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Indulgência papal para o terrorismo de Washington

29.09.2015
 
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O papa Francisco dos Católicos Romanos foi saudado por sua coragem diante do Congresso dos EUA, por ter tocado em várias questões caras às 'esquerdinhas' light. O pontífice merece, afinal, algum crédito, sim, por ter falado de justiça social, redução da pobreza e da falta de moradias, alertado contra impactos ambientais deletérios e pregado políticas mais humanas de imigração. Mas há uma omissão gritante no discurso do papa ao Congresso: nenhuma palavra do papa aos políticos norte-americanos e, tampouco, nenhuma palavra na audiência privada que tivera, antes, com o presidente Obama. 

Alguém ouviu do papa Francisco qualquer condenação explícita e clara às guerras sem fim promovidas por Washington em todo mundo e ao patrocínio que os EUA dão ao terrorismo global?

O Bispo de Roma não disse uma palavra, que fosse contra o serviço de fazer guerras e gerar conflitos em todo o mundo, ao qual os EUA dedicam-se. Silenciar aí é consentir, talvez seja até tornar-se cúmplice. E quando um dos mais destacados líderes religiosos do mundo cala-se e se omite, é como se tivesse absolvido os doentios pervertidos fazedores de guerras.

Washington é, de longe, a mais aplicada máquina geradora promotora de guerras em todo o planeta - guerras, golpes, subversão, falsas insurgências provocadas e operações de contrainsurgência também clandestinas praticamente todos os anos, há 70 anos, desde o fim a 2ª Guerra Mundial, como documentadas pelo historiador norte-americano William Blum.

Fato é que o papa Francisco - nascido na Argentina, filho de um continente atormentado incessantemente pela violência patrocinada por Washington - não cuidou de dizer a verdade ao poder, no seu discurso no Capitólio. Se Francisco tivesse criticado os deputados e senadores e governantes norte-americanos pela incansável, obcecada dedicação deles a promover guerras e mais guerras, não teria sido aplaudido de pé, mas teria realmente servido, como papa, aos homens, mulheres, crianças, seres humanos os mais desgraçados do mundo, vítimas de todas as guerras que os EUA promovem - e teria, apenas, dito a verdade, num palanque crucialmente importante.

Aparentemente, o papa Francisco optou pela discrição - para alguns, a melhor parte da coragem. Espíritos menos caridosos diriam que faltou, precisamente, coragem, ao chefe da igreja católica, para falar pelos milhões de vítimas das guerras patrocinadas pelos EUA. Francisco disse à Câmara de Deputados nos EUA: "Nosso mundo é cada vez mais um lugar de conflito violento, de ódio, de atrocidades brutais, cometidas até em nome de Deus e da religião." [Cá entre nós, sejamos bem claros: faltou um milímetro, aí, para o papa dizer que doidos, mesmo, são "daqueles xiitas amaldiçoados" (pano rápido) (NTs)].

Mas não basta meramente descrever "um lugar de conflito violento". Por que não especificar as causas desse conflito, a "mudança de regime" - que já seria golpe que chegue; ou ataques armados para roubar recursos naturais de outros países? E por que não dizer realmente o nome do autor de praticamente todos os crimes, o estado que provoca, motiva e paga para alimentar a violência máxima? 

Não é absolutamente o caso de não acusar, por não haver provas: há montanhas de provas de absolutamente todos os crimes que os EUA cometem pelo mundo.

É precisamente nesse ponto que o líder espiritual do Irã - Aiatolá Seyyed Ali Khamenei - mostra muito mais fervor e empenho a favor das vítimas das guerras dos EUA, que o papa dos católicos. 

Recentemente, dirigindo-se aos muçulmanos que fazem a peregrinação anual do Hajj, o Aiatolá Khamenei condenou os EUA como "a principal fonte de guerra, derramamento de sangue e devastação no mundo".

Não é matéria subjetiva, de haver diferenças de "perspectivas políticas" entre um e outro. Trata-se aí de uma realidade objetiva fatual. O governo dos EUA é a fonte primária de guerra e violência no mundo há várias décadas, como o comprova sobejamente o trabalho de William Blum, já referido.

No momento em que o papa fala, os EUA estão patrocinando ativamente uma guerra clandestina na Síria, arrastando com eles uma coorte de aliados e regimes clientes. Dada a primazia de Washington, como a entidade política mais poderosa, evidentemente cabe-lhe também a maior parte da responsabilidade pela devastação na Síria. Mais de 12 milhões de pessoas perderam a casa e foram convertidos em sem-tetos, nos quatro anos de guerra na Síria, que já resultou em 250 mil mortos.

Só na semana passada, mais de 230 civis foram massacrados no Iêmen pela coalizão de exércitos comandados e armados por Washington. Os jatos e as bombas lançadas contra o Iêmen por pilotos sauditas e de outros países árabes são fornecidos e coordenados por militares norte-americanos. 

