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A 55 anos de Marquetalia

30.05.2019
 
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A 55 anos de Marquetalia

Comemoramos hoje os 55 anos das FARC, em Marquetalia, ao sul do Tolima. Na história da Colômbia e na memória das lutas de resistência dos povos permanecerá para sempre o exemplo heroico dos 48 campesinos dirigidos por Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas, que se atreveram a responder com as armas a ofensiva do Estado colombiano, reforçada com planejamento e apoio do governo dos Estados Unidos.

Não se tratava de bandidos mas sim de colombianos e colombianas que haviam conseguido sobreviver à perseguição explodida após o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán em 1948. Pessoas sadias, de trabalho, que a única coisa com que sonhavam era poder viver e produzir alimentos para o mercado. Que pediam ao Estado colombiano escolas, postos de saúde, créditos, assessoria técnica, rodovias e obras de infraestrutura para suas regiões. Que clamavam por evitar uma guerra.

Porque haviam-na sofrido durante mais de uma década e sabiam o alto custo em vidas e sofrimentos que a confrontação acarretava. Por isso haviam enviado cartas ao Congresso da República, ao Presidente, à Igreja, à comunidade internacional, nas quais propunham conversar sobre as necessidades que padeciam e as soluções que o Estado podia implementar. Muitas causas convergiam naquela época para fazer ouvidos moucos a seu chamados.

Os Estados Unidos, inseridos na lógica da guerra fria e obcecados pela Doutrina de Segurança Nacional, estavam há anos apregoando uma cruzada anticomunista em toda a América. Qualificavam de simples avançada soviética a revolução cubana e planejavam e desenvolviam uma política contra insurgente em todos os países ao sul do rio Bravo. A seu ver, todo movimento de inconformidade ou rebeldia no continente significava o inimigo interno a exterminar.

Em nosso país se reproduzia a mesma lógica em seus setores dominantes. O batalhão Colômbia, formado na guerra da Coréia, servia como instrumento implacável de contra insurgência, a serviço da classe política liberal conservadora que havia constituído a Frente Nacional, um pacto de exclusão que fechava as portas da democracia a todos os que não pertencessem a suas hostes. Essa classe se inspirava politicamente na ditadura franquista da Espanha.

Viriam com as décadas os processos frustrados de paz. Primeiro com Belisario Betancur, de onde surgiram os Acordos de La Uribe, encarregados de abrir uma janela de esperança pela abertura democrática pactuada. A União Patriótica, o movimento que representou os anseios de paz dos setores marginalizados e perseguidos, terminou afogado no sangue de seus dirigentes e militantes assassinados. Vieram então as conversações com o governo de César Gaviria Trujillo.

Que não prosperaram porque punham em questão a nova lógica neoliberal praticada desde o poder. A guerra integral decretada pelo Presidente se viu agigantada pela estratégia paramilitar que assolou os campos do país. Massacres a granel e crimes de lesa-humanidade encheram de terror os anos 90, que viram crescer simultaneamente a resistência armada do povo e as mobilizações campesinas, obrigando Andrés Pastrana a aceitar os diálogos de paz no Caguán.

Momento em que os Estados Unidos decidiram intervir a fundo no conflito colombiano. As conversações de paz não podiam prosperar quando primou o Plano Colômbia, a maior arremetida militar planejada desde a América do Norte para o nosso país. A política de segurança democrática de Uribe não foi outra coisa que o império generalizado da repressão, da perseguição e da guerra total contra um país que almejava paz, democracia e justiça social.

Asfixiada a possibilidade de um triunfo militar após uma década de horrores, começaram as conversações de paz em Havana, que haveriam de culminar cinco anos depois com o Acordo Final para a Terminação do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura. Diversos fatores de profunda importância contribuíram para fazer possível a firma do fim da confrontação. Uma Colômbia saturada da guerra e suas angústias impôs a possibilidade de paz.

Os Acordos de Havana contêm uma potência transformadora inédita no país. A reforma rural integral, a fórmula da participação política democrática, a solução aos problemas das drogas, o sistema integral de verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição para satisfazer os direitos de todas as vítimas. O fim do conflito envolve o respeito à vida e as garantias mais amplas para os movimentos sociais e populares alternativos.

Um Acordo que não é para as FARC mas sim para todos os compatriotas que sonham com um país melhor. Um Acordo caluniado e vilipendiado por setores ultramontanos obcecados em despedaçá-lo. O grande debate em torno aos Acordos na Colômbia de hoje é se os implementamos para pôr fim para sempre à arbitrariedade, o crime e a injustiça, ou os afundamos para reviver a guerra, o despojo, o totalitarismo e o horror.

Somos conscientes das dificuldades pelas quais a implementação do acordado atravessa. Identificamos com clareza os interesses e os personagens que se opõem a eles. Lutamos por somar vontades em defesa da paz. Rechaçamos qualquer incitação à guerra, a reiniciar o fogo que conseguimos deter após mais de meio século de sangue colombiano. Batalhamos por um grande movimento nacional que garanta seu cumprimento total por parte do Estado.

Reiteramos uma vez mais nossa promessa de cumprir sagradamente cada um dos compromissos pactuados. Exortamos a Colômbia a lutar por sua defesa e implementação completa. Rechaçamos plenamente qualquer manifestação tendente a desconhecer o marco histórico que o Acordo Final representa, a impedir o desdobramento da capacidade de mobilização social que este entranha, a desmobilizar e semear confusão entre nossa militância e o povo colombiano.

O mundo de hoje não é o mesmo de 55 anos atrás. As lógicas imperantes então cederam ante a passagem do tempo e das lutas dos povos. A desmedida ambição de grandes poderes mundiais conduziu países inteiros ao caos e à desolação. Essa não pode ser a sorte da Colômbia. Os Acordos de Havana são a chave para garantir que isso nunca suceda. Seguimos abrindo o longo caminho para a liberdade, a democracia e a justiça.

 

CONSELHO POLÍTICO NACIONAL

FORÇA ALTERNATIVA REVOLUCIONÁRIA DO COMUM-FARC

27 de maio de 2019

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

 


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