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Marielle, Amazônia: apontar, fogo!

15.09.2019 | Fonte de informações:

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Marielle, Amazônia: apontar, fogo!

Luis Fernando Novoa Garzon

13/09/2019

 

Dia com­bi­nado, alvo ras­treado. Não vale pouco o si­len­ci­a­mento de tantas vozes no meio do ca­minho. Não é lim­peza de ter­reno qual­quer. É muita ri­queza con­ver­tida e apro­priada em um único golpe. Fogo! Por que pa­rece tão di­fícil iden­ti­ficar de onde veio a ordem ex­cla­ma­tória?

A em­presa do crime em­pre­sa­rial (ur­bano-rural-ter­ri­to­rial) é em­presa co­li­gada do agro­ne­gócio e das in­dús­trias ex­tra­tivas. Apa­re­lhos pa­ra­em­pre­sa­riais com as­pi­ração de serem em­presa ma­triz. No caso bra­si­leiro, a as­censão das mi­lí­cias no plano da re­pre­sen­tação po­lí­tica (no Le­gis­la­tivo e no Exe­cu­tivo, nos três ní­veis) é in­se­pa­rável do pro­cesso de trans­fe­rência de prer­ro­ga­tivas de pla­ne­ja­mento re­gi­onal e ter­ri­to­rial para os grandes grupos econô­micos pri­vados desde os anos 1990.

Sem re­gu­lação ou fis­ca­li­zação, os ne­gó­cios es­pe­ci­a­li­zados em re­cursos na­tu­rais logo se es­pe­ci­a­lizam em abs­trair os ele­mentos so­ciais neles in­trín­secos. A banda podre in­ter­preta os de­sejos mais se­cretos da banda limpa e os re­a­liza pro­vando sua in­tei­reza: um corpo só. É nas frentes de ex­pansão dos se­tores ne­o­ex­tra­ti­vistas na Amazônia que se con­cen­tram os mas­sa­cres de cam­po­neses e in­dí­genas, que se de­vastam uni­dades de con­ser­vação e ter­ri­tó­rios tra­di­ci­o­nais e onde mais se pra­tica o tra­balho em con­di­ções aná­logas à es­cra­vidão.

Nas pe­ri­fe­rias e fa­velas, re­com­pensa e me­dalha para quem or­ga­nizar os es­to­ques de mão-de-obra pre­ca­ri­zável em úl­timo grau. A ci­dade é palco de uma dupla cons­ci­ência da do­mi­nação ob­je­ti­vada-sub­je­ti­vada, em ou­tros termos, lugar de es­pe­ta­cu­la­ri­zação das hi­e­rar­quias e as­si­me­trias que se es­tendem a partir dela.

A ordem seja con­ce­dida a quem mais en­tenda de car­ni­fi­cina. Dura pouco o au­to­en­gano que pro­cura im­putar ir­ra­ci­o­na­li­dade ou mal­dade atá­vica ao re­corte do nar­co­trá­fico, já ma­lhado e es­tig­ma­ti­zado. Não adi­anta fazer de conta que qual­quer "falha nossa" do Es­tado po­li­cial pode ser trans­fe­rida para os vi­lões do morro ou que os úl­timos mas­sa­cres ocor­ridos nos pre­sí­dios são bons efeitos co­la­te­rais de "guerras de fac­ções", como se hou­vesse al­guma ga­rantia de des­truição mútua. Que tipo de or­de­na­mento pode surgir após uma su­cessão de mas­sa­cres se­le­tivos senão o mais cer­teiro pla­ne­ja­mento dos pró­ximos mas­sa­cres?

Qual pode ser a so­ci­e­dade po­lí­tica que cor­re­ponde a uma so­ci­e­dade econô­mica fun­dada em um mo­delo ne­o­ex­tra­ti­vista que sin­te­tiza im­pu­ne­mente bi­omas e modos de vida neles fun­dados? En­quanto as em­presas-lí­deres do país forem aquelas que con­trolam a dis­po­sição e ma­le­a­bi­li­dade es­pa­cial em função de en­co­mendas exó­genas, as mi­lí­cias - dentro ou fora do Es­tado - serão mo­bi­li­zadas para mo­ni­torar os ex­tensos cor­dões de re­fu­gi­ados desse re­gime de acu­mu­lação in­con­di­ci­o­nada.

