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Manifesto aos economistas: em busca da liberdade, da igualdade e da eficiência

29.03.2010 | Fonte de informações:

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Por Marcus Eduardo de Oliveira (*)

Economista e professor

Ninguém pode ignorar a economia por dois únicos e singelos motivos: o primeiro é que não há recursos suficientes para todos, visto que os desejos são ilimitados. É tarefa da Economia lidar com essa situação conflituosa que envolve escolhas. Essa escassez de recursos, entendida como falha de mercado, é uma verdade inconteste no trato com as necessidades ilimitadas dos consumidores. O segundo motivo é que todos, direta e indiretamente, ao participarmos com nossos desejos de consumo, estamos fazendo parte da economia. Isso somado ao fato que os mais diversos assuntos que envolve a economia também nos envolve a cada momento. Diante disso, por essa simples e incontestável verificação, a Economia (enquanto ciência), se coloca com importância ímpar na relação consumidor x desejo de consumo x recursos limitados. Isso tudo acontecendo num espaço chamado mercado, do qual permite o encontro da oferta com a demanda.

É justamente por essa linha de análise que a Ciência Econômica se destaca e ganha, cada vez mais, maior penetração na vida de todos.

No entanto, é necessário enaltecer uma questão. O que de fato objetiva essa ciência? James E. Meade (1907-95), laureado com o prêmio Nobel em 1977, certa vez destacou que os três principais objetivos da economia são: 1) A LIBERDADE – garantir a livre escolha por parte de cada cidadão; 2) A IGUALDADE – evitar a brutal diferença entre a riqueza e a pobreza; e, 3) A EFICIÊNCIA – praticar o melhor uso dos recursos disponíveis de modo a garantir um melhor padrão de vida.

Percebe-se, nas palavras de Meade, a penetração (abrangência) da Economia em nossos afazares diários, uma vez que estamos submetidos, em tempo integral, ao processo de escolhas, sempre em busca de melhor eficiência; afinal, todos almejam uma vida melhor, de preferência com liberdade para atuar onde bem desejar.

Pois bem. Feitas essas incursões, esse Manifesto aos Economistas pretende, tão somente, levantar questão em torno do real papel do economista na sociedade moderna e de como esse profissional, a partir de análises específicas, pode atuar no sentido de fazer da economia um instrumento capaz de construir uma sociedade mais justa e equânime. Procuremos então responder o que segue: O que cabe ao profissional da Economia nos dias de hoje? O que está reservado a esse profissional acostumado no trato teórico dos problemas econômico-sociais? Qual sua finalidade diante de uma sociedade recheada de conflitos sociais? Que tipo de visão deverá ter esse economista mediante o processo social que encontrará pela frente?

1. VISÃO AMPLA DO PROCESSO SOCIAL

Primeiramente, o economista de hoje, de forma obrigatória, necessitará ter uma visão ampla do processo social. Precisará, portanto, combinar compreensão teórica com explicação técnico-didática, para se colocar de forma apta a exercer sua profissão. Deverá, todavia, explicar os fatos econômicos dos tempos atuais com o rigor de excelência que se espera daqueles que tratam a profissão com esmero.

Segundo creio, somente se conseguirá isso mediante uma visão panorâmica do ambiente econômico, devendo, nesse pormenor, se abrir ao processo de criação, uma vez que a sociedade (assim como a própria Economia) é algo que os homens não param de refazer. Logo, cabe discernir que a Economia é uma ciência dinâmica, não estática; portanto, passível de mudanças e ajustes a todo o momento.

Esse economista moderno constatará que, infelizmente, nos dias de hoje, a economia tradicional continua ignorando o indivíduo e se preocupando, exclusivamente, com a acumulação de capital. Para o economista dotado de visão social, essa deverá ser uma de suas primeiras preocupações, no sentido de abolir, definitivamente, essa prática costumeira de ignorar o cidadão-cidadã participante do processo econômico. O economista moderno, conhecedor teórico dos problemas sociais, precisará ter em mente, no entanto, que um mundo melhor para todos somente será possível quando as gritantes disparidades, tanto sociais quanto econômicas, entre o mundo dos ricos e o mundo dos pobres, for diminuída substancialmente. Para isso, deve (e deverá) o economista moderno pensar, antes, no social, e fazer com que isso esteja sempre acima do econômico. É necessário, nesse sentido, combinar reflexão com ação. Basicamente, nesse intuito, é preciso fazer aquilo que frei Leonardo Boff diz com bastante propriedade: “idéias podemos até tê-las, mas o que realmente move o mundo são nossas ações”.

