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Mono Jojoy: Fim da guerra só vira com o diálogo

30.10.2010
 
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Mono Jojoy: Fim da guerra só vira com o diálogo

O povo é invencível e as causas pelas quais surgimos ainda estão vigentes...Por isso, nem os imperialistas nem a oligarquia colombiana podem nos derrotar, disse Briceño no mês de agosto passado.
Fonte: JORNADA DO MÉXICO / Jorge Enrique Botero

O povo é invencível e as causas pelas quais surgimos ainda estão vigentes...Por isso, nem os imperialistas nem a oligarquia colombiana podem nos derrotar, disse Briceño no mês de agosto passado.

Serrania de La Macarena, Colômbia. Caminho pelas trilhas da serra de La Macarena com um pelotão de 11 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), penetrando nas entranhas da última cadeia de montanhas da topografia colombiana antes que a paisagem se transforme numa planície tão verde como infinita, capaz de chegar até a Venezuela e o Brasil, milhares de quilômetros para o leste.
Já se passaram quase três anos desde que enviei ao Mono Jojoy um pedido para entrevistar a Tanja Nijmeijer, uma jovem holandesa que entrou para as fileiras das FARC no final de 2002, e há poucos dias recebi uma resposta positiva. Imediatamente preparei meu equipamento de gravação, umas roupas e parti.
Agora que sigo as pegadas de Tanja e me aproximo lenta e penosamente ao lugar remoto onde a imagino, cresce a minha curiosidade por essa mulher, convertida numa verdadeira lenda dessas florestas desconhecidas, onde ocorre, desde os meiados do século passado, a guerra mais longa Hemisfério Ocidental.


Há apenas um par de semanas, vi em Bogotá um documentário em que a mãe de Tanja pede às FARC para que permitem que sua filha volte para casa. O audiovisual, dirigida pelo cineasta holandês Leo de Boer, mostra uma mãe perturbada sobrevoando a selva amazônica em um helicóptero do exército colombiano, gritando através de um altofalante para que sua filha fuja. Hannie, a mãe de Tanja, também aparece no documentário pedindo perdão a um grupo de vítimas da guerra pelas eventuais ações violentas que a sua filha possa ter cometido.


Enquanto subimaos e desciamos montanhas em silêncio absoluto, com o eco dos morteiros repercutindo nas encostar rochosas da serra, me invadiram as lembranças do dia em que conheci a holandesa, em Junho de 2003, poucos meses depois do seu ingresso nas fileiras insurgentes. A idéia de uma Tanja virtualmente sequestrada pelas FARC, não se enquadrava em nada na entusiasmada guerrilheira que apareceu na minha frente. Naquela época já tinha adotado o nome de Alexandra e carregava um fuzil AK-47, que parecia feito à sua medida. Esgotantes jornadas de treinos, por várias semanas, tinham esculpido um corpo que era invejado por outras guerrilheiras e seus primeiros amores na montanha já começavam a surgir por entre a folhagem. Também começava a aparecer o seu lado de educadora, pelo que o Mono Jojoy já a percebera.


Alguns meses mais tarde voltei a vê-la. Já estava nos acampamentos do comandante do Bloco Oriental, dando aulas de Inglês para um seleto grupo de guerrilheiros.


“We are FARC, we are the people army”, fazia com que seus alunos repetissem uma e outra vez na muito bem arrumada sala de aulas onde a encontrei de novo.


Os dias e as noites passam, até que Efrém, o comandante da Frente 27 das FARC e chefe do acampamento onde eu esperava, me anunciou, em 19 de agosto, que devia me preparar, porque dentro de algumas horas a veria. “O Camarada Jorge (Briceño) envia saudações, que talvez lhe conceda uma entrevista”, disse Efrém.


Em 20 de agosto, empreendi um curta marcha ao final da qual descubri a Alexandra mimetizada na folhagem, misturada com mais de 300 guerrilheiros que se preparam para um solene desfile militar na graduação de 57 jovens guerrilheiros que recentemente ingressaram nas fileiras das FARC e, de passagem, farão uma homenagem a Jacobo Arenas, um dos fundadores desta enigmática e beligerante força insurgente colombiana.
A câmera já está ligada e enamorada de Tanja quando, de repente, de um denso túnel de árvores, caminhando lentamente e visivelmente afetado pelo diabetes e pelo passar dos anos, faz a sua entrada em cena Jorge Briceño, o comandante do Bloco Oriental das FARC, mais conhecido como Mono Jojoy.


Vem escolatado pela sua guarda pessoal e um pequeno exército de enfermeiras, seu filho, Chepe, seu companheira Shirley, sua sobrinha Diana e o homem responsável pela gravação de seus passos, Julian, que é sobrinho do mais temido guerreiro das FARC e o troféu mais cobiçado do governo de Bogotá.


Após o fim do desfile, dos hinos e discursos, fui comprimentar o comandante guerrilheiro. "Quero parabenizá-lo pela coragem de vir até aqui. A partir de amanhã poderá entrevistar a Alexandra ", me disse, ao mesmo tempo que faz graça dos estragos que a vida e o cáncer fizeram sobre mim.


Agradeço ao Mono Jojoy por ter me permitido chegar até os seus dominios para contar a história de Tanja, mas o adverto que não pretendo sair dai sem gravar uma entrevista com ele.


Argumentei que ele não dava uma entrevista a ninguem há mais de sete anos.
O líder guerrilheiro faz um silêncio que parece eterno antes de responder.


"Eu vou pensar sobre isso, mas enquanto isso dedique-se a ‘Holanda’, respondeu ele.
Em 25 de agosto, 27 dias antes de que uma tempestade de bombas acabe com sua vida, tenho diante da minha câmera o próprio Mono Jojoy. Esta é a sua última entrevista a um meio de comunicação.

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