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A autodestruição da esquerda contaminada pelo lulismo

17.05.2018 | Fonte de informações:

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A autodestruição da esquerda contaminada pelo lulismo


Foto: Eva­risto Sá/AFP

Por Ha­milton Oc­tavio de Souza, no Correio da Cidadania


In­flu­en­ci­ados pelas ar­ti­ma­nhas do lu­lismo, vá­rios seg­mentos da es­querda per­deram, nos úl­timos anos, a pró­pria ca­pa­ci­dade de lei­tura crí­tica da re­a­li­dade, abriram mão da in­de­pen­dência po­lí­tica e em­bar­caram em pro­cesso sui­cida cada vez mais dis­tan­ciado das classes tra­ba­lha­doras, do povo, da so­ci­e­dade e do po­ten­cial de mi­li­tância de es­querda la­tente na ju­ven­tude bra­si­leira. O mer­gulho equi­vo­cado no dis­curso fan­ta­sioso da di­reção pe­tista fra­gi­lizou pro­jetos autô­nomos e di­fe­ren­ci­ados de afir­mação da es­querda par­ti­dária e so­cial e con­duziu boa parte desse campo po­lí­tico-ide­o­ló­gico a uma si­tu­ação de su­bor­di­nação cega a agru­pa­mento que beira o mes­si­a­nismo. Como é pos­sível que par­cela da es­querda tenha per­dido o fio con­dutor da ra­ci­o­na­li­dade e da his­tória?

Sem des­prezar o mé­rito de aná­lises mais am­plas e de­ta­lhadas da con­jun­tura econô­mica mun­dial, da crise do mo­delo ne­o­li­beral e das inú­meras mu­ta­ções do ca­pi­ta­lismo no jogo in­ter­na­ci­onal, que está a exigir, per­ma­nen­te­mente, apu­radas e efi­ci­entes es­tra­té­gias na luta de classes, in­te­ressa con­cen­trar a pre­sente ava­li­ação nos marcos da luta po­lí­tica no in­te­rior do Es­tado-Nação, aos acon­te­ci­mentos lo­cais que estão mu­dando a face do Brasil no de­correr desse início de sé­culo 21, entre os quais im­porta des­tacar:

1 - A eleição de Lula em 2002 com em­pre­sário de vice e a Carta ao Povo Bra­si­leiro

Após ser der­ro­tado em três dis­putas elei­to­rais para a pre­si­dência da Re­pú­blica (1989, 94 e 98), Lula en­frentou a cam­panha de 2002 com vá­rias mu­danças sig­ni­fi­ca­tivas, desde a ali­ança com par­tidos tra­di­ci­o­nais da di­reita, a in­clusão de grande em­pre­sário mi­neiro (José Alencar) na chapa, o dis­curso do "Lu­linha Paz e Amor" para agradar as classes mé­dias, o apoio de oli­gar­quias do Nor­deste e de par­cela da elite in­dus­trial pau­lista e, claro, a sur­pre­en­dente Carta ao Povo Bra­si­leiro, ela­bo­rada com aval da Ode­brecht, fa­mília Ma­rinho e ban­queiros, se­lando o com­pro­misso do lu­lismo com o mo­delo ne­o­li­beral e o jogo do mer­cado. 

Era tudo o que os bancos e se­tores ren­tistas que­riam. Evi­den­te­mente, o Lula de 2002 não tinha mais nada a ver com o Lula de 1989, o lu­lismo já tinha o con­trole quase ab­so­luto do par­tido e vá­rias cor­rentes e mi­li­tantes de es­querda já ha­viam sido em­pur­rados para fora do PT. É o caso dos pe­tistas que cons­ti­tuíram o PSTU, o PCO e ou­tras or­ga­ni­za­ções.

Di­lema: O papel da es­querda era ga­nhar a eleição a qual­quer preço ou con­ti­nuar de­fen­dendo suas pro­postas até con­quistar a po­pu­lação e acu­mular forças para re­a­lizar mu­danças es­tru­tu­rais no país?

2 - O es­can­da­loso es­quema do "men­salão" com compra de votos no Con­gresso Na­ci­onal
 
O pri­meiro go­verno Lula, con­si­de­rado "em dis­puta" por vá­rios ana­listas no campo da es­querda, ra­pi­da­mente tri­lhou o ca­minho do opor­tu­nismo e do fi­si­o­lo­gismo: de­cidiu fazer re­forma da pre­vi­dência contra os in­te­resses dos tra­ba­lha­dores, o que pro­vocou a ex­pulsão de par­la­men­tares fiéis ao pro­grama par­ti­dário, os quais ca­mi­nharam para a cons­trução do PSOL; aban­donou a pro­posta ori­ginal do pro­grama Fome Zero, que previa a adoção de re­formas es­tru­tu­rais, para lançar o pro­grama Bolsa Fa­mília, ti­pi­ca­mente as­sis­ten­ci­a­lista e que até hoje não li­vrou im­por­tante par­cela da po­pu­lação da rei­te­rada ex­clusão econô­mica e so­cial; des­cartou o pro­jeto de re­forma agrária co­or­de­nado por Plínio de Ar­ruda Sam­paio, que previa o as­sen­ta­mento de 1 mi­lhão de fa­mí­lias e mu­danças pro­fundas na es­tru­tura fun­diária do país, para aderir ao pro­jeto do agro­ne­gócio, que gera vi­o­lência no campo, con­centra a terra e é pro­fun­da­mente da­noso ao meio am­bi­ente. Vale lem­brar que o nú­mero de as­sen­ta­mentos no go­verno Lula ficou abaixo ao que foi re­a­li­zado no go­verno an­te­rior de Fer­nando Hen­rique Car­doso e que o MST man­teve a com­ba­ti­vi­dade du­rante a maior parte do go­verno Lula e foi tra­tado fri­a­mente como mo­vi­mento de opo­sição. 

