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Nomenclaturas da ignorância

12.03.2013 | Fonte de informações:

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Por que é tão difícil para o governo federal ser efetivo nas políticas e ações públicas, lançando um olhar realista sobre interior do Brasil? Para uma pergunta de continental envergadura, a resposta é bastante simples: os agentes governamentais não conhecem integralmente nosso país, não o reconhecem como um todo. Os sucessivos discursos - mal falados e em tíbia leitura, fique claro! - da presidente-economista Dilma Rousseff são prova inconteste de sua farta ignorância quanto aos meandros mazelares de uma República imersa e que não patrocina o fundamental diálogo entre os grandes centros urbanos e o "resto".

HELDER CALDEIRA*

Faço uso do termo "resto" propositalmente. Por "resto", leia-se a expressiva maioria dos municípios brasileiros composta por pequenos feudos populacionais e que não está na dimensão limítrofe das capitais e de algumas cidades de médio e grande porte brasileiras. Mas há uma realidade pior: num país de pedestre política personalista e cuja métrica se estabelece pelo aporte de eleitores e votos, é do governo federal a decisão medíocre de ignorar a existência e as demandas prementes de seu paupérrimo interior. Miséria às raias da erradicação, como quer garantir o discurso da excelentíssima senhora "presidenta" e sua apologética equipe, passemos a utilizar apenas o "muito pobre""paupérrimo". Nomenclaturas da ignorância... propositais.

A acintosa decisão de fingir que o Brasil se resume a pontes aéreas, portos caríssimos, ferrovias intermináveis, fronteiras agrícolas e estádios de futebol mais parece um enredo de escola de samba derrotada, outra paixão nacional que recebe mais recursos públicos do que a maioria dos municípios pequenos dispõe para investir anualmente em educação, saúde e infraestrutura - somados! Sem qualquer receio de equívoco é possível afirmar: há inúmeros subsídios de pesquisas e estatísticas a chancelar e reforçar o esquecimento de uma parcela substancial do país.

 

Em 2011, por exemplo, a Diretoria de Pesquisas do IBGE realizou uma importante publicação - que passou ao largo das atenções do governo, da imprensa e até dos formadores de opinião e "intelectuais" brasileiros - chamada "Reflexões sobre os Deslocamentos Populacionais no Brasil", organizada pelos pesquisadores Luiz Antônio Pinto de Oliveira e Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira. Um documento precioso para quem deseja compreender um pouco melhor esse Brasil que pretende adentrar o século XXI como potência planetária, mas que insiste comportar-se como uma capitania hereditária do século XVI. Uma única frase dessa publicação do IBGE, de autoria do pesquisador Antônio Tadeu, é capaz de resumir a ópera: à página 11 ele afirma que, a partir de 1980, "rompe-se o processo bipolar da distribuição espacial no Brasil (...), de modo que surgem novos eixos de deslocamentos envolvendo expressivos contingentes populacionais". (A quem interessar possa, a publicação completa está disponível para visualização e download gratuito em www.ipolitica.com.br)

 

Para utilizar apenas um dos assuntos modistas, as autoridades brasileiras não conseguem chegar num consenso politicamente adequado à campanha eleitoral para justificar a carência dolosa de profissionais de saúde - em especial a falta de médicos - nos rincões do país, ainda que a remuneração ultrapasse o teto salarial do funcionalismo público. Cogitam importar profissionais de países vizinhos ou desempregados transatlânticos da crise europeia. Também anunciam propostas verborrágicas de criar outras famélicas instituições de ensino superior ou técnico à sombra de um Brasil desconhecido. Pura lengalenga, outra clássica insígnia da ignorância governamental.

 

Convenhamos: como planejar a instalação de um campus universitário em cidades pobres, sem mínima qualidade de acesso rodoviário, que não contam sequer com educação básica digna, quiçá infraestrutura local como saneamento básico ou pavimentação? Nem é preciso dizer que, nesses mais de três mil municípios abandonados à própria sorte, serviços indispensáveis à sociedade contemporânea são muito precários, quando estão disponíveis. Telefonia e internet que realmente funcionem ainda são sonhos longínquos para grande parte da população brasileira que vive no interior, em particular nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Que profissional quer ir morar num desses lugares, ainda que tenham seus bolsos mensalmente bem recheados? Pior: que profissionais serão formados lá diante de tantas precariedades e ausência de recursos?

 

Fácil é teorizar no conforto dos gabinetes palacianos de Brasília ou no ar condicionado das redações de jornais e emissoras de TV sediadas nas maiores capitais. Desses lugares nascem as mentiras mais escalafobéticas sobre o país que eles não conhecem. Difícil mesmo é ter coragem de ir a campo e diagnosticar, in loco, fragilidades e mazelas que assolam o interior. Perguntemos à presidente Dilma Rousseff se ela conhece a realidade de Confresa, em Mato Grosso; Balsas, no Maranhão; Maracajaú, no Rio Grande do Norte, Flores de Goiás, em Goiás; Theobroma, em Rondônia; Amaturá, no Amazonas; Caroebe, em Roraima; ou Pracuuba, no Amapá. Nem Dilma e, possivelmente, nem a maioria dos leitores, jamais ouviu falar sobre esses recantos brasileiros. Como um país pode crescer ignorando sua própria realidade? Cumpre reiterar: fácil é teorizar!

 

Para o bem do argumento e da justiça, a utilização de nomenclaturas ignorantes não é uma exclusividade da gestão de Dilma Rousseff. No contexto histórico-político pós-redemocratização, ou seja, a partir da década de 1980, nenhum dos outros cinco presidentes da República detinham olhar esclarecido - e disposto à amplitude federativa - acerca do interior do Brasil, muitas vezes a despeito de suas próprias origens. Sistematicamente, a fatura pelos parcos investimentos nesta zona desconhecida do país tem efeito cumulativo e, desde o final do governo Lula da Silva, passou a ser determinante para o crescimento e o status da nação no contexto internacional. Podem cantar como galos o quanto quiserem nos antecipados palanques de 2014, pois o desenvolvimento do Brasil permanecerá atrelado ao foco primaz num país que nossos políticos não conhecem. Será uma enxurrada de nomenclaturas para uma conveniente ignorância.

 

Escritor, Jornalista a Apresentador de TV

www.ipolitica.com.br - helder@heldercaldeira.com.br

*Autor de "A 1ª PRESIDENTA" (Editora Faces, 2011, 240 páginas) e Jornalista e Comentarista Político. Acaba de lançar seu primeiro romance de ficção: "ÁGUAS TURVAS" (Editora Faces, 2012, 278 páginas), que já é considerado pela crítica especializada e pelos leitores como "o best seller de 2013", "o livro do ano".

 

 
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