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Prosa: A caixa

08.08.2016 | Fonte de informações:

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Prosa: A caixa

Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência...

Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência - como sabe, não sou afeiçoado por ordens -, sobretudo, pela curiosidade, talvez de natureza infantil, em conhecer os mistérios que nos cercam. Creio que faça parte disso minha história com jogos de azar. Ainda lembro, quando com 17 anos, você deu-me um dado chinês do século XVIII e advertiu-me a respeito da sorte, o quanto ela possui duas faces - como Jano - e só vemos no momento em que é feito o lance. De lá para cá, meu espírito inclinou-se a crer que a sorte é a lei constituinte do mundo. A todo instante jogamos dados e alteramos a ordem dos eventos. Somos uma espécie de deus preso às próprias leis que criou. Mal da onipotência? Quem sabe. Por isto, reafirmo que a curiosidade aliada à paixão pelo acaso levou-me a imaginar as inúmeras possibilidades que cerceavam minha escolha tão funesta. Eu a fiz. Este é meu crime.  Mas a fiz por desejar, - como já afirmei -, que este universo ruísse para outro de suas cinzas emergir.

Certamente não está a entender nada do que lhe digo, e com isso pergunta-se do quê exatamente conto. Antes de esclarecer suas dúvidas, quero agradecer por ter sido meu mentor, pai e herói. Não me esqueço do pequeno ladrão que fui um dia, e, ao encontrá-lo, no bibliófilo reconhecido em que você me tornou.  E venho desculpar-me pela escolha que fiz, estou arrependido, talvez se eu não tivesse olhado, se eu não tivesse aberto a caixa, se não tivesse desobedecido à ordem do senhor Barrington, talvez... talvez tudo permanecesse o mesmo.

Foi na noite de terça-feira, 23 de abril, logo após ter saído do bistrô do Paço Imperial, mal ter entrado em casa, aberto o Cabernet Sauvignon, derramado em uma taça, umedecido os lábios, e deitado no sofá, o telefone tocou. Quando atendi, ouvi uma voz seca dizer: - Senhor Xavier? É o senhor Xavier?

- Sim. É ele quem fala.

- Boa noite. Perdoe-me o incômodo a essa hora tão tarde. Sou o Dr. Barrington, creio já ter escutado a meu respeito. Venho de uma família nobre, reconhecida por preservar artefatos históricos. Há dias estou em busca de um bibliófilo a quem conferir um objeto de inestimável valor, pertencente à minha família, até descobrir seu nome. Sua fama o precede, senhor Xavier, não somente por seus feitos, como por sua ética, por isso, quero muito seus serviços e será bem remunerado.

- Agradecido, senhor Barrington, por solicitar meus serviços. Estarei em sua casa na quinta-feira, pois amanhã preciso com urgência resolver uma questão de trabalho.

- Dr. Xavier, não tenho tempo para esperar. Meu chofer já se encontra em frente à sua casa. Por favor, venha logo.

Lembra-se da vez em que você deu-me um soco tão forte no rosto que caí? Foi assim que me senti quando Barrington desligou o telefone. E como um gato perseguindo o fio de lã puxado pelo dono, segui aquele misterioso convite.

O mordomo abriu a pesada porta de madeira maciça entalhada em flores; contei 12 passos até o salão principal. No centro, sentado à mesa de mogno retangular, o Sr. Barrington mantinha os olhos sobre a pequena caixa de ferro. Sentei-me ao seu lado, ele levantou os olhos voltando-se para mim, e disse com a voz trêmula: - Dr. Xavier, estava ansioso pela sua chegada. Agora, sinto-me aliviado ao vê-lo aqui à minha frente.

- É um prazer estar aqui, Sr. Barrington. Mas, até o momento, não entendi o motivo do convite. Estou ansioso a respeito do trabalho que irá me designar. Por favor, diga-me por que estou aqui.