Além disso, o lu­lismo en­fiou-se na lama com des­vios de re­cursos pú­blicos e cap­tação de pro­pinas para com­prar par­la­men­tares no Con­gresso Na­ci­onal, no­ta­da­mente do PTB de Ro­berto Jef­ferson, do PP de Paulo Maluf e do PR de Wal­demar Costa Neto, entre ou­tros. O es­cân­dalo do "men­salão" abalou o go­verno Lula, que jogou toda a en­crenca nas costas de José Dirceu, José Ge­noíno, De­lúbio So­ares e Sílvio Pe­reira. Em­bora seja di­fícil de acre­ditar que o "dono" do par­tido e pre­si­dente da Re­pú­blica não ti­vesse co­nhe­ci­mento do es­quema, o fato é que se­tores da bur­guesia, da grande im­prensa, da in­dús­tria e do sis­tema fi­nan­ceiro de­ci­diram pre­servar Lula como a so­lução "menos pior" na­quele mo­mento, o que o deixou o lu­lismo mais en­re­dado com os grupos econô­micos e po­lí­ticos tra­di­ci­o­nais. Ga­nhou a eleição de 2006 com arco mais amplo de ali­anças à di­reita.

Di­lema: O papel da es­querda era in­sistir no pro­jeto de con­ci­li­ação pro­posto pelo lu­lismo ou cons­truir opo­sição séria e firme ao ne­o­li­be­ra­lismo, às ve­lhas oli­gar­quias e ao con­ser­va­do­rismo de di­reita?

3 - O su­cesso po­pular das me­didas so­ciais efê­meras do go­verno pe­tista

O go­verno Lula apro­veitou a maré econô­mica fa­vo­rável com cres­ci­mento pu­xado pela China, ex­pansão do mer­cado in­ter­na­ci­onal de com­mo­di­ties e ra­zoável equi­lí­brio fiscal para adotar me­didas de grande sig­ni­fi­cado po­pular, como o re­a­juste do sa­lário mí­nimo acima da in­flação e a mas­si­fi­cação do pro­grama Bolsa Fa­mília, que foram res­pon­sá­veis pelo au­mento do poder aqui­si­tivo na base da pi­râ­mide so­cial e grande ex­pansão do con­sumo, também es­ti­mu­lado por cré­dito farto ofe­re­cido por agentes fi­nan­ceiros pú­blicos e pri­vados a juros ex­tor­sivos. 

Os in­ves­ti­mentos em obras de in­fra­es­tru­tura, re­passes de re­cursos pú­blicos para os sis­temas de saúde e de edu­cação pri­vados (ProUni e FIES nas uni­ver­si­dades par­ti­cu­lares), isen­ções fis­cais e de­so­ne­ra­ções de vá­rios se­tores in­dus­triais - foram me­didas que con­tri­buíram tran­si­to­ri­a­mente para di­mi­nuir a mi­séria, a des­nu­trição e também criar ex­pec­ta­tiva fa­vo­rável ao início de nova era de bem-estar no país. Lula surfou na onda do "ganha-ganha" (ga­nham os po­bres e ga­nham os ricos), quando boa parte da so­ci­e­dade em­barcou na ilusão de um mundo sem perdas, com su­pe­ração dos con­flitos so­ciais, a do­mes­ti­cação dos sin­di­catos e o iso­la­mento de mo­vi­mentos po­pu­lares mais com­ba­tivos. 

Lula ter­minou o se­gundo man­dato com ín­dice de apro­vação de 83%, elegeu seu "poste" Dilma Rous­seff em 2010, impôs o vice Mi­chel Temer (MDB) na chapa pre­si­den­cial e deixou o go­verno for­ta­le­cido por amplo leque de par­tidos tra­di­ci­o­nais, fi­si­o­ló­gicos e de di­reita, desde o PP de Maluf, o PRB da Igreja Uni­versal, o MDB de José Sarney, Edu­ardo Cunha, Ro­mero Jucá, Renan Ca­lheiros, Jader Bar­balho, Hen­rique Alves, Geddel Vi­eira Lima, Sérgio Ca­bral, e mais uma dúzia de le­gendas de alu­guel. Vale lem­brar que o es­quema de pro­pinas via di­re­to­rias da Pe­tro­bras já es­tava fun­ci­o­nando a todo vapor, abas­te­cendo po­lí­ticos e os caixas de pelo menos três par­tidos: PP, MDB e PT. 

