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Nos limites de Obama

02.12.2009 | Fonte de informações:

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Gilson Caroni Filho

No início de 2009, quando Barack Obama assumiu a Casa Branca, vários analistas afirmavam que estávamos começando um novo período histórico, que marcava o fim do unilateralismo do governo anterior, dando ensejo à efetivação de um sistema global multipolar. Os argumentos eram muito convincentes. O mais poderoso Império de todos os tempos deixava para trás a doutrina Bush, abandonando a roupagem absolutista usada para negar os mais antigos direitos fundamentais do homem: os direitos civis e políticos consagrados pelo Direito Internacional.


Na América Latina, Bolívia, Venezuela, Equador, Chile, Brasil e Uruguai, entre outros, deixaram de ser portos seguros para os desígnios do capital estadunidense, graças ao avanço das forças progressistas na região. Redefinia-se um velho roteiro onde a direção do impulso político no continente parava de ser orientada no sentido de consolidação dos regimes que colaboravam com as grandes corporações, dando lugar a governos que privilegiam os interesses de seus povos, redefinindo prioridades na elaboração de suas políticas externas.


No primeiro discurso após as eleições, Obama resumia o significado simbólico de sua chegada à presidência: "se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta."


Os recentes posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que legitimam o golpe, sob o pretexto de que "a maneira como a eleição será conduzida vai inevitavelmente afetar condições para superar divisões políticas do país", demonstram que juízos históricos sobre inflexões desejadas têm-se baseado em análises conjunturais que subestimam a força dinâmica interna da direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e reestabelecer a agenda hegemônica imperial.


Há uma questão central que não pode ser relegada a segundo plano. Na ausência de qualquer forma de desafio organizado das classes trabalhadoras no interior dos Estados Unidos, a margem de manobra dos segmentos dominantes do imperialismo para recuperar-se de crises econômicas sem pagar nenhum dos custos políticos e sociais que todos os seus competidores têm que enfrentar é uma vantagem comparativa colossal.


Além disso, como nos lembra James Petras, o Império, devido ao seu alcance no exterior, continua numa posição que lhe permite aproveitar os principais benefícios de outros países, “através de seus contatos políticos-militares, mantendo assim, sua vantagem sobre a Europa e Ásia em escala crescente”. É preciso uma leitura muito apressada para falar em crise de hegemonia.


O recuo quanto ao prazo de fechamento da prisão militar na Baía de Guantánamo, a instalação de bases militares na Colômbia, a escalada bélica, com aumento de 10 a 15 mil soldados para ”terminar o trabalho" no Afeganistão, os discursos ambíguos sobre o Iraque, além da falta de propostas concretas para a Conferência do Clima, em Copenhague, não ferem apenas esperanças e ilusões. Soam como um sinal que não pode ser desconsiderado por quem deseja uma nova ordem internacional.


Não serão discursos protocolares, repletos de petições bem- intencionadas, que deterão o que os Estados Unidos julgam ser sua “missão civilizadora". Em uma América Latina que grita e se revolta, a vitória golpista em Honduras se apresenta como uma oportunidade histórica para a esquerda não sectária. Atualizando conceitos e categorias, é hora de elaborar um programa que se apresente como inconfundível estratégia contra-hegemônica.


Obama jamais desconsiderou a correlação de forças internas que limitam as possibilidades de uma reversão da política externa norte-americana. No mesmo discurso inaugural, o presidente foi bem enfático ao afirmar que “estamos preparados para liderar novamente". Interpretar essa afirmação como lapso ou arroubo de um líder inexperiente é perigoso demais para quem não quer que se confirme o velho axioma segundo o qual a América Latina roda e roda sem sair do lugar. É preciso muita atenção ao que dizem “os eleitos do mundo". Uma coisa é certa: o humor, por excessivo mau gosto, deve ser descartado de saída.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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