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Iêmen em movimento (2º round de manifestações)

22.09.2014 | Fonte de informações:

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O primeiro-ministro renunciou; o governo foi desfeito; as ruas de Sana estão cheias de dezenas de milhares de manifestantes do grupo Houthi e aliados sunitas; estradas bloqueadas; e o presidente provisório Abed Rabbo Hadi parece extremamente vulnerável, depois que suas propostas para resolver a crise e formar novo governo foram rejeitadas pelos manifestantes, em bloco, como "insuficientes". O porta-voz do grupo  Houthi disse que um 'grito' ritual, que se ouviria do topo dos telhados de Sana na 5a.-feira  [18/9] à noite, marcaria a "terceira fase da escalada" e manifestaria a total rejeição a qualquer aumento no preço dos combustíveis ('providência' que jamais está ausente de qualquer 'programa' de 'reformas' do FMI), e rejeição, também, ao "governo corrupto" de Hadi.


E os medos da Arábia Saudita (de ser colhida pelo ISIL num movimento em pinça) 15/9/2014, Conflicts Forum, Comentário Semanal 5/9/2014 - http://goo.gl/1Tgda5


Em resumo, o grupamento da tribo dos hadis autodenominados "os houthis" (homenagem a Hussein al-Houthi, assassinado pelo governo em 2004 - logo no início de seis anos de guerra contra os esforços do presidente Saleh para sufocar o movimento) está sustentando notável movimento de resistência, um 'renascimento' suficiente para que o movimento já seja predominante no norte do Iêmen (nos governatos de Sa'ada e Amran, e mesmo na capital, embora não tenha havido qualquer tentativa, até agora, de o movimento tomar Sana'a).

Os xiitas zaidistas são comunidade substancial principalmente no Iêmen sunita (representam 40-45% da população) e formam sólida maioria nos planaltos do norte, inclusive na região de Sanaa. Foram componente chave dos protestos que, em 2012, derrubaram o presidente Saleh.

Apesar dos clamores de que os houthis querem tomar o poder, ou planejam um golpe militar, o movimento tem sido muito cauteloso nas demandas. Não querem a chefia do governo (não querem nem ministérios). Só pedem que o aumento (de 15%) no preço da gasolina seja cancelado, e que os preços voltem aos níveis de pré-2011; e que se cancelem todos os planos do governo para formar nova federação de seis regiões. Rejeitam também a iniciativa do presidente provisório Hadi, para um governo de unidade sob o qual o próprio Hadi nomearia todos os ministros 'estratégicos' do Gabinete, mas que incluiria representantes do sul, na parte do governo que caberia aos houthis. Para muitos manifestantes, a iniciativa de Hadi não passa de "mais do mesmo" e, portanto, é inaceitável. A posição que os houthis adotaram (considerada moderada) fez crescer a base dos protestos, embora uma tribo leal a Hadi (os hariths) tenha ido às ruas em Sana'a em apoio ao presidente.

Os houthis conquistaram essa posição de 'fazedores-de-reis' em Sana'a, depois de derrotar os esforços de Saleh para 'wahhabizar" o governato de Sa'ada dominado pelos Houthi (o presidente Salah expulsara os imãs zaidistas e os substituíra por pregadores de orientação wahhabista); depois de repelir, com muita luta, um ataque da Guarda de Fronteira Saudita em 2009 (no qual os houthis infligiram pesadas baixas às forças sauditas); e depois de os houthis derrotarem o Partido Islah, ligado à Fraternidade Muçulmana, hoje definido como "junco quebrado", em termos políticos, por comentaristas respeitados.

Os houthis (ou Ansar Allah) são parte dos xiitas zaidistas e creem que os muçulmanos devem ser governados exclusivamente por seus próprios imãs, como aconteceu durante mais de mil anos - regra que só terminou em 1962. Mas as diferenças ideológicas entre os zaidistas e a maioria sunita shafi'i não são grandes. As duas seitas viveram harmoniosamente juntas e rezaram nas mesmas mesquitas ao longo de centenas de anos, e muitos sunitas shafi'i alinham-se ao lado dos houthis contra a Fraternidade Muçulmana (Islah) e os salafistas.

O medo dos sauditas é que os houthis - ao efetivamente derrubarem os Acordos de Transição impostos ao Iêmen por um grupo de seis estados do Golfo, e que realmente permitiram a continuidade da velha 'ordem' de Saleh, mas sob novo presidente provisório - só façam exacerbar a instabilidade; que enfraqueçam o compromisso do governo de lutar contra elementos anti-sauditas; e que venham a permitir que o ISIL crie espaço no Iêmen - mediante o qual o ISIL poderá pressionar o reino sauditas a partir do Iraque, por um lado; e a partir do Iêmen, pelo outro lado.

Por trás dessa ansiedade, há mais um medo entre os sauditas, de que a campanha dos houthis esteja subvertendo as estruturas de apoio para os sauditas, tão cuidadosamente montadas (e regiamente financiadas) ao longo de tantos anos; e, além disso, que a firmeza dos houthis e o profundo sentimento antigoverno deles possa vir a instigar os ismailitas (que vivem do outro lado da fronteira estratégica, área que já pertenceu aos iemenitas mas foi 'tomada' pelos sauditas) a reforçar esse ativismo houthi renascido.

A campanha de salafisação no norte (apoiada pelos sauditas) já fora neutralizada pelos houthis (embora outros movimentos pró-sauditas e pró-salafistas qataris ainda continuem ativos); também o Islah foi financiado (mediante alguns indivíduos, pela Arábia Saudita; e com outros - para a ira da Arábia Saudita - pelo Qatar), agora estão os dois grupos divididos (com elementos pró-sauditas e outros pró-qataris), e o Islah está fraco. As tribos sunitas que formam o sul cessacionista permanecem tão resolutamente hostis à Arábia Saudita e ao governo em Sana'a (e, consequentemente, estão bem próximas dos houthis) e estão tão fora do alcance dos sauditas - quanto os ismailitas.

Então, se o governo de Sana'a deve passar para efetivo controle dos houthi (xiitas), o que acontecerá às forças que, até o presente foram chamadas de "al-Qae'da" - e que efetivamente têm o controle do território (vale dizer, uma base territorial substancial)? Essa é a grande preocupação dos sauditas. A Arábia Saudita tem laços com a al-Qae'da do Iêmen, mas absolutamente não com toda a organização (de fato, só tem laços com menos da metade da al-Qaeda).

Será que o ISIS/ISIL aproveitará a chance de cooptar a parte da chamada 'al-Qae'da' no Iêmen, que pode vir a ter interesse em jurar fidelidade ao Califa em Mosul? Nesse caso, o ISIS estará plantado precisamente junto ao baixo-ventre macio do reino saudita. O tempo dirá. Mas talvez a melhor resposta ao ISIS seria os sauditas e seus aliados ocidentais cederem às demandas dos houthis, em vez de continuar a pintá-los como militantes radicais. *****

 

 
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