Di­lema: O papel da es­querda era si­len­ciar e ficar co­ni­vente com a eu­foria tem­po­rária de in­clusão sem con­sis­tência ou adotar pos­tura crí­tica contra a ilu­sória re­dução das de­si­gual­dades?

4 - A gestão Dilma Rous­seff e a ex­plosão de in­sa­tis­fação geral de junho de 2013.

O sonho de um Brasil prós­pero, de bem-estar ge­ne­ra­li­zado com renda alta, em­pre­ga­bi­li­dade e paz so­cial, acabou nos pri­meiros anos do go­verno Dilma. Pri­meiro porque a eco­nomia mun­dial pa­tinou na es­tag­nação ainda de­cor­rente da crise de 2008, a China re­duziu o ritmo de cres­ci­mento e as com­mo­di­ties na­ci­o­nais per­deram es­paço no mer­cado global. Os ca­pi­tais tra­taram de buscar portos mais se­guros. Se­gundo porque, de um lado a po­lí­tica de "de­so­ne­ra­ções" de­sen­ca­deou enorme queda da ar­re­ca­dação fe­deral, nos es­tados e mu­ni­cí­pios, com au­mento da de­sordem fiscal, ina­dim­plência e que­bra­deira; e, de outro lado, porque o caixa do BNDES, que du­rante anos foi usado para ala­vancar al­guns poucos e se­letos grupos pri­vados (entre os quais as cha­madas "em­presas cam­peãs" da JBS e de Eike Ba­tista), perdeu a ca­pa­ci­dade de fo­mentar a eco­nomia via Es­tado, de­pois de ter quei­mado in­ves­ti­mentos em pro­jetos ques­ti­o­ná­veis para o de­sen­vol­vi­mento na­ci­onal, como o fi­nan­ci­a­mento da compra de fri­go­rí­ficos nos Es­tados Unidos (JBS), obras de es­tradas, portos e ae­ro­portos em países da Amé­rica La­tina e da África (Ode­brecht, OAS, Ca­margo Correa etc.), os quais não ren­deram em­pregos no Brasil e ainda estão com dí­vidas junto ao BNDES e ao te­souro na­ci­onal. 

Foi quando co­meçou o ti­ro­teio ge­ne­ra­li­zado para ver quem iria pagar pela crise. Só mesmo o sé­quito de Bra­sília não per­cebeu as con­sequên­cias ne­ga­tivas de tais po­lí­ticas go­ver­na­men­tais para a queda do pa­drão de vida das pes­soas e o au­mento ace­le­rado do des­con­ten­ta­mento. No final de 2012 e início de 2013 já se per­cebia, nos grandes cen­tros ur­banos do país, os pri­meiros en­saios das grandes ma­ni­fes­ta­ções que ocor­reram em junho de 2013 - quando, ficou claro e pa­tente, que a po­lí­tica de con­ci­li­ação pro­mo­vida pelo lu­lismo es­tava com os dias con­tados, que a ex­plosão de in­sa­tis­fação re­vo­gava o mo­no­pólio do PT sobre as ma­ni­fes­ta­ções de rua e, mais do que isso, que o mo­delo ado­tado pelo lu­lismo gerou enorme frus­tração não apenas nas classes mé­dias, mas também na ju­ven­tude, no ope­ra­riado e em seg­mentos po­pu­lares. 

Vale lem­brar que nesse pe­ríodo, de 2011 a 2013, o ex-pre­si­dente es­tava em­pe­nhado em vi­a­gens pela Amé­rica La­tina e países da África, nos ja­ti­nhos da Ode­brecht e Ca­margo Corrêa (os re­gis­tros da In­fraero, de­poi­mentos de pi­lotos das ae­ro­naves e de di­re­tores das em­prei­teiras podem atestar todos os voos e des­tinos), fa­zendo lobby para obras fi­nan­ci­adas pelo BNDES, en­quanto re­cebia vul­tosas do­a­ções para o Ins­ti­tuto Lula e pa­ga­mentos para a em­presa de pa­les­tras LILS, além de curtir me­re­cido des­canso no sítio de Ati­baia.

Sobre a efer­ves­cência po­lí­tica e o quadro de crise, o go­verno Dilma tratou de en­rolar o país com pro­messas eva­sivas e me­didas ja­mais co­lo­cadas em prá­tica, entre as quais a re­a­li­zação de su­posto ple­bis­cito para a re­forma po­lí­tica. O PT, através de seus mo­vi­mentos so­ciais, con­se­guiu conter parte da re­beldia. A es­querda não soube dar di­reção ao mo­vi­mento das ruas, a grande im­prensa cri­mi­na­lizou/fan­ta­siou os Black Blocs e o go­verno Dilma re­tomou a frágil go­ver­na­bi­li­dade com inú­meras con­ces­sões - ao em­pre­sa­riado (mais isen­ções fis­cais), aos ban­queiros (ele­vação dos juros), ao agro­ne­gócio (anistia e re­fi­nan­ci­a­mento de dí­vidas) e aos po­lí­ticos (be­nesses nas emendas de de­pu­tados e se­na­dores) - até as elei­ções de 2014. 