Tanto assim que a pis­to­lagem dos ca­pa­tazes que acom­pa­nhou a ex­pansão da fron­teira agrí­cola na Amazônia, a partir dos anos 1970, logo se con­verteu em em­pre­en­di­mento mi­li­ciano. Com o cres­ci­mento do nú­mero de pre­sí­dios na re­gião amazô­nica e com a ins­ta­lação de uma pe­ni­ten­ciária fe­deral de se­gu­rança má­xima em Porto Velho, cresceu in­fluência das fac­ções nos blocos de poder lo­cais e re­gi­o­nais. O re­sul­tado é a in­ten­si­fi­cação dos crimes de mando e há re­latos acerca de listas cir­cu­lando com va­lores para exe­cução de ati­vistas am­bi­en­tais, pro­mo­tores e juízes.

Os mo­vi­mentos e li­de­ranças que ques­ti­onam esse me­ca­nismo do me­ca­nismo, têm sido ca­lados com ame­aças e as­sas­si­natos. Assim como não se chega aos con­tra­tantes dos ati­ra­dores de elite da mi­lícia ca­rioca que exe­cu­taram Ma­ri­elle e An­derson em 2018, nada a in­ter­rogar sobre quem mandou matar Ni­cinha em 2017, li­de­rança pes­ca­dora do MAB, de­pois de fazer graves de­nún­cias contra os con­sór­cios con­tro­la­dores das hi­dre­lé­tricas Santo Antônio e Jirau. Seu corpo foi en­con­trado no re­ser­va­tório de Jirau, amar­rado em um saco com pe­dras, com marcas de tiros na ca­beça.

Quem deu ordem de passar fogo? Quem mandou e que van­ta­gens ob­teve com o crime per­pe­trado? Quem or­questra as exe­cu­ções se­le­tivas se en­tende com quem di­re­ciona o fogo. As quei­madas foram mais in­tensas nas mais re­centes frentes de ex­pansão em que se en­tre­cruzam as fron­teiras agrí­cola, mi­neral e elé­trica. A mar­cação pode ser feita com o ma­pe­a­mento da so­bre­po­sição de ini­ci­a­tivas eco­nonô­micas con­cen­tradas em de­ter­mi­nadas faixas ter­ri­to­riais em que se ins­ta­laram grandes pro­jetos em con­so­nância com o avanço de em­pre­e­di­mentos agro­pe­cuá­rios e mi­ne­rais.

O com­plexo hi­dre­lé­trico do rio Ma­deira alongou o cor­redor de de­vas­tação da BR 364 na porção norte de Rondônia, parte do Acre, além da re­gião fron­tei­riça bo­li­viana e pe­ruana. A UHE Belo Monte emitiu ondas adi­ci­o­nais de de­vas­tação em torno do raio da frente "pi­o­neira" da ro­dovia Trans­mazô­nica, par­tindo de Al­ta­mira e São Felix do Xingu. A pa­vi­men­tação da BR 163 (Cuiabá-San­tarém) sub­meteu a flo­resta e seus povos aos de­ter­mi­nantes da oti­mi­zação desse gra­no­duto ro­do­viário em que se es­tendem mu­ni­cí­pios feitos de soja como Novo Pro­gresso - de onde partiu, não ca­su­al­mente, a con­vo­ca­tória do "dia do fogo". Em Serra Ca­rajás Sul, nos marcos da nova pi­lhagem mi­neral da Vale a ser­viço de ir­re­cu­sá­veis en­co­mendas ex­ternas, o fogo é sinal de sa­queio con­junto, ne­go­ciado e au­to­ri­zado.

E aí, quem vai poder dizer o que podem os in­ves­ti­dores pri­vados e seus agentes ope­ra­ci­o­nais? Frente à marcha for­çada que se in­ten­si­fica sobre os ter­ri­tó­rios, há os que abrem ca­minho e há os que se en­fi­leiram, com seus corpos plenos de me­mó­rias e de so­nhos de corpos plenos. Para uns, Amazônia é uma cáp­sula do pas­sado a ser ab­sor­vida como e quando for con­ve­ni­ente pelos grupos que se tor­naram se­nhores do pre­sente. Para ou­tros, es­tamos di­ante de um gi­gan­tesco re­po­si­tório de al­ter­na­tivas. Para uns, o fogo queima apenas o bioma, para ou­tros, o fogo é a forma de se­pultar e la­crar os trân­sitos e os ca­mi­nhos para formas de viver não ins­tru­men­ta­li­zá­veis.

 

 

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