Um primeio passo nessa direção, portanto, é fazer com que o economista moderno e outros cientistas sociais, se sintonizem no fato de que nem tudo se resume em commodities. Logo, nem tudo deve ser condicionado a mera questão de mercado. Por consequência, nem tudo deve se resumir na pré-condição de mercadoria pronta a ser vendida. Essa visão tipicamente mercantilista, reforçada pelos mecanismos capitalistas de mercado, e por políticas que tem feito destruír a proteção social, leva ao fato de que tudo está (e estará) a venda; é assim como preconizam os defensores do capitalismo que querem tudo vender e, para tanto, em tudo colocam seus preços. Ao fazer isso, a economia tradicional dirige sim a visão para o indíviduo. No entanto, apenas o enxerga como mero consumidor. O modelo de economia que queremos aqui manifestar deverá mudar essa visão, até mesmo porque o indíviduo não pode (e não deve) ser visto apenas como mero consumidor pronto a ser explorado. A economia que queremos ver ressaltada deve servir o indivíduo, e não ser servida por ele. A Economia é para o homem e pelo homem; não para o mercado e pela mercadoria.

2. TROCAR A COMPETIÇÃO PELA COOPERAÇÃO

O tipo de sociedade que o economista preocupado em ajudar a construir um mundo melhor deve pensar tem que necessariamente passar pela cooperação, em lugar da competição. Esta última, até mesmo por ser quase sempre praticada de maneira desigual, privilegiando apenas os mais abastados, apresenta evidências, a todo instante, de que serve apenas para dividir e segregar. Desse jeito, dividindo e separando os seres pela condição financeira ou posição social que ocupam, jamais se chegará a condição sonhada de termos um amanhã melhor para todos.

Somente somando forças (cooperando), e não divindo (competindo de maneira desleal), se poderá alcançar uma sociedade mais justa e menos desigual. É sabido que a força coletiva faz o progresso acontecer. Com o progresso, a chance dos que nada tem passa a ser considerável. A cooperação, nesse sentido, pode ser a luz que falta àqueles que hoje vivem completamente à margem dos benefícios que uma sociedade equilibrada e justa é capaz de oferecer.

É nesse sentido que o economista moderno deve pensar. As causas e consequências da pobreza em que vive 1/3 dos brasileiros deve ser ensinada pelas ciências econômicas como sendo a mais abjeta situação, comparável a ignomínia da escravidão que marcou esse país por séculos. Pensar na construção de um mundo social mais justo, deve ser a primeira lição ensinada no primeiro dia de aula no primeiro ano do curso de graduação em Ciências Econômicas.

A pobreza, a fome, a miséria e todo e qualquer outro tipo de exclusão social devem ser os temas de maior interesse do economista moderno; principalmente em sociedades com elevados índices de desigualdades. É simplesmente inadmissível aceitar que no mundo atual haja, por exemplo, gente passando fome em qualquer parte do planeta, quando se sabe que os alimentos sobram aqui e acolá e que a fome, por consequência, não é resultante da escassez de alimentos, mas sim da péssima distribuição e de interesses diversos que insistem em penalizar os mais necessitados em troca de ganhos mais elavados no mercado financeiro.

Propor alternativas para erradicar esses males sociais deve ser a tarefa a ser empreendida com afinco pelos profissionais da Economia que chegam a todo momento ao mercado de trabalho. Esse deve ser o Manifesto a ser levantado por todos os economistas que vestem a camisa a favor da luta por um mundo melhor e mais solidário. Afinal, a Economia nasceu para isso; para dar uma resposta positiva aos problemas sociais que tanto aflinge o homem moderno. O economista dos dias de hoje precisa resgatar o real entendimento e a prática dessa ciência que um dia, por infelicidade, foi chamada de lúgubre (dismal science).

3. CRESCIMENTO ECONÔMICO, EQUILÍBRIO ECOLÓGICO E PROGRESSO SOCIAL

Em meu entendimento, a economia só faz sentido de ser e torna-se útil se, e somente se, agrupar em sua intenção crescimento econômico (equilibrado), equilíbrio ecológico (meio ambiente sustentável) e progresso social (justiça e equidade). Fora disso, a Economia encontra-se totalmente desconectada da realidade.

Definitivamente, o padrão de crescimento das sociedades modernas precisa ser modificado. Essa modificação passa, inexoravelmente, pela ação do economista em prol da melhoria da vida dos que tanto necessitam. O padrão de crescimento econômico das sociedades modernas não pode ser praticado, como temos presenciado, sob uma plataforma socialmente perversa, que desrespeita o indivíduo, não privilegia as condições dignas de trabalho, faz uso inadequado dos recursos naturais, polui o ar que respiramos e que se centra, apenas, sob a ótica mercantil.

Se realmente desejamos uma sociedade melhor, outro mundo precisa, urgentemente, ser “edificado” sob novos olhares. Especificamente sob o olhar de que a mudança é plausível e está ao nosso alcance. Não esqueçamos, nesse sentido, que reflexão coletiva é espécie de irmã siamesa da ação participativa. Assim, mostrando primeiramente as feridas, poderemos chegar mediante ações, à cicatrização.

