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Epidemia de obesidade à espreita

23.07.2019 | Fonte de informações:

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Epidemia de obesidade à espreita

Roma, (Prensa Latina) A desnutrição em todas suas formas constitui um dos maiores desafios atuais, sobretudo diante de um aumento sem precedentes da obesidade e das doenças não transmissíveis relacionadas à dieta.

 

No recente simpósio internacional 'O futuro da alimentação' celebrado pela FAO nesta capital, o diretor geral que sai dessa instituição, José Graziano da Silva, alertou que pela primeira vez no mundo o número de pessoas obesas superará às que passam fome.

Ao intervir ante representantes de governos, acadêmicos, pesquisadores, do setor privado, sociedade civil e outras associações de mais de vinte países, Da Silva destacou que a obesidade e o sobrepeso estão presentes em todas partes, 'em países em via de desenvolvimento, em zonas rurais, urbanas, afetam a jovens, idosos, mulheres e homens, a todos'.

Isso obedece principalmente à mudança dietética, as pautas dos consumidores mudam com muitíssima rapidez devido à urbanização, à comida rápida e muitos outros fatores.

Se não mudarmos, a obesidade e as doenças relacionadas, como a diabetes, vão pôr nosso futuro em perigo, apontou Da Silva e acrescentou que a FAO quer 'se centrar' mais na nutrição pelo que ela representa para a humanidade.

Para o diretor os sistemas alimentares do futuro devem proporcionar produtos saudáveis e de qualidade para todos, com o devido cuidado ao meio ambiente e em tal sentido instou aos governos a promover o consumo de alimentos frescos a partir de circuitos locais de produção.

Como parte das soluções das medidas que contribuem com dietas mais saudáveis, mencionou o uso de políticas fiscais como a imposição de encargo sobre alimentos não saudáveis e de etiquetados mais claros que permitam ao público fazer uma melhor seleção de que comer.

Nesse encontro Da Silva fez referência a dados preliminares do relatório 'O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo 2019', o qual, adiantou, mostra 'a gravidade do problema que enfrenta a humanidade'.

CRESCE A FOME E VEM MAL ACOMPANHADA 

O referido documento das Nações Unidas publicado a 15 de julho adverte que pelo terceiro ano consecutivo a fome no mundo continuou crescendo e atingiu em 2018 a algo mais de 820 milhões de pessoas, em comparação a 811 milhões do ano anterior.

Basicamente, crianças e mulheres de quase todas as subregiões da África e, em menor medida, na América Latina e Ásia ocidental, sofrem esse flagelo que lentamente vai custando maior número de vidas.

O documento foi apresentado pelo terceiro ano consecutivo pelas agências da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Programa Mundial de Alimentos (PMA), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Fundo para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

As causas de semelhantes desafios para a segurança alimentar, a nutrição e a saúde são atribuídas por esse documento à recessão econômica, os conflitos e à instabilidade que acarretam maior deslocamento populacional, junto à mudança climática e a crescente variabilidade do clima e seus fenômenos extremos.

Outro fato alarmante, considera o próprio texto, é que cerca de dois bilhões de pessoas 'padecem de insegurança alimentar moderada ou grave no mundo', cuja falta de 'acesso regular a alimentos nutritivos e suficientes põem-nas em um maior risco de desnutrição e má saúde'.

Delas 1,04 bilhões se encontram na Ásia, 52 por cento; 676 milhões na África, 34 por cento e 188 milhões na América Latina, nove por cento.

Às cifras de famélicos, que crescem lentamente e se afastam da meta Fome Zero prevista na Agenda 2030 da ONU, se somam as dos desnutridos, próprias da pobreza, baixos rendimentos e instrução, subdesenvolvimento, condicionadas também a políticas alimentares erradas e de produções que apostam mais no lucro do que na saúde dos indivíduos.

Segundo o relatório recém publicado as estimativas indicam que um em cada sete nascidos vivos, aproximadamente 20,5 milhões de bebês na escala mundial, tinha baixo peso ao nascer em 2015, muitos deles filhos de mães adolescentes.

Mas, ainda que reflita uma melhoria, o próprio relatório registra que no mundo 149 milhões de crianças padecem sofrem de crescimento.