Washington também garante cobertura política e diplomática - e total silêncio 'jornalístico' e 'televisivo' em todo o planeta - para tudo que tenha a ver com o massacre que já dura seis meses, contra o povo do Iêmen. 

Que ninguém se engane: aquela é mais uma guerra criminosa patrocinada pelos EUA contra o povo do Iêmen. Famílias inteiras estão sendo massacradas em áreas residenciais, deliberadamente definidas como alvos para os pilotos norte-americanos ou para outros atacantes coordenados pelos norte-americanos. Hospitais, comboios humanitários, escolas, mercados, instalações de tratamento de água e de produção de energia, todos foram bombardeados, o que pôs 80% dos 24 milhões de habitantes do Iêmen em situação aguda de calamidade humanitária.

Apenas três dias antes do discurso do papa Francisco no Congresso dos EUA, 30 civis foram noticiados como mortos em ataques aéreos da coalizão comandada pelos EUA nas províncias de Hajjah e Ibb.

No discurso no Congresso, o papa condenou muito superficialmente e parcialmente o comércio internacional de armas. Ora! Ninguém em lugar algum do mundo subirá jamais a um palanque para elogiar o comércio internacional de armas. De denúncias vagas e imprecisas, alimenta-se, isso sim, a impunidade dos criminosos. E nenhuma referência, que fosse, ao complexo industrial militar dos EUA - como teria de haver, para dar consistência fatual à tal 'crítica'.

Eis o que o papa disse: "Estar a serviço do diálogo e da paz também significa estar verdadeiramente determinado a minimizar e, no longo prazo, a pôr fim aos muitos conflitos armados em todo o nosso mundo. Aqui temos de nos perguntar a nós mesmos: Por que armas mortais são vendidas aos que planejam infligir sofrimentos indizíveis a indivíduos e a sociedades? [Cá entre nós: Nesse ponto, quase se pode ouvir o guincho das sinistras Samantha Powers e Victoria Nuland: "Ora bolas?! E quem vai-nos impedir de vender armas? Fuck the pope!" (pano rápido)] Infelizmente, a resposta, como todos sabemos é simplesmente "por dinheiro", dinheiro encharcado em sangue, quase sempre sangue inocente. Ante esse silêncio vergonhoso e culpado, é nosso dever confrontar o problema e pôr fim ao comércio de armas".

O argumento do papa Francisco seria mais claro, mais firme e mais próximo da verdade, se tivesse dito que o maior vendedor de armas para ditaduras na Arábia Saudita e monarquias do Golfo Persa são os EUA. Sem as armas vendidas e compradas nesse comércio conhecido, não haveria muitos dos crimes odiosos que estavam sendo cometidos no Iêmen, enquanto o papa discursava no Congresso. 

Não há dúvidas de que Francisco teria de ter condenado com muito mais firmeza os criminosos conhecidos - o governo dos EUA - pelos crimes que cometeram e continuam a cometer. Hoje, a tragédia do Iêmen oferece todos os fatos irrefutáveis e mais horrendos, que comprovariam a condenação.

O papa desperdiçou oportunidade crucial para confrontar o poder corrupto. Foi superficial e vácuo, e sua vacuidade só ajuda a encobrir as mãos sujas de sangue dos criminosos conhecidos.

Depois do discurso do papa no Capitólio, o New York Times escreveu: "O papa Francisco, líder espiritual de 1,2 bilhões de católicos, desafiou o Congresso e, por extensão, desafiou a maior poderosa nação do mundo, na 3ª-feira, para fazê-los romper o círculo de paralisia em que estão presos e induzi-los a usar o próprio poder para curar 'a feridas abertas' de um planeta destroçado pelo ódio, pela ganância, pela miséria e pela poluição." 

Pronto! É o que faltava! Quer dizer que, conforme o principal veículo da mídia-empresa norte-americana, o papa pediu que Washington "cure o mundo"?!

Aí está! Feitas as contas e retraduzido o discurso pelo NYT, a fala imprecisa e vazia do papa só ajudou a reforçar o arrogante, doentio "excepcionalismo" norte-americano, cada vez mais afundado no delírio de que os EUA seriam força a serviço do bem e da 'cura' do mundo, não a fonte rampante de violência e desgraça que são, contra todo o mundo.

É verdade que o papa Francisco pode ser como uma lufada de ar puro, comparado a muitos de seus predecessores, no humilde acolhimento que oferece aos mais pobres e socialmente marginalizados. 

Mas não consegue ainda se livrar da marca de subserviência ante o estado criminoso que é o mais conhecido e maior patrocinador de guerras e terrorismo em todo o mundo. Que Deus abençoe os EUA, mesmo. Eles precisam.*****

27/9/2015, Finian Cunningham, Strategic Culture Foundation

 


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