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Genoino: Vamos mostrar o trabalho do PT no país

02.03.2004 | Fonte de informações:

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O presidente nacional do PT, José Genoino, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, no último domingo (29), que a estratégia para as eleições de 2004 será fazer alianças éticas, amplas, com critérios, apoiar o governo Lula e não comprometer o padrão democrático e ético do PT. Alguns trechos da entrevista foram publicados pelo jornal. Leia aqui a íntegra da entrevista com Genoino.

Qual a sua opinião a respeito da chamada crise política do país?

Eu acho que temos um fato policial e criminal. O governo tomou medidas imediatas e enérgicas, que estão aí, sendo acompanhadas pela imprensa, cmo o que a Polícia Federal e o Ministério Publico estão fazendo. O governo demitiu Waldomiro. E setores conservadores, no momento que o governo fez a reforma ministerial – bem sucedida –, que trabalhava para a agenda de 2004 com crescimento econômico, com a melhoria dos programas sociais e que complementarão a agenda legislativa, esses setores fizeram uma disputa política para tentar colocar uma cunha, no sentido de enfraquecer o governo e, principalmente, atacar o PT. Portanto, eu acho que houve um ambiente artificial de crise política. É um fato criminoso que Waldomiro tem que pagar por ele. O governo que tomou as medidas que tomou e baixou a Medida Provisória fechando os bingos é uma demonstração de que é um governo que agiu rapidamente e não tem nada a temer.

Em Julho, a "Isto É" já apontava algumas irregularidades da atuação de Waldomiro. Nesta época, o ministro José Dirceu não deveria tê-lo afastado do governo?

Veja bem, nós não podemos aceitar a tese de acusar seu superior porque seu subordinado praticou alguma irregularidade, antes de assumir o governo, mesmo que esta irregularidade tivesse ocorrido no período em que ele serviu na Casa Civil. O ministro José Dirceu não tem nada a ver com essa irregularidade. Esse episódio criminal e policial mostra para os dirigentes do PT que estão no governo maior vigilância, maior cuidado, maior controle das nomeações.

Temos que tirar deste episódio estas lições. Por exemplo, nós não podemos aceitar que erro desse procedimento produza, por parte dos setores conservadores, a tática de atacar a centro-esquerda, de atacar José Dirceu. Tenta enfraquecer o governo, mas o alvo principal é atacar o PT. O compromisso do PT com a mudança no país é inegociável, estamos preparando a agenda de 2004 para esse processo, retomar o crescimento econômico, melhorar os programas sociais, e o PT fez da ética um campo de batalha, nós temos clareza disso.

Por exemplo, em dezembro de 2003, o PT, na reunião do Diretório Nacional, disse que as exigências de ética na vida social, de moralização na vida pública são tão fortes que a opinião pública não está mais disposta a tolerar desvios de conduta, desperdícios de recursos. Por isso, o governo deve ficar sempre vigilante quanto aos desvios éticos, as pequenas e grandes benesses do poder, falhas dessa natureza são incompatíveis com o partido, que fez da luta pela moralidade pública um campo de batalha.

O nosso governo deve aprofundar o sentido republicano do Estado, valorizando cada bem público, através do combate ao desperdício e prestação de contas. O PT tomou essa posição, na sua história, enfrentou vários episódios, e porque os adversários sabem que isso mexe tanto com o PT, é como a nossa vida. Quando a gente não pratica uma coisa e culpam a gente, a gente fica incomodado. O PT fica incomodado porque o seu patrimônio, seus milhares e milhares de militantes e filiados, seus dirigentes têm uma conduta correta, quando tem algum erro de procedimento, quando algum filiado pratica algum erro grave, o PT já mostrou que corta na carne, às vezes até com injustiça e justiça. Então, eu acho que tem uma disputa política em curso, o PT é o alvo tendo em vista o ano eleitoral de 2004, o objetivo é enfraquecer o governo, atacar o PT para a disputa de 2004 e tentar, evidentemente, com isso, fazer aquilo que eu qualifico como lacerdismo tardio de alguns que buscam igualar todo mundo.

Portanto, temos clareza do que está em disputa nesse processo: o julgamento moral. Você pode fazer o julgamento moral de um partido, com 800 mil filiados, centenas de militantes, vários dirigentes, um partido grande que pode na sua história – e já teve isso – ter erros, até graves, mas que o partido corta, como ele pode ser julgado: o partido acabou!! O partido tá na lama!!

Isso é um julgamento autoritário, injusto, inaceitável, essa disputa política em curso na maneira em que assunto foi inflado, projetado.

O senhor falou que Waldomiro não é do PT, e o caso é que estão querendo bater no partido. O PT vinha sendo bombardeado pela oposição de aparelhar o Estado, os ministérios, de fato, são comandados por pessoas ligadas ao PT, o partido tem história. Por que o Waldomiro fugiu a essa regra?

Waldomiro nunca foi do PT, ele nunca participou de reuniões do PT, trata-se de um crime policial e criminal. O servidor que pratica aquele tipo de crime não pode ser motivo de pedir a cabeça de seu superior. As irregularidades de Waldomiro não tem nada haver com o ministro José Dirceu. Eu tenho os dados aqui sobre o número de cargos que o PT tem no governo, para não dizerem que o PT tem aparelhado o Estado. Isso não é verdade.

