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Conto de Natal 2016: A Bicicleta Enfeitada do Meu Tio

18.12.2016 | Fonte de informações:

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Conto de Natal 2016: A Bicicleta Enfeitada do Meu Tio Frederico Ladislau
 
Para a Elô do Coração Vermelho
"Poeta feito de sonho
Meio gente, meio ave...
Só tu sabes que esta vida
Vai passando sem levar
Encantos que nunca teve
Que inventaste pra sonhar"
Dinah Nascimento
 
Eu me lembro... eu me lembro... éramos crianças lá em Itararé, estância boêmia ao sul de São Paulo, divisa com o Paraná, minha aldeia-mãe, eu e meus irmãos polacos com etiquetas de terra (éramos seis), quando meu abençoado tio Frederico Ladislau, que mal-e-mal trabalhava como ajudante de pedreiro, porque não conseguia nunca nem aprender a assinar direitinho o seu próprio nome em garranchos que fosse, no fechar de mais um dia árduo de trabalho, tardiscando o sol meio que abóbora selvagem, pintava com a sua alvissareira bicicleta enfeitada, na verdade era uma magrela (como ele às vezes "cerrindo" apelidava) cheia de tranqueiras mesmo...  

Fazíamos uma algazarra. Um forfé, no dizer da Vó.
Que homem feliz era o meu tio Frederico, antes de o penitenciarem a uma morte trágica, por assim dizer. Meu tio, irmão de meu pai, com 30 anos lamentavelmente tinha cabeça de 5, como sabiam todos pelas redondezas; nas conversas rueiras suas falas eram concorridas, pois que eram todas muito bem emplumadas de issos e aquilos, mais, ele mesmo era enfeitado como um pavão vaidoso, mas ainda assim as suas famosas camisas que eram cheias de cores várias, muito floridas, e sua bicicleta famosa (ele a chamava na intimidade de Marquesinha...) que era toda enfeitada de todas as coisas incríveis que podiam caber, até mesmo para o meu pai ela parecia sim, brincando, claro, uma entojada penteadeira de cigana. 

O assento do banco era da cor do Clube Atlético Fronteira (tricolor; preto, vermelho e branco) e a buzina então, minha nossa, sensacional, parecia que - dizer da minha mãe criticando - ser rastreada por umas biscates porqueiras, tal a polvorosa ao se fazer anunciar  indo e vindo pela rua cor-de-rosa da Vila São Vicente, periferia da cidade, fazendo bulha e a piazada atrás, pinchando contentezas por atacado. 

Corríamos para esperar meu tio Frederico Ladislau voltar do serviço de muro de arrimo que compunha na Marcenaria Estrela,  todo trancham, aliás, íamos o mais longe possível de casa para que ele pudesse, solícito, ladeira abaixo além do Bar do Dico, nos dar carona até em casa, depois ele seguiria até o fim da rua 24 de Outubro e lá ia pra casa da viúva vó Judite perto do Chafariz do Bairro velho, onde morava, solteirão, num quarto de tarecos, mais uns gatos vadios e umas beronhas de asas de veludo encardido entre cortinas de picumãs. 

Nós nos sentíamos "chiques" naquela bicicleta toda enfeitada, aquilo era melhor do que parque ou circo, muito mais maravilhoso do que picolé de groselha preta ou mesmo pular carniça. 

Nós íamos pra casa rindo muito, uns na garupa, outros no selim, eu no cangote, alvissareiro, falando muito, entremeados na fuzarca, ouvindo o papo todo prolixo do nosso tio querido, que, mesmo misturando verbos e entoações, dizeres e invencionices ralas, além disso, graciosamente nos trazia diariamente umas balas azedinhas que eram deliciosas. 

Ele era demais de bom. Só por Deus.

E brincávamos muito, e riamos mais ainda, momentos adoráveis naquela pirâmide humana rodando, rodando.... Ele chamava todos os seus sobrinhos de periquitada. Adorávamos cada tranqueira nova que ele comprava para enfeitar sua bicicleta. Éramos felizes e eu sabia muito bem disso. 
Santa felicidade.