- Direito e lacônico... Agirei do mesmo modo. - E sorriu. - Vê essa caixa? Ela é o tesouro de minha família. Há séculos protegemos seu conteúdo. E jamais algum de nós ousou abri-la. Esclareço: Nessa caixa está o texto original de O Fausto de Wolfgang Goethe. Sim, Xavier, a grande obra que influenciou a literatura moderna. Como sabe, Goethe escreveu duas partes da obra, a primeira publicada em 1808, e a outra em 1832. Ao menos é isso que sabem os especialistas. Na verdade, há uma terceira, intermediária entre as duas edições. Esta obra chamada por Goethe de Fausto - a tragédia humana ficou apenas como rascunho da segunda publicação. Nela encontravam-se resquícios da primeira edição e o projeto da segunda. Tratava-se, portanto, de uma obra intermediária. Diz a lenda que Goethe levou os rascunhos a um feiticeiro para lançar sobre as folhas um encantamento. Dali em diante, as duas publicações estariam entrelaçadas a esta, de forma que qualquer intervenção alteraria os traços das duas edições e, assim, a literatura alemã. Um efeito no tempo. Ciente do poder que continha os rascunhos, Goethe os guardou em uma caixa de ferro e ordenou que jamais fosse aberta. Dr. Xavier, o senhor já ouviu, sem dúvida, falar na mecânica quântica. Há duas teorias bastante interessantes propostas por essa mecânica. Uma delas é conhecida como entrelaçamento quântico. Imagine você dois objetos, digamos duas maçãs tão fortemente ligadas entre si que se torna impossível que uma seja descrita sem mencionar a outra. Ou seja, suponha que eu pegue uma dessas maçãs e gire para a esquerda, a outra irá girar subitamente para a direita. Eu poderia separá-las, colocando uma distante da outra por milhares de quilômetros, e ainda assim, ao girar uma para a esquerda, a outra se moverá na direção contrária. De um modo maravilhoso a informação viajou mais rápida que a luz rompendo com as leis da física.

- E se eu morder um lado da maçã? - perguntei para distrair.

Barrington riu escandaloso, depois olhou-me firme e disse: - Ora, Xavier, a outra maçã perderia sua parte. Agora não me pergunte se estaria no estômago ou não, pois ignoro a resposta.  - E voltou a rir. Depois emendou: - A outra teoria é o famoso paradoxo de Schrodinger. Trata-se de uma incoerência, uma incerteza que só é abolida mediante a interferência de um observador humano. Dessa vez, imagine um gato dentro de uma caixa lacrada. Nessa caixa há um frasco contendo veneno ligado a um contador Geiger que acionará um martelo para quebrar o frasco, caso seja detectada a presença de radiação. Para Schrodinger há duas realidades: uma em que o frasco está quebrado e o gato morto; noutra, não. No entanto, segundo ele, estas realidades existem simultaneamente, isto é, o gato tanto está vivo como morto. Acontece que, quando a caixa é aberta por um observador humano, a dualidade é desfeita e o gato aparece vivo ou morto. Isso depende do observador, ele decidiu a vida ou a morte do pobre felino. Se não fosse ele, se não tivesse aberto a caixa, o gato permaneceria nos dois estados. É uma grande surpresa. Só saberemos se ganhamos ou perdemos depois de olharmos para dentro do abismo. Você entendeu, Dr. Xavie

- Sim, entendi completamente. O senhor explica de forma tão clara que faz um assunto complexo parecer um jogo infantil.

- Quem sabe não seja isso o que diz... ser a verdade. Quem sabe não seja tudo o que vemos um jogo na mão de deuses. - refletiu. - Mas, veja, estas duas teorias explicam a importância de não abrir a caixa. Para tornar ainda mais óbvio esse valor, acrescento a teoria da causa retrógrada. Ela afirma, em poucas palavras, que um observador ao medir o estado quântico de uma partícula no presente está alterando seu estado no passado. Nessa linha de pensamento, é possível que o efeito seja anterior à causa. Assim, duas partículas entrelaçadas podem desobedecer às leis da física. Se eu medir uma partícula no presente, estarei alterando a outra partícula a qual está entrelaçada e que existe no passado. A informação viajou no tempo. Isso é paradoxal, mas possível. Da mesma forma, as duas edições de Fausto estão entrelaçadas à terceira, a que se encontra nessa caixa. Este livro aí guardado existe tanto no passado quanto no presente, e, enquanto ele não for observado por ninguém, as duas edições se manterão inalteráveis. Contudo, se a caixa fosse aberta, a dualidade desapareceria e a informação do presente viajaria ao passado alterando as edições emaranhadas à terceira. Isto afetaria toda a história da literatura e o mundo como conhecemos se tornaria outro. Portanto, escuta-me. Jamais... jamais... jamais abra a caixa e olhe para o livro. Estou morrendo, faltam poucos dias para eu partir. Ao contrário dos meus antecessores, não tive filhos. Então me perguntei a quem passaria este legado, e aí descobri você. Espero que aceite o convite. Será bem recompensado.