É necessário antes conhecer (pensar) para compreender e, é compreendendo que empreenderemos ações. O pensamento precede a ação, assim como o desejo (o querer) incita o fazer, o agir. Agindo, “forçaremos” a mudança e, mudando, certamente, progrediremos. A Ciência Econômica pode, perfeitamente, contribuir nesse sentido.

Logo, para mudar, devemos agir. É dentro dessa abordagem que a economia solidária – uma nova maneira de “ver, pensar, sentir e fazer” economia vem ganhando destaque.

4. A RELAÇÃO ECONOMIA X MEIO-AMBIENTE

Conquanto, essa nova economia somente será solidária e ocupará espaço positivo à medida que um maior número de adeptos engrossarem as fileiras desse novo modelo econômico. De um modelo que pretende respeitar os padrões de produção, sem agredir os recursos naturais, respeitando, também, e principalmente, às gerações futuras.

Em suma, necessitamos de um modelo que respeita a relação economia x meio-ambiente, identificando que há limites ao crescimento econômico. O economista moderno precisa entender que poluição nunca foi sinônimo de crescimento. Acima de tudo, cabe a esse profissional responder o que pode ser feito para se criar uma economia humana com capacidade de prover suficientemente para todos.

Outrossim, o economista moderno de quem estamos falando precisa ter em mente que o crescimento físico em um planeta finito deve, no devido tempo, ter fim, para o bem de todos. Aqui, somado a essa preocupação com a questão ambiental, reiteramos a necessidade de buscar por outro modelo econômico que respeita e prioriza, por exemplo, o trabalho não remunerado da mulher “dona do lar”, vendo nisso também uma atividade econômica produtiva e, antes, buscar um modelo de economia que afirma positivamente o trabalho das organizações não governamentais.

5. O MODELO DE ECONOMIA SOCIAL-SOLIDÁRIA

Qual poderia então ser esse modelo? A solidariedade, entendida em suas linhas mestras pelo caráter cooperativo pode ser esse modelo que almejamos. O Modelo de Economia Social-Solidária, que queremos ver ganhar maior dimensão respeita a geração presente, priorizando, valorizando e enaltecendo o ser humano, em lugar de focar, exclusivamente, na acumulação de capital – típica da selvageria capitalista. Por sinal, essa “selvageria capitalista”, ao longo dos últimos 200 anos, deu mostras mais que suficientes de que não foram (e não são) as relações igualitárias que prevalecem, mas sim a busca incansável pelo lucro, mesmo que, para isso, a vida de milhões de pessoas seja sacrificada.

Um novo sistema econômico, solidário e participativo, mais ético e menos mercantil, precisa, portanto, emergir para diminuir a abissal diferença entre o modo de viver dos mais ricos em relação aos mais pobres, até mesmo porque essa diferença já extrapolou todo e qualquer limite imaginável. Afinal, estamos num mundo em que vinte por cento da Humanidade não hesita em gastar três dólares por dia num simples cappuccino; enquanto, do outro lado, quase 40% da população mundial “tenta” viver com menos de dois dólares por dia. Habitamos um mundo em que para manter uma vaca em pé na Europa central são gastos quatro dólares por animal a cada dia. No entanto, por não receber nem dois dólares (menos da metade, portanto, que uma vaca “recebe” em forma de subsídio) por dia, 3 milhões de pessoas morrem por causa de malária todos os anos na África subsaariana.

Talvez seja por isso que a cada semana, a pobreza e suas nefandas “conseqüências” matam no continente africano o mesmo número de pessoas que foram dizimadas pelo tsunami que atingiu o sudeste asiático anos atrás.

Independente disso, a título de triste comparação, a maior economia do mundo (EUA) gastou, apenas em 2007, US$ 547 bilhões em material bélico para manter suas tropas ocupando mais de 700 bases militares em mais de 110 países. Segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo, foi gasto pelos países mais ricos, somente em 2007, a importância de US$ 1,339 trilhão em armamentos (incluindo todos os tipos de armas). Os EUA, uma vez mais, lideraram esses gastos. Isso representou 2,5% do PIB mundial.

Não é à toa então que para cada US$ 1 que a Organização das Nações Unidas (ONU) gasta em campanhas publicitárias para buscar a paz mundial, três dos países mais ricos (EUA, França e Inglaterra) gastam, cada um, outros US$ 20 para promoverem guerras e destruições. Até quando esse modelo econômico perverso continuará dando as cartas? Contra essa insanidade política e econômica é que os economistas devem empreender forças e levantar um Manifesto capaz de resgatar a Liberdade, a Igualdade e a Eficiência, assim como James Meade nos explicou serem os objetivos principais dessa ciência.

(*) Economista, mestre pela USP e professor de Economia da FAC-FITO, do UNIFIEO e da Faculdade de Vinhedo.

Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e

“Provocações Econômicas” (no prelo).

Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

 
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