Também em escala mundial 7,3 por cento dos jovens menores de cinco anos -49,5 milhões de pequenos-, sofrem emaciação, cifra distante da meta da reduzir a menos do cinco por cento para 2025 e três por cento para 2030.

De igual modo, em 2016, uma em cada três mulheres em idade fértil (de 15 a 49 anos) de todo mundo padecia anemia, 32,8 por cento do total, uma patologia que, reconhecem os especialistas, se mantém sem mudanças desde 2012, portanto a meta de baixar para a metade para 2025 é quase uma quimera.

O documento reflete também a marcada brecha de gênero, pois, 'em todos os continentes a prevalência da insegurança alimentar é ligeiramente mais elevada nas mulheres do que nos homens'.

A desnutrição, aprofunda o relatório, está interconectada em todo o ciclo de vida: a desnutrição no feto e durante os primeiros anos de vida agrava os problemas de saúde tanto a imediato como em longo prazo.

Cita como exemplo em tal sentido o atraso do crescimento físico, as cardiopatias coronárias, os acidentes cerebrovasculares, a diabetes e a obesidade abdominal, além dos custos econômicos derivados da perda de capital humano.

OBESIDADE SUPERA SOBREPESO 

No mundo, a prevalência do sobrepeso aumenta em todas as regiões, especialmente entre os jovens em idade escoar e os adultos, e destaca que entre 2000 e 2016 a obesidade superou ao sobrepeso, e esclarece que se ambas formas de desnutrição constituem importantes problemas de saúde, ela está relacionada com maiores riscos de mortalidade e morbidade.

Em 2018, dados que ilustram o problema, o sobrepeso afetava 40,1 milhões de crianças menores de cinco anos (5,9 por cento do total), enquanto em 2016 se calculou que 131 milhões de jovens entre cinco e nove anos, 207 milhões de adolescentes e dois bilhões de adultos tinham sobrepeso.

Como se fosse pouco, quase um terço dos adolescentes e adultos com sobrepeso e 44 por cento dos jovens entre cinco e nove anos com igual diagnóstico eram obesos no ano passado.

Entre fatores subjacentes que provocam a chamada 'pandemia mundial da obesidade' ou a 'globalização da obesidade', o relatório dos organismos de ONU cita que em todo mundo, a maioria das crianças em idade escolar não come frutas nem hortaliças suficientes, consome habitualmente comida rápida e refrigerantes e não pratica atividades físicas diariamente. Para fazer frente a todas as formas de má alimentação, segundo o texto, serão necessárias 'medidas multissetoriais audazes', saúde, alimentação, educação, proteção social, planejamento e políticas econômicas, e precisa a importância de transformar os meios alimentares para assegurar alimentos nutritivos mais acessíveis e baratos.

O custo mais alto dos alimentos nutritivos, e portanto sua substituição por outros mais baratos, mas com um alto conteúdo de gorduras e açúcar, além da pressão de viver com incerteza no acesso aos produtos e as adaptações fisiológicas às restrições dos mesmos, explicam a relação entre a insegurança alimentar, o sobrepeso e a obesidade.

O relatório apela a medidas para salvaguardar a segurança alimentar e a nutrição por meio de políticas econômicas e sociais para contrarrestar os efeitos das desacelerações e os enfraquecimentos da economia.

Cita entre elas garantir fundos para redes de segurança social e o acesso universal à saúde e a educação.

Para todos os casos, menciona a necessidade de políticas a curto e em longo prazo; desde prever respostas a contingências, reforçar a capacidade de poupança da economia quando está crescendo, até proteger os rendimentos e o poder aquisitivo, especialmente dos lares mais afetados com programas de índole diversa que ajudem na alimentação escolar, bem como garantir o emprego e os serviços sanitários, entre outros.

De igual modo, aponta a que os sistemas agrícolas e alimentares protejam a segurança alimentar e a nutrição, fomentem um melhor acesso aos produtos mais nutritivos e inclusive velem para que as políticas comerciais contribuam a esse propósito.

arb/smp/cc 

*Correspondente da Prensa Latina na Itália.

 

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