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Pensando com Hegel e Marx: A gota que rola e o homem que caminha

29.04.2014
 
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Neste breve texto introdutório são discutidas quatro questões que evidenciam algumas das distinções entre o mundo natural e o mundo cultural próprio dos homens: liberdade, existência no tempo, acumulação de conhecimentos e juízos de valor. Como se nota, tais questões foram largamente acalentadas tanto por Hegel como por Marx.

Iraci del Nero da Costa *

A gota d'água depositada sobre uma superfície percorrerá, sempre e necessariamente, o caminho de menor resistência.

O homem que se põe em pé terá de, obrigatoriamente, decidir qual o caminho a seguir. Poderá parecer-lhe ser o escolhido, o de menor resistência; mas, o que significa, para o caso do homem, "caminho de menor resistência"? O menos árduo? Mas, se nosso protagonista se lançar o desafio de enfrentar o mais difícil deles? E se, dados alguns passos, ele se perguntar se aquele é, efetivamente, o caminho mais difícil? E se lhe assomar a dúvida: por que tenho eu de seguir o caminho mais difícil? Será esta a melhor maneira de testar-me, ou devo, contrariando minha impulsividade, mudar de rumo e procurar um caminho mais suave? Adotada uma nova direção, poderá ele perguntar-se: por que mudo de rumo depois de o haver escolhido? Serei eu tão indeciso a ponto de sempre duvidar da justeza de minhas decisões? É bom duvidar de minhas atitudes? Não seria o caso de voltar à trilha anterior?

Nós, de nossa parte, poderíamos matutar: estaria nosso amigo a se defrontar com problemas cuja raiz se encontra em outro momento de sua vida? A insegurança demonstrada poderia ser referida a fracassos experimentados em outras situações com as quais se defrontou? E se, ao contrário, não estiver ele a demonstrar insegurança, mas, sim, um espírito inquieto e inventivo? E - continuaríamos nós a perguntar - se um espírito tão inquieto assim estiver determinado por uma insegurança tão grande que leva nosso andarilho a desafiar-se a cada momento? E se for ele tão seguro de si que não teme deixar seu espírito vagar livremente pelos campo da dúvida sistemática? De toda sorte, por mais condicionada ou determinada que esteja a ação de nosso andarilho - e ela, inescapavelmente, sempre estará vinculada a uma causa -, não é possível negar que a ele caberá a escolha do caminho a seguir. Não é difícil perceber que ele está condenado à liberdade de escolha!

Ora, à água não foi dado escolher uma trilha. Na verdade, o caminho que percorreu foi absolutamente determinado por sua composição físico-química e pelas da superfície sobre a qual foi depositada. Mais ainda, não existe no seu plano existencial o melhor ou o pior caminho, nem o bom e o mau, nem o bem e o mal, existe apenas o percorrer de um caminho a ser seguido irrecorrivelmente. Ainda mais, enquanto a experiência de caminhar influenciava nosso andarilho - que se arguia sobre as razões que haviam condicionado suas escolhas e sobre a oportunidade de adotar uma nova rota -, à água não se ofereciam as mesmas condições, pois uma eventual mudança de rumo impunha-se como necessidade dada pelas características do ponto da superfície em que ela se encontrava, independendo, portanto, afora as referidas condições físico-químicas, do trajeto anteriormente percorrido. O mesmo, como visto, não se dá com nosso protagonista, pois, além de existir no espaço como a gota d'água, ele também existe no tempo, ou seja, o tempo representa uma das dimensões de sua existência; assim, ele acumula conhecimento e tal conhecimento atua como suporte das decisões que, enquanto anda, ele vai tomando sobre o rumo a seguir.

Fica visto, pois, que o homem, todo e qualquer homem: 1) efetua escolhas e, portanto, é livre; 2) além de existir no espaço também existe no tempo; 3) acumula conhecimento e 4) os valores (melhor, bom etc.) fazem parte de seu campo de existência. Já a gota d'água: 1) não efetua escolhas, portanto não é livre, mas absolutamente determinada; 2) só existe no espaço, o tempo é algo externo à sua existência, assim, ela dura no tempo, mas não existe no tempo; 3) a gota não acumula conhecimento, apenas incidem sobre ela mudanças físico-químicas (a evaporação, por exemplo) e 4) os valores (pior, bem etc.) não fazem parte de seu campo de existência.

Por fim, uma última questão que nos remete a um novo conjunto de considerações: a gota d'água simplesmente rolou pela superfície, já nosso amigo andarilho projetou sua andança, ou seja, antes de dar o primeiro passo ele pensou na direção em que ia fazê-lo, de seu cérebro partiu a ordem para que suas pernas caminhassem em tal ou qual direção. É justamente o fato de termos de tomar decisões, de termos de projetar nossas ações, que nos faz existirmos no tempo. Ou seja, somos prisioneiros do passado, ou da história se quisermos utilizar um termo técnico, pois a cada momento estamos atualizando decisões assumidas anteriormente. 

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

Foto: Hegel e seus estudantes em Berlim

 


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