- Eu aceito, senhor Barrington.

Levantamos e apertamos as mãos, assinei um contrato de confidencialidade e voltei para casa. Quatro dias depois, Barrington falecia em seu leito. No dia seguinte recebi a caixa e toda a fortuna da família Barrington. Para manter meu novo status quo e a boa qualidade de vida, era preciso apenas não descumprir o acordo.

Os dias seguintes, as semanas, os meses... foram os mais terríveis que vivi, Williams. O que você teria feito em meu lugar? Aceitado aquela caixa de Pandora? Ou teria rejeitado? Para mim foi como receber das mãos do Diabo um maldito presente. Não sei por qual motivo aceitei o trabalho, quem sabe, insanidade. Ao longo de oito meses não dormi, meus olhos permaneciam fixos no objeto misterioso. Perguntava-me sobre as possibilidades ocultas na abertura da caixa. E se... e se... e se... Estava seduzido pela ideia do fim da literatura e o surgimento de outra. Obsessivo, paranoico, doente, tornei-me pela ideia. Nada me salvaria.

No dia 22 de maio, recebi o convite para uma conversa de Carlos Pinheiro, famoso crítico literário, ex-colega de faculdade. Precisava sair, respirar. Nos encontramos no bistrô do Paço Imperial. O prato: bolo de chocolate amargo acompanhado de café sem açúcar. Em meio à conversa, Pinheiro, declara: - Xavier! Vou deixar a carreira de crítico literário e me dedicar à pintura.

- Por que essa decisão brusca?

- Bastante simples o motivo. Cansei-me de buscar a obra que fosse o espírito de nossa nação no presente século. Nada encontrei. Desde 1980 que não se vê um autor cuja obra carregue essa alma. Estou arrependido, aliás, vencido pelo tempo.

Eu sei que você, Williams, já sabe o final. Já deves ter concluído minha decisão. No fim daquela tarde, escolhi olhar o livro, graças ao infortúnio da conversa. Embora não concordasse com Pinheiro, partilhava de sua tristeza. Até então não tinha visto obra comparável a de Goethe, tão impactante a ponto de influenciar os séculos. Saí da conversa, emotivo, abalado; destruído pela falta de esperança, de uma obra que contivesse em suas páginas o drama humano. Durante nove horas fiz-me a pergunta: "E se Goethe não tivesse escrito Fausto, será que outra obra surgiria em seu lugar - quem sabe neste século - e salvaria a história?" Pergunta estúpida. De repente, uma palavra que significa incerteza e possibilidade, invadiu minha consciência. E se... E se Goethe tivesse sua obra alterada? Bêbado e abatido, levantei-me da cadeira, peguei a caixa, joguei-a sobre a mesa, apanhei a chave guardada no criado-mudo, e, diante dela por uns instantes, hesitei. Depois pensei: "Dane-se, vou abrir". E assim que abri a caixa e olhei, vi os papéis que ali estavam subitamente desaparecerem. Neste preciso instante, compreendi que havia destruído a literatura.

Pois, se agora Williams sente o mundo em ruínas e algo novo surgindo, a culpa é minha. E, apesar de estar profundamente arrependido, não posso fazer nada.

X.

  

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor ensaísta, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou "Notas de Pensamentos Incomuns" (contos, 2011) e "Sr. Bergier & Outras Histórias" (contos, 2016, Penalux). Organizou a antologia "Veredas - Panorama do conto contemporâneo brasileiro" (2013). É autor de "O que eu disse ao General" (contos, 2014), considerado pela revista Literatsi um dos melhores livros de 2014.  Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE), com sua esposa e filha.

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