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Dilma Ferreira: mulher, negra, lutadora

04.04.2019 | Fonte de informações:

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Dilma Ferreira: mulher, negra, lutadora

Moisés Sarraf, Amazônia Real

29/03/2019


Ala­gada da usina de Tu­curuí  Dilma Fer­reira da Silva tinha 45 anos e deixou uma filha adulta (Foto: MAB) 

"Ela era uma grande re­fe­rência do MAB na re­gião", disse Clei­diane Vi­eira, que faz parte da co­or­de­nação re­gi­onal do Mo­vi­mento dos Atin­gidos pelas Bar­ra­gens (MAB) sobre o as­sas­si­nato da também co­or­de­na­dora do mo­vi­mento, Dilma Fer­reira da Silva, 45 anos, que foi en­con­trada de­go­lada, pro­va­vel­mente por arma branca (faca ou ter­çado), entre às 21 horas de quinta-feira (21) e zero hora em sua casa no as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende, zona rural de Baião, no Pará. A po­lícia chegou ao local do crime por volta do meio dia desta sexta-feira (22).

Co­or­de­nador do MAB em Tu­curuí, Ro­quevam Alves Silva disse à agência Amazônia Real que não existia con­flito agrário no as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende, onde Dilma foi as­sas­si­nada, junto com o ma­rido dela, Clau­di­onor Costa da Silva, 42 anos, e Hilton Lopes, 38 anos, um as­sen­tado. Os dois ho­mens foram mortos pro­va­vel­mente por arma branca e arma de fogo.

"O as­sen­ta­mento está re­gu­la­ri­zado há muito tempo. Só se for de pos­seiro para pos­seiro [o su­posto mo­tivo para o crime]. Aqui não vamos jogar a culpa ou pro­curar cul­pado que não seja o de fato. Da forma como ela foi as­sas­si­nada, ela foi de­go­lada. Há sus­peitas de que ela foi es­tu­prada e tor­tu­rada, por isso tem que in­ves­tigar muito para chegar aos cri­mi­nosos. Não en­ten­demos o mo­tivo de tanta bru­ta­li­dade", re­velou o co­or­de­nador.
Ele disse que os cri­mi­nosos não usaram arma de fogo, como foi di­vul­gado por sites de no­tí­cias de Tu­curuí, ci­dade lo­ca­li­zada a 60 quilô­me­tros do as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende, no su­deste do Pará. Mas ou­tras fontes con­sul­tadas pela re­por­tagem dizem que há arma de fogo na cena do crime.

Se­gundo a Se­cre­taria de Es­tado de Se­gu­rança Pú­blica e De­fesa So­cial do Pará (Segup), o crime é tra­tado pela po­lícia como "exe­cução", mas ainda não há uma linha de in­ves­ti­gação para o mo­tivo e nem pistas dos au­tores. A se­cre­taria não in­formou que tipo de armas os cri­mi­nosos usaram.
A se­cre­taria é che­fiada pelo ex-su­pe­rin­ten­dente da Po­lícia Fe­deral no Pará, de­le­gado Ua­lame Ma­chado. Ele atuou nas in­ves­ti­ga­ções da cha­cina de Pau D'Arco em que dez tra­ba­lha­dores ru­rais foram as­sas­si­nados por po­li­ciais, em 2017, e na morte da mis­si­o­nária Do­rothy Stang, em Anapu, em 2005.

"A casa, onde também fun­ci­o­nava um mer­ca­dinho, es­tava toda re­vi­rada", disse a Segup em nota, ex­pli­cando que as in­ves­ti­ga­ções estão cen­tra­li­zadas na Su­pe­rin­ten­dência de Tu­curuí, com au­xílio ao Nú­cleo de Apoio à In­ves­ti­gação.

Nem o se­cre­tário Ua­lame Ma­chado e nem o go­ver­nador do Pará, Helder Bar­balho (MDB), fi­zeram de­cla­ra­ções sobre as in­ves­ti­ga­ções da morte de Dilma Fer­reira.

Para a CPT, Dilma é a pri­meira ati­vista pelo di­reito à terra a ser as­sas­si­nada na Amazônia, em 2019. Nas redes so­ciais, a morte da co­or­de­na­dora do MAB também chocou or­ga­ni­za­ções de mu­lheres en­vol­vidas no com­bate à vi­o­lência e nas ma­ni­fes­ta­ções pelo Dia In­ter­na­ci­onal da Mu­lher, co­me­mo­rado este mês.

Ro­quevam Alves Silva disse que Dilma era co­or­de­na­dora re­gi­onal do MAB desde 2005. "A Dilma era uma pessoa muito im­por­tante para o MAB, era uma re­pre­sen­tação muito im­por­tante da re­gião. É [a morte dela] uma perda ir­re­pa­rável. Apesar da his­tória de que todo mundo é subs­ti­tuível, ja­mais será a mesma coisa que a com­pa­nheira fez para o mo­vi­mento", disse ele, que afirmou que os as­sas­si­natos acon­te­ceram por volta das 21h (do dia 21 de março), mas os fa­mi­li­ares e amigos só sou­beram na manhã desta sexta-feira (22). Dilma não tinha fi­lhos com o ma­rido, mas deixou uma filha adulta do pri­meiro ca­sa­mento.

