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Entrevista com Arnaldo Carrilho

31.10.2007
 
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Entrevista com Arnaldo Carrilho

Arnaldo Carrilho, diplomata brasileiro, foi designado como Embaixador Extraordinário junto à Cúpula América do Sul-Países Árabes, que acontece em 2008.

Antes disso, exerceu um dos mais desafiadores serviços a que pode ser designado um diplomata: foi o Representante da diplomacia brasileira junto à Autoridade Palestina. Leia a entrevista que concedeu ao Icarabe, na qual fala, entre outras coisas, da eleição do Hamas, de contatos "ilegais" entre as populações palestinas e israelenses, a questão do Irã e a cobertura da imprensa sobre o conflito na região.

A Arturo Hartmann Icarabe : Os palestinos já passaram por diversas etapas do conflito com os israelenses. A nakba, em 48, depois 67, com a ocupação de seus territórios, depois a década de 90, com Oslo, e todos esses marcos significam etapas importantes do conflito. O que a eleição do Hamas significou dentro dessa trajetória?

Arnaldo Carrilho : O Hamas não é uma criação original palestina, é uma criação da Irmandade Muçulmana, com sede no Cairo (Egito) e financiamento do Catar. Os palestinos muçulmanos estavam esperando muito uma oportunidade histórica que os fizesse chegar ao poder. E chegaram em função da desmoralização máxima dos sucessores de Arafat. Uma coisa que geralmente não se fala da questão palestina é a divisão clânica da sociedade palestina, como ocorre com as sociedades libanesa, síria, jordaniana, que é muito mais grave, e egípcia.

O que houve foi o seguinte: Israel, querendo criar o inimigo do inimigo, mas que seria inimigo futuro, protegeu o Hamas. Hamas quer dizer zelo, mas a palavra zelo no islã quer dizer a obediência à jihad. Por sua vez, jihad não quer dizer guerra santa, como a imprensa ocidental em geral classifica, mas quer dizer a disposição para defender a religião. Quem votou no Hamas em janeiro de 2006 não foram apenas muçulmanos, mas cristãos também, por causa do desespero causado pela humilhação de uma ocupação crescentemente injusta e humilhante.

O Hamas, antes protegido por Israel, foi ao mesmo tempo um vento que deu ao povo palestino chance de manifestar sua posição a um estado de coisas que era realmente catastrófico. Não é possível que o primeiro-ministro (Ahmed Qurei, do Fatah, no posto de 2003 a 2005) da Palestina importasse clandestinamente, com proteção israelense, cimento do Egito para construir o muro.

Então, o que houve com o Hamas é que ele foi um sopro de liberdade. Acontece que os Estados Unidos da América, o senhor George Bush diz: "Não aceitamos a eleição do Hamas porque o Hamas é terrorista". E eu quero dizer o seguinte a você: o Hamas não é terrorista, é resistente. A prova é que Condolezza Rice, visitando Ramallah, chegou ao presidente Mahmoud Abbas e perguntou: "Você pode me dizer qual a diferença entre terrorismo e resistência?".

É muito difícil nessas circunstâncias. Se eu me explodo com uma bomba num mercado israelense e sou chamado de terrorista, o que dizer então de uma incursão, que é como eles chamam, de helicópteros com mísseis onde palestinos traidores, alcagüetes, com um spray incolor indicam ao helicóptero onde mandar o míssel. Onde é que está o terrorismo? Ela pediu para definir o que é resistência, mas não pediu para definir o que é terrorismo porque ela parte do princípio de que terrorismo todo mundo entende o que seja.

Icarabe : O que é o terrorismo no contexto do conflito?

Arnaldo Carrilho : Com a palavra terrorismo, é preciso ter muita atenção. Um dos grandes especialistas do mundo sobre terrorismo é um homem que, inclusive, não é de esquerda. É um judeu alemão chamado Walter Laqueur. Ele diz que é uma palavra derivada da fase do Terror da Revolução Francesa, mas só foi usada pela primeira vez pelos nazistas. Até a ascensão de Hitler e do partido nazista na Alemanha, não se usava "terrorismo".

Quando o arquiduque austríaco foi assassinado em público, em Sarajevo, em 1914, gerando a Primeira guerra mundial, ninguém disse "o terrorista matou o arquiduque". Não se usava a palavra. Hoje em dia a palavra terrorismo se tornou uma palavra bloqueante da aplicação da lei. "Ah, é terrorista, logo não precisa de decisão judicial, a gente mata, a gente prende em Guantánamo". A palavra terrorismo se tornou uma palavra mágica, não passível de julgamento judicial. No momento, há cinco ministros palestinos presos porque acusados de terrorismo. Foram arrancados de suas casas, aos berros, durante a noite, de pijama, com suas mulheres ao lado, com seus filhos em casa chorando porque eram terroristas.

Então, aquelas datas que você menciona muito bem - 47, 48, 49, 56, 67, vamos para as Intifadas, em 87, 2000, 2001, 2002, e agora 2006, que marca a eleição do Hamas, são datas que marcam a impossibilidade de a Palestina ter o mínimo de autonomia. A nakba, a catástrofe, existe até hoje, ela é perene, ela está viva o tempo todo. E essa questão toda da Palestina, com o desastre, a catástrofe, a nakba, representa, e faço questão de frisar, a questão nacional número 1 do mundo e da equação internacional. Então, essas datas são sim importantes nesse sentido que estou dizendo. Se você pegar um automóvel, protegido por guardas fortemente armados, e ir à Gaza, você entenderá porquê.

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