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A provável derrota de Sanders não é uma oportunidade perdida, é a repetição de um padrão

31.03.2020
 
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A provável derrota de Sanders não é uma oportunidade perdida, é a repetição de um padrão

 

No meio da pandemia do Covid 19, vários assuntos foram atirados para um plano secundário. Um deles foram as eleições americanas, presidenciais e não só, que, até ver, estão agendadas para Novembro.

 

Parte deste processo são as eleições primárias, nas quais, uma parte dos eleitores de cada um dos partidos do eterno sistema bipartidário americano, nomeia, através de um processo de eleições em urna e de "caucuses", o candidato que levarão a eleições no ciclo eleitoral seguinte. No caso Republicano é simples, o antes "outsider" Trump é carimbado pela liderança do partido e as primárias são basicamente um passeio. Ainda assim, há os que se coloquem no processo, quem sabe, para se poderem um dia colocar como alternativa em caso de fracasso do projecto político da família Trump.

 

No caso Democrata, o cenário parecia mais interessante. Uma mistura de candidatos ligados ao populismo de esquerda, centristas, liberais e neo liberais e até imagine-se uma candidata que até há bem pouco tempo, era considerada a responsável política mais próxima de uma posição anti imperialista na política mainstream americana, parecia apontar para um processo eleitoral que abrisse caminhos na discussão política na sede do império.

 

O inicio do longo processo das primárias mostrava que o populista Social Democrata Bernard Sanders tinha uma hipótese real de se manter na linha da frente, pelo menos enquanto a linha centrista do DNC se mantivesse dividida entre vários candidatos e de, no mínimo, chegar à Convenção Nacional com uma posição negocial forte.

 

O cenário foi evoluindo e com a consolidação do voto anti Sanders à volta de Joe Biden, a vantagem dos centristas do DNC tornou-se óbvia. Com a excepção da Califórnia e de alguns estados mais pequenos, as vitórias sucessivas de Biden, agora apoiado por quase todos os candidatos desistentes, consolidavam-no até à intensificação da crise do Covid 19, como o provável vencedor.

 

A partir do inicio da intensificação da crise do Covid 19, o processo tornou-se mórbido. O DNC insistiu em manter todas as datas das eleições primárias nos estados ainda não escrutinados e, não oficialmente, mas pela boca dos seus porta vozes colocaram à candidatura Sanders duas hipóteses: desistir, para assim impedir que as votações sejam feitas a meio de uma pandemia, ou manter-se na corrida e ficar responsável por quaisquer consequências que daí resultassem. Numa altura em que acusações crediveis de assédio sexual assombram a candidatura de Biden, esta parece uma estratégia suicida, mas antes perder do que alguma vez dar lugar a um questionamento da politica neo liberal actual.

 

 

Em qualquer país do mundo, colocar um candidato da oposição nesta situação colocaria esse mesmo país nos relatórios do Departamento de Estado. Excepcionalismo Americano no seu melhor, desta vez com uma pitada de necropolitica. Agora, estado a estado e caso a caso, estão a ser revistas as datas, com a discussão centrada no estado de Nova Iorque, actual ponto focal do contágio.

 

De uma maneira ou de outra, o bipartidarismo americano impõe mais uma vez a manutenção do status quo imperialista e neo liberal, se for preciso aplicar necropolitica, assim será. Assim se repete um padrão que mantém toda a tentativa de política eleitoral de esquerda na sede imperial, prisioneira de si mesma. Apostar num terceiro partido é uma tarefa que ninguém quer arriscar, apostar na consolidação de uma ala populista na esquerda do Partido Democrático é uma sistemática e repetitiva lição sobre os limites da política eleitoral. Uma politica que mesmo que um dia fosse vitoriosa, estaria ainda assim sujeita a um social chauvinismo imperialista, já subjacente à política externa apontada nos escritos e entrevistas de Sanders e dos seus apoiantes.

 

Resta à esquerda americana o duro caminho da acção directa e da agitação e propaganda, na tradição dos Black Panthers ou dos sindicalistas que fizeram do Primeiro de Maio a data que é hoje. Mas será assim tão diferente no resto do mundo Ocidental?

Saúl Pereira

 


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