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No calor da hora

16.09.2010 | Fonte de informações:

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Milton Lourenço (*)

Apesar da realização de simpósios com o objetivo de discutir saídas para o desenvolvimento da infraestrutura portuária, a verdade é que o processo de modernização do sistema portuário avança a passos paquidérmicos. Questões essenciais como o aperfeiçoamento dos processos de transporte e logística, a ampliação das vias de acesso aos portos, reequilíbrio de uma matriz de transporte, condições operacionais, redução do tempo para a liberação de cargas e a segurança do trabalhador não são discutidas a fundo. E, quando o são, não ultrapassam as paredes dos ambientes refrigerados em que servem apenas para fomentar debates estéreis.

Na realidade, o único plano-diretor que existe para o crescimento dos portos limita-se a ações episódicas que são realizadas à medida que as circunstâncias colocam as autoridades portuárias na parede. É o caso do número recorde de navios que se enfileiram na barra de Santos à espera de ordem para atracar. Já houve dia em que 130 embarcações estiveram fundeadas na barra.

Foi necessário chegar-se a esse ponto para que se “descobrisse” que a razão para tal despropósito é o aumento das operações de açúcar no Porto. Só que, tal como ocorria ao final do século XIX, a maior ou menor movimentação do produto depende unicamente das condições climáticas.

De fato, quem se der ao trabalho de pesquisar a documentação da capitania de São Paulo ao tempo do capitão-general Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça (1797-1802) vai perceber que uma das preocupações do governante era o transporte do açúcar, que vinha em lombo de muares de Itu e São Carlos, em saveiros e lanchas pelo largo do rio Caniú, entre o pé da Serra em Cubatão e Santos. O problema era que, se estivessem revoltas, as águas podiam molhar o açúcar e condenar a carga ao perdimento.

Mais de dois séculos depois, “descobriu-se” que os terminais do Porto não dispõem de cobertura para proteger a movimentação das cargas de açúcar em dias de intempérie. Quando chove, a única saída é paralisar as operações.

Foi necessário que problemas climáticos em outras zonas produtoras, como Tailândia e Índia, provocassem quebra da safra para que o produto brasileiro passasse a ter maior procura. Coincidentemente, o preço dessa commodity sofreu em maio uma queda de 50% em relação a fevereiro, sendo o produto negociado a US$ 0,15 a libra-peso na Bolsa de Nova York, o que estimulou ainda mais o apetite dos importadores. Tudo serviu para deixar em maior evidência as deficiências estruturais do Porto.

Diante disso, a Secretaria Especial dos Portos (SEP) providenciou às pressas um estudo que prevê a construção de coberturas nos terminais do Porto de Santos, hoje responsável por mais de 75% do embarque do açúcar produzido no Brasil. Com a cobertura dos terminais a ser providenciada pela Codesp, a previsão é que o Porto venha a ampliar em 20% a sua capacidade de embarque de açúcar.

Essa opção pelo improviso explica outras questões portuárias, como o crescimento desordenado de áreas destinadas à movimentação de cargas. A sensação que se tem é que não há políticas públicas dirigidas ao setor portuário e que as decisões são sempre tomadas de afogadilho, no calor da hora.

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(*) Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

 
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