De 17 mil servidores de função gratificada o PT só nomeou 13%. Nós chegamos a nomear cerca de 35%, que é gente de carreira, só houve uma nomeação de 100% na carreira especial, os ministros e os secretários de ministério. Portanto, o PT não aparelha a máquina. Vários órgãos do governo têm pessoas que não são do PT, seja nos bancos, nas estatais, nos ministérios, não houve caça às bruxas, não houve perseguição a ninguém. Na própria Casa Civil e nos outros ministérios, há pessoas que não são do PT, nem filiadas.

Esse servidor (Waldomiro) praticou um crime em 2002. O governo tem um inquérito aberto, e a imprensa cobre tudo, tudo de modo transparente. A Polícia Federal dá entrevista, ele foi exonerado, portanto, não há uma investigação mais rigorosa e transparente do que essa, até mais rápida que esta CPI no Congresso, porque a CPI investiga e manda para o Ministério Público, o ministério está em cima do caso, vai quebrar sigilo, vai ouvir as pessoas, num processo absolutamente transparente. Neste caso de servidores, a indicação não é ser filiado ao PT, nós nunca cobramos carteirinha de quem entra no governo.

O partido cumpriu um papel de oposição no governo FHC, de uma forma que todos reconhecem, cobrou um momento importante, a compra de votos, BNDES, abertura de CPI, por que agora o PT não apoia a CPI?

Ainda bem que você cita que todas as CPIs que o PT botou no Congresso Nacional foram de fatos, denunciados durante o governo, no governo FHC, foi a pasta rosa, a reeleição, as privatizações, depois o BNDES. Os fatos denunciados publicamente pela imprensa, no caso da compra de votos, foram vocês (Folha de S.Paulo)que divulgaram as fitas. Nós nunca trouxemos um fato anterior ao governo para fazer a CPI contra o governo.

Estou muito à vontade, porque durante 20 anos no Congresso Nacional, nunca me especializei em CPI, aliás, não há nenhum requerimento encabeçado por mim. Nunca fui de ficar indo ao Ministério Público, a Polícia Federal. Sempre tratei meus adversários no campo da política, até tenho menções de livros nestes episódios, me acusando de ser contra a esse encaminhamento, estão registrados.

Qual a posição do PT com relação ao jogo no Brasil?

A minha posição pessoal: acompanhei a CPI do jogo do bicho e, triste lembrança, em 1996. Acompanhei, quando era líder da bancada, a aprovação da Lei Pelé. A bancada defendeu que na aprovação da Lei Pelé – eu negociei inclusive com Pelé – para que tirasse os bingos. Defendo que acabem com o bingo e o caça-níquel. É uma atividade que não sabemos onde termina o legal e onde começa o ilegal, tem que fechar, vou defender essa posição no partido e na bancada. No Congresso, tenho sempre me colocado contra a legalização do bingo, do caça-níquel. Como Presidente do PT, vou defender essa posição para a bancada e internamente no PT.

Para o partido, o patrimônio é a questão ética. Muitos adversários, e o senhor já dizia que nem todo mundo é no PT puro, diz isso desde de 2002...

E reafirmo esta frase. Mas o PT já mostrou que abre sindicância, faz comissão de ética e inclusive coloca medidas disciplinares. O que os julgadores apressados do PT deveriam levar em conta é: não se pode fazer um julgamento abstrato sobre 18 mil filiados, militantes e dirigentes que têm história e transparência. Se alguém erra, que se faça esse julgamento individualizado. Todo julgamento abstrato coloca um autoritarismo, que pode ser político, intelectual, acusatório. Se alguém do PT for pego, comprovadamente, cometendo irregularidades, o partido tomará imediatamente suas medidas.

O PT não foi muito firme, ao retirar a senadora Heloísa Helena, como também está sendo firme neste caso?

São casos totalmente diferentes. Não existe ninguém do PT com acusação de corrupção. A irregularidade de um subalterno não leva ao julgamento do superior. É a mesma coisa que julgar o Cristo pela traição de Judas. Trabalhamos o ano inteiro, negociei para que não saíssem até a última hora. Ali foi uma questão de disciplina partidária. Na operação Gafanhoto, o governador de Roraima pediu afastamento do partido para serem apuradas todas as questões. O PT não compartilha com irregularidade e não vai passar a mão na cabeça de ninguém.

O senhor defenderia um afastamento temporário do ministro (José Dirceu) do governo?

Não existe nenhuma acusação contra o ministro. José Dirceu não praticou nenhum ato irregular. Sou solidário e tenho total confiança no companheiro Dirceu, pela sua história, pelo que ele fez como presidente do PT durante oito anos e pelo que ele está fazendo no governo. Quando um senador pede a saída de Dirceu, fica claro que o objetivo não é investigar. É atacar uma figura política importante para o PT e para o governo. Tem a dureza. A luta política é árdua, e estaremos com ele.