Os corpos das três ví­timas já pas­saram por ne­cropsia no Ins­ti­tuto Mé­dico de Legal de Tu­curuí. Os restos mor­tais da li­de­rança Dilma Fer­reira Silva serão trans­la­dados para o se­pul­ta­mento neste sá­bado (23) no es­tado do Ma­ra­nhão, onde moram os fa­mi­li­ares dela. Não há in­for­ma­ções sobre os en­terros de Clau­di­onor Silva e Hilton Lopes.

O as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende, onde vivia Dilma Fer­reira da Silva, fica no quilô­metro 50 da ro­dovia BR-422, a Trans­ca­metá, que corta o mu­ni­cípio de Baião, no nor­deste do Pará.

Ma­ra­nhense, Dilma e sua fa­mília foram atin­gidas pela cons­trução da usina hi­dre­lé­trica de Tu­curuí - obra con­si­de­rada a maior no país, inau­gu­rada em 1984, du­rante a di­ta­dura mi­litar. A obra de­sa­lojou mais de 6 mil fa­mí­lias.

"Dilma viu sua ci­dade ser ala­gada pela aber­tura das com­portas. [Ela] vi­ven­ciou o des­caso total no pro­cesso de re­pa­ração, pas­saram 30 anos desde o co­meço da obra sem ne­nhuma re­pa­ração", in­formou o MAB.

En­contro com Dilma Rous­seff

Ao ser co­mu­ni­cada a morte da co­or­de­na­dora re­gi­onal em Tu­curuí do MAB, na manhã de sexta-feira (22), cir­culou nas redes so­ciais a foto dela ao lado da ex-pre­si­dente Dilma Rous­seff (em agosto de 2016). As duas Dilmas se co­nhe­ceram em 2011, du­rante o En­contro Na­ci­onal de Mu­lheres do MAB, em Bra­sília (DF).

"En­ten­demos que a eleição da pri­meira mu­lher Pre­si­dente da Re­pú­blica de nosso país co­loca-nos, a todas, num novo pa­tamar de luta por nossos di­reitos e traz para todas as mu­lheres atin­gidas por bar­ra­gens a es­pe­rança", dizia a carta en­tregue por Dilma à pre­si­dente Dilma.

"Que a partir de Vossa sen­si­bi­li­dade de mu­lher, com­pre­enda bem e nossa si­tu­ação e pos­samos avançar na cons­trução de um país mais justo, fra­terno e igua­li­tário", con­ti­nuava a carta.

No do­cu­mento en­ca­mi­nhado à pre­si­dência, o MAB so­li­ci­tava "me­didas es­tru­tu­rantes, de um pro­cesso par­ti­ci­pa­tivo, de ca­ráter po­pular, na de­fi­nição da po­lí­tica ener­gé­tica na­ci­onal", além da re­gu­la­men­tação de de­creto as­si­nado pelo então pre­si­dente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o ca­dastro de atin­gidos. Pedia ainda "a ela­bo­ração de uma nova po­lí­tica na­ci­onal de tra­ta­mento das ques­tões so­ciais e am­bi­en­tais nas grandes obras deste país, além de uma série de me­didas de ca­ráter emer­gen­cial para pagar a his­tó­rica dí­vida que o Es­tado Bra­si­leiro tem com os atin­gidos por bar­ra­gens".

"Dilma en­tregou nas mãos da pre­si­dente do­cu­mento que pedia a cri­ação de uma po­lí­tica na­ci­onal de di­reitos para atin­gidos por bar­ra­gens", conta Clei­diane Vi­eira.

"Essa é uma ban­deira his­tó­rica do MAB. Hoje, a po­pu­lação atin­gida fica à mercê das em­presas. Não há uma po­lí­tica de Es­tado - nem a nível na­ci­onal nem a es­ta­dual."

A po­lí­tica na­ci­onal plei­teada por Dilma Fer­reira nunca foi im­ple­men­tada, apesar de ela lutar nas mo­bi­li­za­ções pela im­plan­tação de uma po­lí­tica de di­reitos para atin­gidos por bar­ra­gens.

Con­flito agrário
 o Se­mi­nário Mu­lheres da Amazônia reuniu 25 atin­gidas por bar­ra­gens de seis re­giões em Itai­tuba (PA) nos dias 2 a 4 de ou­tubro de 2015 (Foto: MAB) 

Há um his­tó­rico de con­flitos agrá­rios na re­gião, se­gundo a Co­missão Pas­toral da Terra (CPT). O as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende, diz a co­missão em seu site, é fruto da ocu­pação da an­tiga fa­zenda Pi­ra­ti­ninga.