O lu­lismo tratou de ca­rac­te­rizar as ma­ni­fes­ta­ções de 2013 como "coisa da di­reita", es­ti­mu­lada pela grande mídia e pelo "im­pe­ri­a­lismo". É o que Lula afirma até hoje sobre as jor­nadas de 2013.

Di­lema: O papel da es­querda era des­con­si­derar o grau de in­sa­tis­fação da po­pu­lação, in­clu­sive das classes mé­dias, ou apro­fundar a crí­tica ao lu­lismo e ao go­verno Dilma com am­pli­ação e or­ga­ni­zação dos tra­ba­lha­dores e dos mo­vi­mentos so­ciais?

5 - A fraude elei­toral de 2014 e a ren­dição ao ajuste ne­o­li­beral

A eleição de 2014 foi, pro­va­vel­mente, a mais suja do pe­ríodo pós-di­ta­dura mi­litar. Não só pela quan­ti­dade de di­nheiro co­lo­cada nas cam­pa­nhas dos prin­ci­pais can­di­datos, mas pelo baixo nível dos ata­ques pes­soais nas redes so­ciais, a mon­tagem de agên­cias de men­tiras e in­trigas e a au­sência de de­bate sobre os reais pro­blemas do país. O que vi­gorou foi um jogo sór­dido de ar­ma­ções sem pre­ce­dentes. Os elei­tores foram en­ga­nados em todos os sen­tidos, tanto no dis­curso da si­tu­ação (Dilma ne­gava qual­quer pro­blema econô­mico e so­cial) como no dis­curso da opo­sição (Aécio ne­gava qual­quer me­dida res­tri­tiva contra pro­jetos so­ciais). As cam­pa­nhas mais ho­nestas de Ma­rina Silva, então no PSB, e de Lu­ciana Genro, do PSOL, não che­garam ao se­gundo turno. Dilma foi eleita com apoio de apenas 38% do elei­to­rado, a mai­oria ficou na opo­sição, no voto em branco, no voto nulo e na abs­tenção. 

A fraude foi con­su­mada nas pri­meiras se­manas após o se­gundo turno, quando a pre­si­dente re­e­leita in­ter­feriu no câmbio, aprovou os cortes de be­ne­fí­cios so­ciais e co­locou no Mi­nis­tério da Fa­zenda o vice-di­retor do Bra­desco, Jo­a­quim Levy, co­nhe­cido eco­no­mista ne­o­li­beral e de­fensor de me­didas or­to­doxas de aus­te­ri­dade. Ou seja, Dilma ga­nhou com dis­curso con­trário ao de Aécio, mas logo de­pois das elei­ções as­sumiu o pro­grama de Aécio, for­te­mente bom­bar­deado pela es­querda no pro­cesso elei­toral. Em pouco tempo, no final de 2014 e pri­meiros meses de 2015, a base de sus­ten­tação de Dilma (38% do elei­to­rado) ficou re­du­zida a pó. 

A si­tu­ação dela se com­plicou ainda mais porque tentou as­sumir o con­trole da Câ­mara dos De­pu­tados com can­di­dato do PT contra a ar­ti­cu­lação do MDB, que tinha maior nú­mero de par­la­men­tares e amplo apoio no leque par­ti­dário mais con­ser­vador, o qual, diga-se de pas­sagem, foi eleito em ali­ança com o PT e com re­cursos fi­nan­ceiros cap­tados ili­ci­ta­mente nos go­vernos do PT. 

Vale lem­brar que no pro­cesso elei­toral o PT deu muita força à Rede Re­cord, da Igreja Uni­versal, e a vá­rios grupos evan­gé­licos ex­tre­ma­mente con­ser­va­dores, como con­tra­ponto às cor­rentes in­flu­en­ci­adas pela Te­o­logia da Li­ber­tação mais crí­ticas e iden­ti­fi­cadas com os mo­vi­mentos so­ciais e par­tidos de es­querda. Ou seja, o lu­lismo cons­truiu a sua pró­pria forca na traição aos elei­tores, com a mu­dança ra­dical de pro­grama econô­mico e no racha com a ar­ti­cu­lação do aliado Edu­ardo Cunha, do MDB. Mais uma vez, vale lem­brar, foi Lula quem impôs o nome de Mi­chel Temer para compor a chapa com Dilma. 

Todos eles, na co­me­mo­ração elei­toral de 2014, es­tavam fe­lizes com a con­ti­nui­dade de um es­quema bem su­ce­dido desde os idos do "men­salão". Vale lem­brar, também, que o bispo Edir Ma­cedo foi o único "capo" da grande mídia a com­pa­recer ao beija-mão de Dilma no dia 1º de ja­neiro de 2015. Pa­rece fácil e cô­modo dizer que as ma­ni­fes­ta­ções pelo im­pe­a­ch­ment eram coisa de "co­xi­nhas" da classe média, da di­reita, fo­men­tada pela TV Globo, pela FIESP e pelo im­pe­ri­a­lismo dos Es­tados Unidos. 