Houve algum erro do partido com relação a moção de apoio?

Não. O partido teve a vontade de se expressar contra a injustiça em relação ao ministro José Dirceu. Recebi manifestações de vários Estados e dirigentes de um ato político a favor de Dirceu. Anunciamos em Brasília, só que o partido é construído no diálogo. Então, conversando com outros dirigentes e membros do governo, ponderamos e vamos fazer uma reunião política em São Paulo. Fechada, com membros da Direção Nacional, prefeitos, com coordenadores das nossas campanhas nas capitais, para trocar informações. Vamos defender o governo com a agenda de 2004. É fundamental agilizar a agenda do Congresso, a reforma do Judiciário, a reforma política, e aprovar a MP dos Bingos.

No caso de Santo André, o PT defendeu a tese de que era um crime comum. O Ministério Público foi em outra linha de investigação. Como o senhor vê esse episódio?

Quem construiu o inquérito como crime comum foi a polícia estadual, a Polícia Federal e o Ministério Público Estadual (SP), instituições não comandadas pelo PT, anunciadas em 2001, tanto de Campinas como de Santo André. O PT não investigou nada, mas vamos aos fatos: 24 de Janeiro, isto é, quatro dias depois do assassinato (do prefeito Celso Daniel), justifica a quebra de sigilo telefônico para a questão de entorpecentes? Essa fita é ilegal, não tem nada que comprometa o PT, nem seus dirigentes. O PT vai continuar acompanhando com o advogado Aristides Junqueira.

O caso Waldomiro muda a estratégia do PT para as eleições?

Vamos trabalhar muito para ganhar. Queremos ampliar as capitais, os pólos e cidades médias e pequenas. Mas nosso adversários anteciparam a tática. Vamos nos defender. Nada ficará sem resposta. Vamos mostrar o que já construímos neste país, nas prefeituras, o que estamos fazendo no governo federal. Vamos fazer aliança com os partidos que apoiam o governo Lula. Uma das resoluções que aprovamos na reunião do Diretório Nacional foi fazer alianças éticas, amplas, com critérios, apoiar o governo Lula e não comprometer o padrão democrático e ético do PT. E o PT vai ter a cabeça de chapa onde houver um nome bom.

O senador José Serra pode estar por traz do caso Waldomiro ?

O que existe é uma articulação dos setores conservadores. Há setores que não aceitam que esse governo faça mudança. Em relação aos episódios de gravação, bastidores, a minha referência aos casos do PMDB, nunca acusei nominalmente ninguém, remeti à eleição 2002, aos buxixos de terrorismo. Não fiz acusação direta, isso porque, foi investigado tudo, o conteúdo criminal da fita, e, também, como ela foi feita e porque ela foi feita e ficou anos escondida.

O PT está se informatizando com um leasing do Banco do Brasil. Como o senhor reagiria se fosse o PFL, ou o próprio PMDB que estivem fazendo hoje...

Solicitaria informações como sempre fiz em toda minha biografia na Câmara. O PT fez um contrato dentro das regras de mercado, transparente, que tenho segurança de honrar esse contrato. Nós agimos dentro das regras do mercado, com transparência.

Qual a taxa de juros ?

Não sei te informar, mas são as negociadas com as regras de mercado.

Como é comandar o PT nesta experiência inédita que é ser governo federal com reformas, expulsão dos radicais, qual o balanço de sua gestão?

Assisti recentemente à "Adeus Lenin" com minha companheira. Gostei do filme e disse para ela: "a nossa geração, fez assim, fomos originários, fomos até o fim, corremos todos os riscos, sabemos o que é derrota, não derrota eleitoral, derrota de cinco anos de cadeia, de incomunicabilidade, de segurar a derrota como pedra no dente. Aliás, quebrei alguns dentes. Trabalhamos por esse novo Brasil, com a fundação e o crescimento do PT. A minha vida política está realizada, não tenho aspirações pessoais. Eu jogo num time, que dirige o governo. Tenho total confiança em meus companheiros. Minha tarefa é essencial para o PT, não faço nada mal humorado. Venho para o PT, bem humorado, tenho noção da responsabilidade deste partido e tenho total confiança na capacidade. Não nasci com Lula na mesma família, mas ele me levou para o PT e aprendi muito. Me sinto muito bem no que estou fazendo. Sobre a minha vida política, tenho três tarefas: defender o governo, presidir o PT e as eleições de 2004. Quando a gente é governo um dia vale um mês, um mês vale um ano, um ano vale dez.

O senhor foi cogitado para assumir a Casa Civil?

É a primeira vez que ouço falar disso. Eu fiz uma opção e estou feliz de presidir o PT até 2005, quando haverá eleição direta. Depois, vejo o que faço.

O senhor falou em conservadorismo. É a direita?

O PT é radical, vai sempre defender seu programa de mudanças. A sociedade brasileira vem de uma experiência de 500 anos de governos autoritários, conservadores. Você mudar um país não é fácil. Então, os conservadores querem um governo fraco, querem atacar o PT para poder voltar em 2006. Temos que ter consciência dessa disputa política em curso.

 
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