Um dia ele punha uma buzina verde movida a pilha-palito, noutro dia colocava com grude uma lanterna azul que pegava energia de um improvisado dínamo que era forçado pelo pneu dianteiro, depois um chocalho (de pescoço de gado) no pneu dianteiro para fazer mais tropel, o cincerro, depois uma bandeirinha do Corinthians a flanar ao sabor do vento serelepe, em seguida um negócio que,  girando, fazia barulho feito cata-vento e assim era a enfeitança dele. 
Uma peça rara.

Quando ele vinha chegando, feito estrelinha de alegrança, todo mundo sabia do tio tido como espeloteado, ruim do juízo. Cachorros latiam, gatos chispavam, passarinhos paravam pra dar carona no olhar doce e meigo dele, era um faniquito por atacado, só vendo pra crer. Janelas e portas se abriam pra ele passar,  enfeitando ruelas e imediações de sua bicicleta sonora, mais o rompante de suas roupas de aparecido que só vendo. O céu por testemunha.
Flores e flores. Ficávamos curiosos, claro: que coisa ele inventou agora, de tranqueira, para colocar na sua magrela?. E a camisa amarela, com desenhos de vermelhos e azuis, mais retalhos de cetim e penduricalhos que ele aprumava de colocar. 

Um amor de pessoa.

Catava coisas nos cafundós do longe (nalgum lugar que não existe?), achava coisas em lugares incríveis, do arco da velha, davam coisas de gozação que ele consertava de carinho e matizes íntimas (ele seria encantado?), de espelhinhos a radinhos de pilhas fanhosos, mas o tio, sabe-se lá porque, dava um trato no seu novo pertencimento, e a bicicleta ia ficando larga, alta e espaçosa pra suas pedaladas até. 

Era o dono da reinação. Marquesinha, periquitada. 
Que cavaleiro de bela figura!.

Um bendito dia choveu pra valer, não pudemos ir recepcioná-lo com a nossa rotineira bagunça cotidiana, mas esperamos que, no retorno ao lar, ele apeasse e nos trouxesse assim mesmo a gostosa cota diária de guloseimas, talvez até pirulito de limão, bala de banana, a Maria-mole de coco queimado, talvez um pito-carito na nossa preocupação pela tardança. 
Foi quando aconteceu. Deusolivre-e-guarde!
Houve um desastre nesse dia, um Ford bigode abalroou nosso tio, ele ficou ali, aos pedaços, dizem. Santo Deus!
Não quisemos nem ver o desboque. Minha Nossa!. 
Foi o dia mais triste das nossas vidas. Itararé parou inteirinha. Ninguém acreditou.
Com certeza anjos pintados de palhaço vieram recebê-lo num beija-mão sem fim. 

Até flores que  não existiam e pássaros extintos vieram adeusá-lo entre curtumes. 
Naquela noite eu sonhei que, como no filme do ET, meu tio foi morar no céu, porque, claro, doce e meio puro, mesmo sem o saber inteirinho, inocente e meigo de tudo que era sim, naquela sua maravilhosa (e talvez - por que não? - algo encantada?) bicicleta teria posto ninho de passarinho do divino espírito santo nos godês internos dos pneus carequinhas da silva (e da cor de horizontes abóboras), asas de curioso anjo visitador na rabeira, pedal secreto de Deus-menino, selim-borboleta de mil fantasias e até, quem sabe, solados de sonhos impossíveis,
mais uma corrente metálica encantada de vento-luz nos pedais, guidão de pelicano feito de açúcar, buzina com som de luz... mais esparadrapos nas nossas sofrências...


Fiquei moço, fiquei triste - tenho a alma triste - nunca mais fui o mesmo, no entanto, quando me bate uma viração de página de lágrimas (a alma tem rosto e olhar?) olho para um céu que já não mais existe - ai de ti Itararé! - e lá em cima, num não-lugar (o paraíso de todas as vertentes?) vejo meu tio pedalando um berço redondo de estrelas binárias, com seu fuzilo de buzina cheia de relâmpagos, seu selim de nuvens tridimensionais e chuvas de canivetes suíços, sua peregrina alma aurora, seu enorme abraço de ventos e seu sorriso-avelã de meia lua feito tabernáculo de saudades.
-0-

Silas Corrêa Leite - Site pessoal: www.artistasdeitarare.blogspot.com/
Estância Boêmia de Itararé-SP
E-mail: poesilas@terra.com.br

Conto do livro CAMPO DE TRIGO COM CORVOS - Editora Design, SC, de Silas Corrêa Leite

 

 
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