Pode ter tudo isso mesmo, mas bem antes disso algo já es­tava er­rado não no campo con­ser­vador e de di­reita, mas es­pe­ci­al­mente na con­duta po­lí­tica e ética do lu­lismo e no fra­casso das po­lí­ticas so­ciais pre­cá­rias, no fim do pro­jeto de con­ci­li­ação e na in­com­pe­tência po­lí­tica e econô­mica dos go­vernos Dilma. Não é por acaso que em tais go­vernos te­nham cres­cido a di­reita e o con­ser­va­do­rismo, e que nesses go­vernos ti­veram des­ta­ques fi­guras como José Sarney, Edison Lobão, Renan Ca­lheiros, Ro­mero Jucá, Jader Bar­balho, Eliseu Pa­dilha, Geddel Vi­eira Lima etc.

Di­lema: O papel da es­querda era in­cor­porar o dis­curso vi­ti­mista do lu­lismo contra o racha da ali­ança PT-PMDB ou de­nun­ciar o ca­ráter fi­si­o­ló­gico e con­ser­vador da ali­ança que go­vernou o Brasil du­rante 13 anos?

6 - O avanço da Lava Jato e o novo pro­ta­go­nismo da Po­lícia Fe­deral, do Mi­nis­tério Pú­blico, do Ju­di­ciário e do Su­premo Tri­bunal Fe­deral

Em meio ao des­gaste e es­go­ta­mento do pro­jeto de poder do lu­lismo, ganha pro­ta­go­nismo, em me­ados de 2014, as in­ves­ti­ga­ções da força-ta­refa da Lava Jato, que, a partir de es­quemas de so­ne­gação e evasão de di­visas, ope­rados por do­leiros, des­venda o es­quema de pro­pinas e su­per­fa­tu­ra­mento de obras e ser­viços na Pe­tro­bras, onde três di­re­to­rias atu­avam na cap­tação de re­cursos ilí­citos para po­lí­ticos do PP, MDB e PT. 

Dessa vez, ao con­trário do que tinha ocor­rido em ope­ra­ções an­te­ri­ores em casos es­ca­brosos de cor­rupção (Ba­nes­tado - 2003; Sa­ti­a­graha - 2008; Cas­telo de Areia - 2009), a nova força-ta­refa (in­te­grada pela Po­lícia Fe­deral, Mi­nis­tério Pú­blico Fe­deral, Ju­di­ciário Fe­deral, Re­ceita Fe­deral) teve o cui­dado de dar cada passo nos li­mites dos novos re­cursos le­gais dis­po­ní­veis e com ampla ex­po­sição na mídia, de ma­neira a evitar que tais ações fossem in­va­li­dadas ou ar­qui­vadas nas ins­tân­cias su­pe­ri­ores. 

O grande avanço em re­lação às ope­ra­ções an­te­ri­ores é que uma lei de 2013, san­ci­o­nada pela pre­si­dente Dilma, pos­si­bi­litou a uti­li­zação de co­la­bo­ra­ções (de­la­ções) pre­mi­adas como forma de ne­go­ciar be­ne­fí­cios aos cri­mi­nosos con­fessos que re­ve­lassem os crimes de ou­tros par­ti­ci­pantes nos es­quemas de cor­rupção. Com tais ins­tru­mentos le­gais, a Ope­ração Lava Jato con­se­guiu con­denar mais de 100 en­vol­vidos nos des­vios de re­cursos pú­blicos da Pe­tro­bras, entre os quais grandes em­pre­sá­rios, lo­bistas, do­leiros, altos fun­ci­o­ná­rios e po­lí­ticos de vá­rios par­tidos. 

O lu­lismo tratou de es­pa­lhar a versão de per­se­guição po­lí­tica ao go­verno Dilma e ao PT. Mais adi­ante am­pliou a versão de per­se­guição ao Lula, tor­nado can­di­dato do PT, e aos po­lí­ticos em geral. Mas, na ver­dade, o maior nú­mero de con­de­nados pela Lava Jato não é de po­lí­ticos e, entre os po­lí­ticos, o maior nú­mero de en­vol­vidos nos pro­cessos não é do PT. O PT e Lula ja­mais deram res­postas mi­ni­ma­mente con­vin­centes aos crimes de­nun­ci­ados. Tra­taram apenas de se co­lo­carem como ví­timas, ora da Po­lícia Fe­deral, ora do Mi­nis­tério Pú­blico, ora do juiz Sérgio Moro, ora do TRF-4, ora do STF, ora do "Par­tido da Jus­tiça", como se o desvio de re­cursos da Pe­tro­bras não ti­vesse ti­rado bi­lhões de reais do povo bra­si­leiro, não ti­vesse sus­ten­tado cam­pa­nhas mi­li­o­ná­rias de co­li­ga­ções par­ti­dá­rias e não ti­vesse abas­te­cido os bolsos de inú­meras pes­soas, in­clu­sive de po­lí­ticos do PT. Que a di­reita pra­tique cor­rupção é a praxe no Brasil, mas que o PT tenha se en­vol­vido foi algo muito mais da­noso ao pro­cesso po­lí­tico, na me­dida em que frus­trou a es­pe­rança de mi­lhões de tra­ba­lha­dores e des­truiu a cre­di­bi­li­dade pú­blica de vá­rios seg­mentos da es­querda. 

