossa vida mesma.

Quando “Foi um rio que passou em minha vida” foi lançado, éramos estudantes numa sexta-feira à noite, numa serenata em Maria Farinha. Achávamos então que a revolução socialista seria a coisa mais natural do mundo. E por ser assim tão natural, nada demais também que ouvíssemos, não se espantem, 41 vezes, seguidas, contínua e incansavelmente foi um rio, foi um rio, foi um rio... . Naquele ano, e por que não ainda? , todos nós éramos Paulinho, nessa estranha empatia, mistura de identidades que a verdadeira arte produz. Todos nós repetíamos, e repetimos, e repetimos... que “meu coração tem mania de amor, e amor não é fácil de achar”. À maneira de cantar, gritávamos esses versos então.

Depois, morando na Pensão Princesa Isabel, no centro do Recife, Paulinho era Simplesmente Maria. “Na cidade, é a vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente, Maria, Maria, teu filho está sorrindo, faz dele a tua ida, teu consolo e teu destino, Maria...”. Nesse tempo, sempre compreendíamos o “faz dele a tua ida” como um “faz dele a tua ira”. Enquanto subíamos a escada para um quartinho isolado no alto, da televisão da sala vinha a música, tema de uma novela. Ela nos lembrava sempre que estávamos sozinhos e sem mãe, cujo nome também era Maria. À hora dessa música sempre esperávamos algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar. Sem Maria que nos velasse.

Então houve Para um amor no Recife. Diziam então que Paulinho fizera essa música para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas, e as más línguas principalmente, acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão porque mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”. Esta é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título.

Nos 61 anos que se aproximam, o compositor entra no seu maior e melhor tempo. Que sorte imensa a nossa em ter sobrevivido aos piores temporais para viver essa maturidade! Nessa estranha identificação, nós, os Paulinhos de todas cores, raças e credos, saudamos as gerações de sambistas nesse Paulinho do documentário. O que ele anunciava num Samba Curto, “só me resta seguir rumo ao futuro, certo do meu coração mais puro”, agora vem chegando, agora atinge o seu tempo. Menos puro que o esperado, como é bom esse coração amadurecido pelo crisol, pela lembrança de quando o tínhamos somente dor. Que podemos fazer quando as águias piscam à civilização desse moleque bamba? Tentar, tentar comprendê-lo em uma crônica curta, que pudesse ao fim ser dedicada a Roberto Mota, a Paulo César Fradique, a Hugo Cortez, a Zanoni Carvalho, a Mário Sapo, a Marco Albertim, aos amigos que vêm chegando. Como não o conseguimos, só nos resta gritar, como em Maria Farinha em 1970: Viva Paulinho! Viva Paulinho! Desta vez, como uma premonição e um desejo, 101 vezes.

 
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