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Carta aberta: A saturação do Dólar

30.09.2007
 
Pages: 123
Carta aberta: A saturação do Dólar

Brasília (DF), 24 de setembro de 2007

Exmo. Sr. Senador Aloísio Mercadante,

Fustel de Coulanges em sua magistral obra “A Cidade Antiga” (1830/1889) registra que, já nos primórdios de nossa civilização, os clientes – palavra que na época significava criados, subordinados ou escravos – mantinham o desejo velado e quase secreto de continuarem em sua condição de pertencimento a alguém, ou seja, de subjugados.

Seus patrícios – palavra também com sentido diverso do de hoje, que significava patrão, dono ou senhor – por sua vez, em troca da mão-de-obra, lhes garantiam alimentação, segurança e até mesmo assistência jurídica se necessário. Em tempos difíceis, terem um dono já era alguma coisa.

John Perkins, em sua imperdível obra “Confissões de um Assassino Econômico” (2004), explicita a crueldade dos métodos americanos para escravizar economicamente a maioria dos países do mundo.

Demonstra também o autor que mesmo na era da informação instantânea, no aspecto político/econômico, em nada evoluímos desde Coulanges. Pelo contrário, regredimos muito.

Tal involução se aflora na medida em que “aceitamos” e mesmo “queremos” essa escravidão bem nos moldes descritos em antanho.

O impossível acontece

Existem coisas, muitas coisas, que são inexplicáveis.

Quando o presidente Lula diz que não viu, não ouviu e não sabe, temos que compreendê-lo. São falhas diárias e traiçoeiras que acometem a todos nós, sem exceção. Senão, vejamos.

Senador, como explicar ao cidadão comum que o mundo já se saturou de dólares? Como informa-lo que desde 1944 existe um fluxo de dólares saindo dos Estados Unidos, e que, em contrapartida, um fluxo de igual valor em bens e serviços entrando naquele país? E se falarmos da senhoriagem – uma cédula de US$ 100.00 custa ao erário americano mais ou menos sete centavos – e que o Dr. Henrique Meireles compra o equivalente a US$ 1,5 bilhões ao dia, pagando o valor de face?

Alguém ainda se lembra do Bancor [1] ? Sabem de que se trata? Como é possível o desaparecimento de algo que seria quase perfeito?

Todos os dados todas as pessoas conhecem. O que é inexplicável é a incompreensão do todo e o porquê da aceitação do que nos é empurrado goela abaixo. Como é possível servir a dois senhores? Ou a moeda é americana ou é mundial. Observe que o euro é emitido por cada país que dele faz uso. Assim, todos os usuários de dólares, obrigatoriamente, teriam que ter o direito de emiti-lo.

Consideremos que:

- todos os dólares americanos são emitidos, (perdão, emissão monetária é outra coisa), são impressos pelos Estados Unidos;

- 80% dos dólares existentes no mundo estão fora daquele país;

- que o mundo já se saturou de dólares;

- que tal montante de dólares é dívida americana;

- que jamais existiu e que jamais existirá o propósito de saldar tal dívida por parte dos americanos; e

- que economias “inexpressivas”, tais como Rússia, OPEP, Índia e China, dentre outras, estão diversificando seu tesouro (leia-se “desovando” dólares).

Estes são dados (ou fatos) que por si só condenam o dólar ao seu melancólico fim.

Mas, quem vê isso? Catalepsia geral e irrestrita.

São coisas inexplicáveis.

O presidente Lula declarou recentemente: “... A crise americana não nos causa preocupação, uma vez que o Brasil tem uma reserva de US$ 160 bilhões...”. (hoje já excedendo a US$ 170 bi). Sr. Senador, alguém teria que informar à Sua Excelência que dólares não são nada mais nada menos do que títulos da dívida americana. Se a crise é americana também o é do dólar.

Senador, observando as considerações acima, não é difícil concluir que a economia americana é muito mais vulnerável do que um castelo de cartas. Entretanto, infelizmente, seus colegas economistas, depois de seis anos de estudos, conseguem abstrair o fator “emissão monetária”.

Mais um fenômeno curioso

Nenhum economista ou jornalista especializado em economia fala sobre o excesso de dólares no mundo. Não há mal nisso, pode ser mera ignorância. O inacreditável é como os especialistas (não) explicam como esses dólares vieram parar fora de seu país: dão em árvore, abiogênese (geração espontânea), ou ainda saíram de minas? É impressionante como todos desviam da palavra “emissão”, “impressão” (que seria o mais correto) e, principalmente, “troca”. Abstraem os valores que entram naquele país em troca de papéis pintados. Transparece que seja natural a troca de bens e serviços por inúteis notas.

Seria a síndrome do presidente (não vê e não sabe) em surto endêmico à classe jornalística?

Ginástica

É muito interessante ouvir os especialistas econômicos da imprensa, cujas explicações são contorcionismos para explicar a queda constante e inexorável do dólar. Ali tudo é válido: desde a gripe que atacou a sogra do sobrinho do genro do tio da empregada do motorista da sobrinha do sogro do secretário do tesouro americano, até a menstruação da lesma fétida do lago Chad da África; excesso de dólares no mundo, nem imaginam mencionar. Senador, ouça os noticiários, atente para o detalhe e se divertirá muito. Poucos comediantes são tão engraçados (não fossem tão trágicos, sem o saber, evidentemente).

Estamos praticando o crime de lesa-pátria comprando aquela divisa.

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