A Lava Jato, quei­ramos ou não, mudou o olhar de boa parte da so­ci­e­dade bra­si­leira sobre o modo de fazer po­lí­tica e as re­la­ções do ca­pital pri­vado com o Es­tado. A es­querda não pode des­co­nhecer algo tão con­creto apon­tado por pes­quisa re­cente do Da­ta­folha, de abril de 2018, na qual 84% dos en­tre­vis­tados aprovam a con­ti­nui­dade da Lava Jato no com­bate à cor­rupção. O que fazer?

Di­lema: O papel da es­querda é passar por ví­tima da Lava Jato, ig­norar os des­vios do lu­lismo, ou mo­bi­lizar e cons­ci­en­tizar os tra­ba­lha­dores contra a cor­rupção dos em­pre­sá­rios, ban­queiros, la­ti­fun­diá­rios e das ve­lhas oli­gar­quias da po­lí­tica?

7 - A der­ro­cada da con­ci­li­ação lu­lista e da pre­cária es­ta­bi­li­dade econô­mica e po­lí­tica

Em 2015, com as grandes ma­ni­fes­ta­ções contra o go­verno Dilma, com foco no im­pe­a­ch­ment da pre­si­dente re­e­leita, o PT con­se­guiu ar­rastar al­guns se­tores da es­querda (par­tidos, mo­vi­mentos so­ciais, en­ti­dades de classe etc.) na de­fesa do seu pro­jeto contra o ataque de ins­ti­tui­ções da Re­pú­blica e do con­ser­va­do­rismo de di­reita. No final do ano o lu­lismo sentiu o es­trago pro­vo­cado por seus pró­prios erros, em es­pe­cial sobre a ali­ança com o MDB de Edu­ardo Cunha e de Mi­chel Temer. O pri­meiro porque co­mandou o pro­cesso de im­pe­a­ch­ment na Câ­mara dos De­pu­tados e o se­gundo porque traiu a co­li­gação, a pre­si­dente Dilma, o PT e prin­ci­pal­mente o lu­lismo, que havia co­lo­cado Mi­chel Temer na linha da su­cessão pre­si­den­cial. 

Ao sentir a barra pe­sada, o de­sastre ace­le­rado em 2016 e 2017, o lu­lismo criou nova his­tória para a sua pró­pria tra­je­tória: 

1º) di­ante das in­ves­ti­ga­ções da Lava Jato sobre o ex-pre­si­dente, com vá­rios pro­cessos em Cu­ri­tiba, Bra­sília e São Paulo, adotou a fi­gura do pré-can­di­dato pre­si­den­cial para fazer ca­ra­vanas pelo Brasil e tentar blindá-lo de con­de­na­ções por cor­rupção; 

2º) di­ante do im­pe­a­ch­ment, apelou para par­tidos e mo­vi­mentos de es­querda, que há muito tempo não ti­nham re­la­ções com o lu­lismo, em busca de uni­dade emer­gen­cial sob a ale­gação de que todos es­tavam ame­a­çados pelos "gol­pistas" e "fas­cistas"; 

3º) di­ante da imi­nência de Lula se tornar ine­le­gível, por causa da Lei da Ficha Limpa, e da pró­pria prisão do ex-pre­si­dente, o lu­lismo tratou de sen­si­bi­lizar a sua mi­li­tância e ou­tros se­tores da so­ci­e­dade com foco nas elei­ções (Eleição sem Lula é fraude), na de­mo­cracia (Di­reito de Lula ser can­di­dato) e na li­ber­dade (Lula livre), de ma­neira que os erros do lu­lismo, o fra­cas­sado go­verno Dilma, os es­cân­dalos da Pe­tro­bras, os pro­cessos e con­de­na­ções por cor­rupção, caíssem ra­pi­da­mente no es­que­ci­mento da po­pu­lação. 

Com um ba­ta­lhão de ad­vo­gados e for­tís­simo es­quema de co­mu­ni­cação nas redes so­ciais, o lu­lismo tratou de atacar as ações e os per­so­na­gens da Lava Jato, a grande im­prensa, os in­te­grantes das ins­ti­tui­ções do Es­tado (desde juízes e pro­cu­ra­dores até mi­nis­tros do STF) e ao mesmo tempo re­a­lizar atos e ma­ni­fes­ta­ções pelo país afora, prin­ci­pal­mente com massas mo­bi­li­zadas pelo MST e MTST. Tais ações visam prin­ci­pal­mente des­qua­li­ficar todas as forças po­lí­ticas que se opõem ao lu­lismo, ao PT e às ma­no­bras de im­pu­ni­dade pelos crimes de cor­rupção; tratam de ro­tular e es­tig­ma­tizar todo mundo como sendo "gol­pista" e "fas­cista". Não é só a di­reita que cri­tica o lu­lismo e o PT, mas também os li­be­rais, os so­ci­al­de­mo­cratas, os anar­quistas, os au­to­no­mistas, pes­soas sem de­fi­nição po­lí­tico-ide­o­ló­gica e muita gente da es­querda so­ci­a­lista e co­mu­nista. 