"O local foi ocu­pado há 12 anos por mais de 400 fa­mí­lias sem-terra", in­formou a CPT. "Desde então, até se tornar um as­sen­ta­mento, foram vá­rios ata­ques de pis­to­leiros e con­flitos com ma­dei­reiros." Re­nato Lima, um dos tí­tulos uti­li­zados para se re­ferir ao as­sen­ta­mento, era o nome do an­tigo pro­pri­e­tário da fa­zenda.

Em 2007, cerca de 480 fa­mí­lias li­gadas ao Mo­vi­mento dos Tra­ba­lha­dores Ru­rais Sem Terra (MST) ocu­param a fa­zenda Pi­ra­ti­ninga, diz a CPT. No dia 6 de agosto da­quele ano, um grupo de pis­to­leiros fez dis­paros contra o acam­pa­mento; não foram re­gis­tradas ví­timas.

Ainda se­gundo a CPT, dias de­pois, um grupo de 15 ho­mens in­vadiu o acam­pa­mento, fa­zendo dis­paros e agre­dindo os tra­ba­lha­dores ru­rais. De­pois desse ataque, as fa­mí­lias dei­xaram o local, mas re­tor­naram, apesar das ame­aças.

Nos anos se­guintes, as fa­mí­lias sem-terra se­guiram de­nun­ci­ando os con­flitos agrá­rios na re­gião e o des­ma­ta­mento ilegal, além de rei­vin­dicar a de­sa­pro­pri­ação das terras para fins de re­forma agrária.

Se­gundo his­tó­rico da CPT, em 2011, uma ação de rein­te­gração de posse na fa­zenda des­pejou cerca de 50 fa­mí­lias. Algum tempo de­pois, porém, o Ins­ti­tuto Na­ci­onal de Co­lo­ni­zação e Re­forma Agrária (Incra) ini­ciou a me­dição dos lotes, que deram origem ao as­sen­ta­mento Sal­vador Al­lende.
"A gente ainda não sabe ainda se a causa foi con­flito agrário", afirma o ad­vo­gado José Ba­tista, da CPT, uma vez que o as­sen­ta­mento está con­so­li­dado pelo Incra.

Mortes no Pará

Casos re­centes de­mons­tram a re­cor­rência de as­sas­si­natos en­vol­vendo con­flitos agrá­rios no Pará. No dia 12 de março de 2018, Paulo Sérgio Al­meida Nas­ci­mento foi morto a tiros na zona rural do mu­ni­cípio de Bar­ca­rena. Ele era se­gundo-te­sou­reiro da As­so­ci­ação dos Ca­bo­clos, In­dí­genas e Qui­lom­bolas da Amazônia (Cain­quiama), or­ga­ni­zação que de­nun­ciou va­za­mentos das ba­cias de re­jeitos da em­presa Hydro-Alu­norte, no início do ano pas­sado.

Já no dia 15 de abril de 2018, foi as­sas­si­nado o líder qui­lom­bola Na­zildo dos Santos Brito, 33 anos, da co­mu­ni­dade Turê III, que fica entre os mu­ni­cí­pios de Tomé-Açu e Acará, no nor­deste pa­ra­ense. Ele vinha sendo ame­a­çado por de­nun­ciar crimes am­bi­en­tais na re­gião. Em ja­neiro deste ano, o Mi­nis­tério Pú­blico do Es­tado do Pará de­nun­ciou o fa­zen­deiro José Telmo Zani pelo as­sas­si­nato do qui­lom­bola. Se­gundo mo­ra­dores da co­mu­ni­dade, José Telmo fazia ex­tração ilegal de ma­deira dentro do ter­ri­tório qui­lom­bola e ame­açou Na­zildo di­versas vezes.

Em 2017, dez tra­ba­lha­dores ru­rais foram as­sas­si­nados na fa­zenda Santa Lúcia, mu­ni­cípio de Pau D'Arco, no sul do Pará. A "cha­cina de Pau D'Arco", como ficou co­nhe­cida, foi exe­cu­tada por po­li­ciais civis e mi­li­tares, que foram de­nun­ci­ados pelo Mi­nis­tério Pú­blico e devem ser jul­gados por um tri­bunal do júri, com data a ser mar­cada.

Na­quele ano, se­gundo le­van­ta­mento da CPT, o Pará teve o maior nú­mero de as­sas­si­natos por con­flitos no campo. De um total de 70 as­sas­si­natos, 21 foram no Pará, sendo que dez deles ocor­reram na cha­cina de Pau D'Arco. 

Moyses Sarraf é jor­na­lista do Portal Amazônia Real, onde a ma­téria foi ori­gi­nal­mente pu­bli­cada.
Co­la­borou Kátia Brasil.

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13714-dilma-ferreira-mulher-negra-lutadora

 

 
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