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"Inteligência Falha Causa Vítimas Civis": Peter Tatchell sobre Programa de 'Drones' dos EUA

30.07.2017
 

"Inteligência Falha Causa Vítimas Civis": Peter Tatchell sobre Programa de 'Drones' dos EUA

Desde que chegou à Casa Branca, o presidente Donald Trump tem aumentado dramaticamente a guerra secreta de drones, matando civis mais que nunca no Iraque, Paquistão, Iêmen, Afeganistão, na Somália, Síria, Líbia. Em junho, quando completou cinco meses na Casa Branca,Trump apresentou média de ataques a cada 1,8 dia, muito superior a de seus antecessores Barack Obama e George Bush.

De acordo com Bureau of Investigative Journalism (BIJ), cujos números são altamente conservadores porém os mais confiáveis, 1600 ataques com drones dos EUA foram registrados no Afeganistão de janeiro a junho deste ano matando 366-575 pessoas, pelo menos 18 civis. 

"Mais ataques dos EUA atingiram o Afeganistão nos primeiros seis meses do ano, que em 2015 e 2016 somados", informou o BIJ no início de julho.

No Iêmen, em um total de pelo menos 90 ataques foram mortas de 81 a 120 pessoas, dentre as quais entre 33 a 40 eram civis incluindo nove crianças, de janeiro a junho de 2017. De 2001 a 2016, foram confirmados 254-276 ataques com drones no país, que mataram 890-1228 pessoas, das quais ao menos 166-210 eram civis.

Em 16 de março deste ano, no povoado de al-Jina na Síria houve mais um ataque emblemático dos "pássaros assassinos" de Tio Sam pela agressividade seguida de cinismo, quando ao menos 38 civis foram mortos em uma mesquita, entre eles ao menos cinco crianças vítimas de dois bombardeios seguidos por drone - a chamada "torneira dupla", cujo veículo disparou pela segunda vez quando sobreviventes tentavam sair dos escombros. 

O Pentágono, que jamais fizera investigação pessoal na região do ataque para reconhecimento limitando-se às vigilâncias remotamente controladas, negou que uma mesquita foi alvo de bombardeio contrariando relatos, fotos e vídeos autenticados por organismos sírios independentes, e pela Human Rights Watch.

Proeminente ativista pelos direitos humanos e jornalista britânico avalia, na seguinte conversa com Pravda, como o programa de drones norte-americano poderia ser utilizado em prol da humanidade, e seu estágio atual: além de ferramenta devastadora, subverte a democracia dentro dos próprios EUA como massa de manobra. 

Tatchell comenta também a aliança britânica com Washington: "O que os Estados Unidos querem, obtêm". 

Tatchell é fundador da Tatchell Foundation, e comenta para The Jeremy Vine Show da Rádio BBC 2 de Londres.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Edu Montesanti: Quando o governo Obama discutiu publicamente os ataques com drones, ofereceu garantias de que tais operações seriam uma alternativa mais precisa às tropas terrestres, e que seriam autorizadas somente quando uma ameaça "iminente "estivesse em questão com existência de "quase certeza"de que o alvo pretendido seria eliminado. Peter, qual sua visão dessa "política" em si, de substituir as tropas terrestres por drones - no caso da administração de Obama, utilizando-os muito mais do que seu antecessor, o governo Bush? E o quanto são precisos os drones?

Peter Tatchell: Os drones servem ao mesmo propósito das tropas terrestres: são, nada mais, que uma maneira diferente de alcançar o mesmo objetivo militar.

A estratégia de drone das Forças Armadas dos Estados Unidos visa aprimorar a precisão do alvo e aumentar a eliminação dos combatentes inimigos, ao mesmo tempo que reduz as mortes militares civis e dos Estados Unidos. 

Mas a realidade é que a inteligência falha levou a baixas civis, incluindo a matança em banquetes de casamento e outros.


Como os drones poderiam ser utilizados em benefício da humanidade?

Os drones podem ser usados para fins benignos como para o monitoramento de incêndios e de enchentes, oferecendo ajuda a vítimas de terremotos em locais remotos, e para encontrar marinheiros perdidos no mar. 

A utilização de drones nos Estados Unidos para fins militares é supostamente limitado, e dentro dos limites das leis internacionais de guerra. No entanto, civis estão sendo mortos. 

Em alguns casos, parece que essas mortes podem ter sido o resultado do uso imprudente de fontes de inteligência pouco confiáveis, ou de uma focagem indiscriminada de ampla proteção. Esses casos podem representar crimes de guerra.


Como você enxerga a cumplicidade britânica em relação a Washington, também na utilização de drones?

A cumplicidade do Reino Unido com os ataques e com a vigilância por drones dos Estados Unidos é muito aberta. Londres parece não questionar nem avaliar as consequências. 

A "relação especial" da Grã-Bretanha com Washington geralmente envolve proporcionar ao Pentágono liberdade total. O que os Estados Unidos querem, os Estados Unidos obtêm.


Quais os interesses por trás do programa norte-americano de drones?

O problema, em grande parte, não são os drones em si, mas a estratégia militar e as decisões que norteiam seu uso. É a política militar e de alvos que precisa mudar. 

Às vezes, os drones são usados como meio de contornar a oposição do Congresso e do público ao envio de tropas. Desta maneira, tornam-se ferramentas para a subversão do processo democrático.

 


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