Ao mesmo tempo em que con­segue sen­si­bi­lizar com dis­cursos cada vez mais emo­ci­o­nais e mes­si­â­nicos, o lu­lismo também es­ti­mula forte opo­sição ao PT e a seus novos e ve­lhos ali­ados, con­tribui para a ra­di­ca­li­zação das po­si­ções e em­ba­ralha um pro­cesso elei­toral que po­deria (po­deria?) ter con­teúdo re­no­vador e pro­missor para a es­querda se não fosse a fi­gura em­ble­má­tica de Lula, que está preso, con­de­nado, ine­le­gível, mas ainda assim in­ter­fere no pro­cesso elei­toral não para li­derar um pro­jeto de Nação, mas para tentar salvar a pró­pria pele; não para su­perar todo o es­trago feito por seu aliado Mi­chel Temer, mas para res­taurar a velha ordem de ali­anças com as oli­gar­quias po­lí­ticas que par­ti­ci­param dos go­vernos Lula e Dilma. 

O que o lu­lismo propõe que não seja res­ta­be­lecer a "har­mo­niosa con­ci­li­ação" de antes da Lava Jato e da traição de Cunha e Temer?
    
Di­lema: O papel da es­querda é re­forçar o lu­lismo como sal­vação do Brasil ou re­tomar o de­bate de luta an­ti­ca­pi­ta­lista e de so­ci­e­dade justa, igua­li­tária, livre e de­mo­crá­tica?

8 - A fase mís­tica do lu­lismo apri­siona a es­querda no pro­cesso elei­toral de 2018

De­pois do fra­cas­sado pro­jeto de con­ci­li­ação de classes, da ex­plosão de in­sa­tis­fação da po­pu­lação, do im­pe­a­ch­ment de Dilma, do en­vol­vi­mento da cú­pula do lu­lismo - junto com seus ali­ados da di­reita - nas ban­da­lheiras da Pe­tro­bras, BNDES, CEF, fundos de pensão etc., era de se es­perar que o PT fi­zesse um pro­cesso de au­to­crí­tica, ava­li­asse seus erros e des­vios e pro­mo­vesse uma re­no­vação geral de seu pro­grama e de seus qua­dros di­ri­gentes. Nada disso foi feito. Ao con­trário, su­bor­di­nado ao lu­lismo, o PT in­siste que foi ví­tima de golpe, é ví­tima de per­se­guição, é ví­tima do fas­cismo - e se con­trapõe a tudo isso com o mar­tírio em praça pú­blica de sua maior li­de­rança, que não seria mais um ser hu­mano, mas um mito no pa­tamar de Ti­ra­dentes, Man­dela, Gandhi, Luther King e Jesus Cristo. 

A der­ra­deira exor­tação de mes­si­a­nismo ativa o emo­ci­onal das massas, clama pelo fa­na­tismo, aban­dona em de­fi­ni­tivo qual­quer ex­pec­ta­tiva de pro­jeto po­lí­tico cons­truído co­le­ti­va­mente com a ele­vação das cons­ci­ên­cias, aná­lise crí­tica e di­a­lé­tica, ba­seada na cor­re­lação de forças e na con­jun­tura; mas, ao con­trário, o dis­curso do lu­lismo se atém na pro­fissão de fé contra todas as evi­dên­cias da re­a­li­dade. Como tal fan­far­ro­nice mes­clada na mís­tica re­li­giosa e do­sada pelo ego­cen­trismo pode con­tri­buir para a ca­mi­nhada da es­querda? O que pre­tende? Que a sal­vação virá pelo sa­cri­fício hu­mano trans­posto à con­dição di­vina? O que sobra de re­flexão e de pro­posta po­lí­tica a esses se­tores da es­querda que fi­caram ato­lados nos es­com­bros do lu­lismo? Como sair da ara­puca para re­tomar ao Pro­jeto de Nação? Com quais prin­cí­pios e va­lores a es­querda se apre­senta para a so­ci­e­dade bra­si­leira?

A essa al­tura dos acon­te­ci­mentos, com todas as in­for­ma­ções dis­po­ní­veis, pa­rece sem sen­tido que algum ci­dadão ou ci­dadã ainda con­siga aceitar que o ex-pre­si­dente Lula e seu grupo dentro do PT não te­nham res­pon­sa­bi­li­dades sobre os inú­meros erros po­lí­ticos e gra­vís­simos des­vios éticos pra­ti­cados pelo lu­lismo. Querer in­verter os fatos e es­conder a ver­dade é ma­nobra que atenta contra a in­te­li­gência dos bra­si­leiros. 

Nin­guém com al­guma dose de sen­satez, co­nhe­ci­mento e cons­ci­ência aceita mais o ci­nismo de­sen­freado e ego­cên­trico do lu­lismo, que jogou o PT numa ara­puca de­sas­trosa (vide elei­ções de 2016), tenta imo­bi­lizar o jogo po­lí­tico-elei­toral de 2018 e ainda quer ar­rastar toda a es­querda - mo­vi­mentos so­ciais e par­tidos - para a marcha de­li­rante da au­to­des­truição. O que so­brará além da la­dainha dos be­atos?

