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Aumenta a lista dos religiosos jurados de morte na Amazónia

08.04.2007 | Fonte de informações:

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Em meio aos preparativos para a visita do papa Bento XVI ao Brasil, marcada para maio, alguns setores da Igreja Católica estão preocupados com a questão do recrudescimento das ameaças de morte contra bispos, padres, freiras e agentes pastorais.

Em meio aos preparativos para a visita do papa Bento XVI ao Brasil, marcada para maio, alguns setores da Igreja Católica estão preocupados com a questão do recrudescimento das ameaças de morte contra bispos, padres, freiras e agentes pastorais. A notícia é do jornal O Estado de S.Paulo, 7-04-2007.

 

De acordo com levantamento feito pelo Estadão, com base em informações da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e de pastorais sociais, a lista tem dez nomes - todos da região amazônica, todos envolvidos com questões sociais e ambientais. Três deles são bispos.

 

O Pará, onde a irmã Dorothy Stang foi assassinada em 2005, é o Estado com maior número de ameaçados: cinco pessoas da lista são de lá. Rondônia aparece em segundo lugar, com três nomes; e Mato Grosso em terceiro, com dois.

 

Na prelazia paraense do Xingu, que engloba o município de Anapu, onde Dorothy vivia, o bispo Erwin Kräutler está sendo obrigado a fazer as visitas pastorais com um agente de segurança da Polícia Militar ao seu lado. O mesmo ocorre com o frade dominicano e advogado Henri des Roziers, que trabalha no escritório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara, também no Pará.

Em Alta Floresta, Mato Grosso, a freira Leonora Brunetto dispensou a segurança oferecida pelas autoridades federais. Justificou-se dizendo que só aceitaria o esquema de proteção se pudesse ser estendido às lideranças dos movimentos de sem-terra com os quais ela atua. “Não seria justo deixar essa gente no perigo e sair de lado”, explicou ao Estado. “Diante de Deus não seria nada bom.”

Com proteção especial, ela provavelmente se livraria de ameaças que ouve até quando caminha pelas ruas de Alta Floresta - cidade de 15 mil habitantes, a 720 quilômetros de Cuiabá e conturbada por conflitos em torno da posse da terra e da extração da madeira. “A gente não tem pressa”, disseram-lhe dias atrás. “Pode ser hoje ou amanhã, mas vai acontecer.” Pelo telefone, por cartas e até bilhetes jogados diante de sua casa, a freira de 61 anos já foi xingada várias vezes.

 

Em Anapu, o padre Amaro de Souza, que trabalhava com a irmã Dorothy, também dispensou o esquema de segurança, com dois PMs. Mas o motivo dele foi outro: “Disseram que o transporte, o alojamento e a alimentação dos seguranças ficariam por nossa conta. Não temos condições para isso.”

 

Temeroso, o padre mantém três cachorros no quintal de casa. “Eles me avisam quando qualquer estranho se aproxima. Preciso tomar cuidado, porque o consórcio de grileiros que encomendou a morte de Dorothy ainda está atuante.”

 

Além de d. Erwin, os bispos que receberam ameaças foram d. Geraldo Verdier, da Diocese de Guajará-Mirim, região de Rondônia localizada na fronteira do Brasil com a Bolívia; e d. Antonio Posamai, de Ji-Paraná, no mesmo Estado.

 

O primeiro, um francês naturalizado brasileiro, de 70 anos, dos quais 42 vividos aqui, foi ameaçado de morte porque tomou o partido de um assentado da reforma agrária que teve sua terra tomada por um grileiro. Depois teve problemas por ter denunciado casos de torturas, que teriam sido praticadas por policiais da cidade. “Uma vez me chamaram para socorrer um homem que estava sendo torturado. Encontrei-o no meio de uma poça de sangue”, contou ele.

 

Nenhum policial foi condenado. Por outro lado, o bispo, acusado por um dos policiais por danos morais, será julgado no próximo dia 15 de maio na sede de sua diocese.

Em Ji-Paraná, o bispo recebeu uma carta com ameaças de morte, no ano passado, após ter denunciado casos de corrupção que estariam ocorrendo no governo de Rondônia. No momento, o bispo também está sendo processado na Justiça.

