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Opinião: A Casa Pia globalizada

09.11.2007 | Fonte de informações:

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António Pedro Dores

Os portugueses emocionaram-se com o facto de figuras públicas serem capazes de cometer crimes que, na boa consciência popular, só pessoas vis, desqualificadas, mal formadas e mal-educadas seriam capazes de cometer. Imaginaram ser tais crimes circunscritos, apesar de tudo, a alguns seres perversos acusados em processos judiciais. Assim bastaria castigá-los para que tudo pudesse voltar ao normal.

O que intriga é como é que os castigos podem demorar tanto, quando não há sequer redes incriminadas (como se aventou no princípio haver, e como parece que continua a haver suspeitas fundadas de haver, aparentemente organizadas pelos mesmos de sempre), porque os arguidos têm dinheiro suficiente para contratar bons advogados, sem que o tribunal, aparentemente, se dê conta que tamanha demora não apenas intimida as vítimas e testemunhas, como acaba por negar valor a qualquer decisão judicial, seja de condenação seja de absolvição. Porque razão os superiores interesses da justiça instituída se vergam perante os interesses (legítimos) de defesa dos arguidos com mais recursos? Será isso um bom sinal ou um mau sinal?

Não há respostas fáceis e, por isso mesmo, a existência de conspirações – que é real, pública e notória, mesmo que não sejamos capazes de lhes definir os contornos – não explica tudo. Há que procurar mais fundo: na própria natureza humana e na natureza das nossas sociedades.

Recentemente a actualidade trouxe à baila o caso de uma organização humanitária (?) que terá raptado mais de uma centena de crianças a seus pais no Tchade, país centro-africano de colonização francesa, para os trazer para a Europa como se fossem crianças órfãs vítima das guerras genocidas que ocorrem naquela região do mundo. A grande preocupação do presidente francês, a quem o primeiro-ministro espanhol agradeceu publicamente, foi subtrair à justiça local os indiciados de um tal crime, por imaginar – com razão? – obter com tal atitude uma imagem de dureza e de capacidade de actuação (moral?) em França e no mundo.

O grande argumento de defesa da organização acusada é o “amadorismo” da acção dos seus membros no terreno. Que quer dizer isto? Que os que foram apanhados são operacionais inocentes ao modo dos funcionários nazis que organizaram e realizam burocraticamente o Holocausto em nome das ordens recebidas dos seus legítimos chefes? E, nesse caso, a que ordens ou políticas gerais obedecem? Será desse modo que se pretende rejuvenescer a demografia europeia assegurando a exclusão de culturas estranhas e exóticas que podem trazer os imigrantes? Haverá um plano para isso? Sarkozy está a par desse plano?

A incapacidade de indignação das oposições políticas e morais nas sociedades europeias ao status quo secreto e fora da lei, do facto consumado e da dispensa de lei para os nossos amigos versus o estado de sítio para os inimigos, estabelecida primeiro nos EUA e agora seguida pela França e pela Europa, é um mau sintoma do estado das nossas sociedades, desorientadas e exaustas de correr atrás de coisa nenhuma. A moral da guerra sempre impediu que se envolvessem mulheres, crianças e velhos na violência bélica. O século XX, com o desfile de genocídios, mostrou que a civilização moderna passa frequentemente ao lado da moral. Será que o século XXI não pode mudar isto?

António Pedro DORES

 
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