Di­lema: o papel da es­querda é fazer coro ao lu­lismo du­rante o pro­cesso elei­toral ou dis­putar as elei­ções com pro­postas pró­prias e in­de­pen­dentes, ex­pondo visão crí­tica sobre o lu­lismo e a di­reita?

9 - O que não dá para es­quecer sobre a tra­je­tória do lu­lismo

O lu­lismo en­tregou para a di­reita, se­gui­da­mente, vá­rias ban­deiras que já foram em­pu­nhadas pela es­querda, entre as quais a ban­deira da ética na po­lí­tica, a ban­deira do com­bate à cor­rupção e a ban­deira da luta contra a im­pu­ni­dade - em par­ti­cular a im­pu­ni­dade aos ricos e po­de­rosos pra­ti­cantes dos crimes do co­la­rinho branco, como a so­ne­gação fiscal, evasão de di­visas, desvio do di­nheiro pú­blico e as vá­rias formas da cor­rupção. E como o lu­lismo deixou de atuar nessas ques­tões, trans­feriu para o con­junto da es­querda a visão equi­vo­cada de que lutar por ética, contra a cor­rupção e a im­pu­ni­dade é coisa da di­reita, de "co­xi­nhas" e da elite. Por isso mesmo tanta gente com­pro­me­tida po­li­ti­ca­mente com a es­querda não se ma­ni­festa contra as ban­da­lheiras com­pro­va­da­mente pra­ti­cadas pelo lu­lismo. Temem ser cha­mados de "gol­pistas". 

A ver­dade é que o lu­lismo em nada con­tribui para o avanço da es­querda. Ao con­trário, só atra­palha. A es­querda pa­tina há muitos anos por obra da con­ta­mi­nação do lu­lismo, que em­pata a luta, im­pede o livre de­bate e anula o sur­gi­mento de novos pro­ta­go­nistas e novas li­de­ranças. Não se trata de uma questão de fé, mas de ra­ci­o­na­li­dade e cons­ci­ência das pes­soas. Em en­tre­vista re­cente para a Folha de S. Paulo, em 02.05.2018, o pen­sador de es­querda Noam Chomsky voltou a lem­brar o que nos in­co­moda há vá­rios anos. Disse ele: "a es­querda de­veria fazer uma au­to­crí­tica, pensar nas opor­tu­ni­dades que foram des­per­di­çadas porque su­cumbiu à cor­rupção". 

En­quanto isso não acon­tece, vale re­cordar o que não pode ser es­que­cido sobre o lu­lismo:

1)    Desde a cam­panha elei­toral de 2002, e nas dis­putas mu­ni­ci­pais e es­ta­duais, o lu­lismo sempre optou em ali­anças com a di­reita e pelo iso­la­mento da es­querda.

2)    O lu­lismo com­bateu e ex­pulsou as cor­rentes de es­querda do PT, além de ter atuado para en­fra­quecer os mo­vi­mentos so­ciais e o sin­di­ca­lismo com­ba­tivo em seus go­vernos.

3)    Os go­vernos Lula e Dilma aban­do­naram os pro­gramas de re­forma agrária e for­ta­le­ceram muito mais o agro­ne­gócio do que a agri­cul­tura fa­mi­liar.

4)    Os go­vernos Lula e Dilma não de­mar­caram as re­servas dos povos in­dí­genas e dei­xaram de re­gu­la­rizar mi­lhares de áreas dos qui­lom­bolas.

5)    Os go­vernos Lula e Dilma apro­varam inú­meras obras al­ta­mente da­nosas ao meio am­bi­ente, in­clu­sive as usinas de Belo Monte e no rio Ma­deira.

6)    Os go­vernos Lula e Dilma man­ti­veram as taxas de juros sempre acima de 7,5% e cor­taram verbas so­ciais para pa­ga­mento da dí­vida pú­blica aos ban­queiros e ren­tistas.

7)    Os go­vernos Lula e Dilma pro­mo­veram ampla "de­so­ne­ração" (isenção de im­postos) dos grandes grupos em­pre­sa­riais com enorme des­falque aos co­fres pú­blicos.

8)    Os go­vernos Lula e Dilma fi­zeram re­forma da pre­vi­dência da­nosa aos tra­ba­lha­dores e cor­taram be­ne­fí­cios so­ciais (au­xílio saúde, sa­lário de­sem­prego etc.) dos mais po­bres.

9)    Os go­vernos Lula e Dilma não re­a­jus­taram no mesmo nível da in­flação as faixas de pa­ga­mento do im­posto de renda, o que re­tirou re­cursos dos tra­ba­lha­dores e dos as­sa­la­ri­ados em geral.

10)    Os go­vernos Lula e Dilma usaram bi­lhões de re­cursos pú­blicos do BNDES para fi­nan­ciar obras em ou­tros países, que fa­vo­re­ceram as grandes em­prei­teiras e dei­xaram de gerar em­pregos no Brasil.

Tudo isso é ver­dade.


Ha­milton Oc­tavio de Souza é jor­na­lista e pro­fessor uni­ver­si­tário.

 

 
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