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"Estamos desafiados a construir um novo projeto para o país"

11.06.2016 | Fonte de informações:

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"Estamos desafiados a construir um novo projeto para o país", afirmam movimentos populares reunidos em Mariana (MG)

Foto: Cristiane Passos - CPT Nacional

Entre os dias 2 a 4 de junho de 2016, ocorreu na cidade de Mariana (MG) o Encontro Brasileiro dos Movimentos Populares em diálogo com o Papa Francisco, no qual militantes e representantes de diversas religiões debateram temas como mineração, trabalho, meio ambiente, terra, reforma política, território e moradia. O evento em Mariana sucedeu outros dois encontros com o mesmo caráter, ocorridos anteriormente no Vaticano, Itália, e na cidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia.

Cerca de 300 pessoas, entre representantes de movimentos populares, pastorais, pesquisadores e religiosos, participaram do encontro com a finalidade de fortalecer a articulação entre as igrejas e as organizações que defendem os direitos de povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade.

Na ocasião, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou uma Campanha Nacional em celebração aos seus 40 anos de história (clique aqui para saber mais sobre a campanha e a as atividades programadas).

O encontro em Mariana seguiu a tônica da encíclica Laudato Si' (louvado sejas, em português), divulgada pelo Papa Francisco em junho de 2015. O documento trata sobre o Cuidado da Casa Comum e aponta alguns dos desafios impostos pela atual crise socioambiental em nível global."Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?", questiona a encíclica.

Além das marcantes menções ao crime ambiental ocorrido na Bacia do Rio Doce, do qual a cidade de Mariana tornou-se símbolo e razão pela qual foi escolhida como sede do Encontro, discutiu-se a atual situação política do país e as perspectivas para quem luta por "terra, teto e trabalho", no contexto do golpe parlamentar que ocorre no Brasil.

"Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares. Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra", afirma a carta divulgada ao final do encontro em Mariana.

Leia, abaixo, a íntegra do documento:

Carta do Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco

Nós, Movimentos Populares e Pastorais Sociais reunidos em Mariana, Minas Gerais, em resposta ao chamado do Papa Francisco para o diálogo com os que lutam por "terra, teto e trabalho", aqui viemos nos solidarizar com as famílias atingidas pelo maior crime socioambiental provocado em 2015 pela mineração no Brasil e alimentar nossa esperança na construção de outro mundo possível.

Povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, agentes das pastorais sociais compartilhamos nossas experiências de lutas, dificuldades numa sociedade tão desigual. Debatemos a opressão das forças do capital, a fragmentação e criminalização dos movimentos sociais e as violências contra os pobres, negros, mulheres, jovens e LGBTs. Aprofundamos nossa reflexão e partilha das formas de resistência e luta, para enfrentar esses desafios.

Clamamos junto com a Mãe-Terra, que o uso intensivo de agrotóxicos provoca a morte de nossos povos e rios. Denunciamos que a concentração da propriedade e o estímulo ao agronegócio geram conflitos e violências no campo e na cidade, por isso se tornam urgentes e necessárias a Reforma Urbana e a Reforma Agrária.

Queremos o fim da especulação imobiliária. Apesar dos avanços na política de moradia popular, a carência por moradia cresce a cada ano. O avanço do capital nos territórios, com estímulo ao extrativismo mineral, deixa um rastro de destruição ambiental, do qual o crime na Bacia do Rio Doce, provocado pela Vale e BHP Billiton, por meio da Samarco, com a conivência do Estado, é um dos exemplos mais terríveis.

Neste momento de trevas no país, o encontro brasileiro surge com uma luz. Nos últimos anos, o modelo de desenvolvimentos adotado foi favorecido pelo contexto internacional, possibilitou avanços e garantias de direitos sociais, mas muito lucro para o capital.  Com a crise do capitalismo mundial iniciada em 2008, este modelo se esgotou. As forças do capital querem garantir seus interesses, mas nosso povo vem resistindo. Tomaram o governo federal por meio de um golpe, com apoio do Congresso Nacional e do Judiciário brasileiro, impondo o modelo neoliberal derrotado por quatro vezes nas urnas.

Dizemos não às privatizações propostas pelo governo interino e golpista, não ao desemprego e à terceirização que ameaçam diretos dos trabalhadores e trabalhadoras. No Brasil, a democracia sempre foi resultado da organização e da luta do povo. Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares. Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra.

Nós em diálogo com o Papa Francisco, reafirmamos o que está na Encíclica Laudato Si': "Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. A solução requer uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza."

Quem não luta, está morto! Quem luta, educa.

Com nossa fé revolucionária, fortalecemos nossa esperança na caminhada e a certeza na chegada. É preciso lutar para derrotar o golpe no Brasil, por isso nos comprometemos a ampliar as mobilizações, fortalecendo e diversificando os trabalhos de base, o diálogo entre os movimentos e ocupando as ruas. A luta imediata deve ser fermento no processo de construção de um projeto popular de país.

Encerramos o encontro no subdistrito de Paracatu de Baixo, com nossos pés na terra devastada pela ganância do capital, e em diálogo com os atingidos reforçamos nossa solidariedade e compromisso com a luta pela justiça, reparação e empoderamento do povo da Bacia do Rio Doce.

Após estarmos reunidos em Roma (2014), na Bolívia (em 2015), queremos convidá-lo a promover em terras brasileiras o 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco, em outubro de 2017, em Minas Gerais. O convite é para manter viva a memória e o nosso compromisso de "cuidar bem da nossa Mãe-Terra, como Casa Comum de todos.

Ao som dos sinos de Mariana, ecoando a dor dos Atingidos e atingidas, clamamos por Justiça!

Mariana, Minas Gerais, Brasil, 4 de junho de 2016.

Fonte: Cimi

 

 
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