 

A lista dos religiosos e religiosas ameaçados 

 

D. Erwin Kräutler: bispo prelado de Xingu, PA. Anda acompanhado por seguranças

D. Geraldo Verdier: bispo de Guajará-Mirim, RO. Denunciou grilagem de terra e tortura policial

D. Antonio Possamai: bispo de Ji-Paraná, RO. Denunciou casos de corrupção

Frei Henri Burin des Roziers: da CPT de Xinguara, PA, atua no combate ao trabalho escravo

Irmã Leonora Bruneto: da CPT de Alta Floresta, MT. Apóia os sem-terra

Padre José Iborra Blans: de Guajará-Mirim, RO. Tem denunciado invasões de terras indígenas e de parques florestais

Padre José Amaro de Souza: trabalha em Anapu, PA, a cidade onde mataram Dorothy Stang

Padre Edilberto Sena de Santarém, PA. Combate o avanço de soja na região amazônica

Padre Boing: de Santarém, PA. Conhecido pela defesa dos
direitos humanos

Agente pastoral do Cimi: pediu para não ser identificado

Conflitos ambientais se somam aos conflitos pela terra nas ameaças contra os religiosos

 

Nem só conflitos por posse de terra são motivo para ameaças de morte. Até recentemente, as ameaças contra religiosos envolviam quase invariavelmente questões relacionadas a disputas pela posse da terra. Foi assim no caso de Anapu, onde caiu a religiosa Dorothy Stang, de 73 anos. Mas começam a ganhar destaque nas listas os conflitos por questões ambientais. A reportagem é do jornal O Estado de S.Paulo, 7-4-2007.

 

Segundo relato do bispo Geraldo Verdier, de Guajará-Mirim (RO), um de seus padres, o catalão José Iborra Blans, já recebeu ameaças de morte por ter denunciado a invasão de madeireiras em parques florestais e terras indígenas. Ainda de acordo com o bispo, as questões ambientais devem ganhar destaque nos conflitos daqui para frente.

 

No Pará, dois padres da Diocese de Santarém, que combatem a expansão do plantio de soja na região amazônica, também receberam ameaças, segundo informações da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O mais visado deles é o padre e advogado Edilberto Sena, que ficou conhecido por causa de um programa na Rádio Rural de Santarém; o outro, o padre Boing, pároco da Igreja de São Raimundo Nonato, é reconhecido por sua atuação na área de direitos humanos.

 

No ano passado, após ameaças feitas contra os dois padres pelo site Orkut, a seção paraense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu proteção especial para eles. Há poucos dias, chegou à Secretaria Nacional de Defesa dos Direitos Humanos, em Brasília, um pedido de proteção para um agente pastoral envolvido com a questão indígena. Seu nome - o décimo da lista - não foi divulgado a pedido do próprio agente, que teme por sua família, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

 

Na opinião de d. Geraldo, a situação na região amazônica tende a melhorar com o fortalecimento do Estado na região. “Sinto que os conflitos tendem a se reduzir, com a presença mais atuante de órgãos da Justiça, como as promotorias”, afirmou.

 

D. Geraldo espera que o papa Bento XVI, em sua visita ao Brasil, faça referência à luta das pessoas mais pobres pelos seus direitos: “Espero que, de alguma maneira, ele beneficie a causa social. Me parece um homem inteligente, sincero, profundo e muito espiritualizado. Mas não sei como vê a questão social. Não sei se apóia essa Igreja que vive ameaçada, numa situação muito difícil.”

 

A irmã Leonora Brunetto, que pertence à congregação Imaculado Coração de Maria, não acredita que o papa faça referências especiais à situação dessa ala da Igreja: “Não tenho muita esperança. Mas, por outro lado, se ele falar vai ser bom, porque pode trazer alguma luz, alguma força.”

 

Segundo a irmã, os maiores incentivos para o trabalho que desenvolve junto aos sem-terra não vêm da cúpula da Igreja: “Há setores que chegam a criticar essa idéia de entrar na briga em defesa dos pobres. Minha força vem de Deus, da congregação à qual pertenço - e à qual só tenho a agradecer - e do povão.”

 

No episcopado brasileiro, esse tipo de ação social da Igreja já teve mais força. Atualmente, um dos bispos mais identificados com essa ala é d. Erwin Krautler, presidente do Cimi.

 

Para Leonora, a situação dos setores populares mais organizados, especialmente na agricultura, está melhorando: “Eles buscam seus direitos, conseguem crédito, assistência técnica.” O que piorou, segundo a religiosa, foram as condições de vida dos trabalhadores rurais não organizados: “A gente sabe disso pelo aumento das denúncias de trabalhadores escravizados. Eles são levados para lugares distantes, fechados, de difícil acesso.”

 

Antes de Mato Grosso, ela trabalhou com agricultores no Rio Grande do Sul, Maranhão e Rio Grande do Norte.

 

 

 

 

 

 
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