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70 anos da morte de Antônio Gramsci

29.04.2007
 
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70 anos da morte de Antônio Gramsci

70 ANOS DA MORTE DE ANTÔNIO GRAMSCI *

Por Augusto C. Buonicore

Há exatamente 70 anos, no dia 27 de abril de 1937, morria o dirigente comunista italiano Antônio Gramsci. Ele morreu dois dias depois de libertado da prisão fascista na qual havia permanecido os dez últimos anos da sua vida. Este artigo pretende apresentar um pouco da sua vida e de sua elaboração teórico-política. Apesar de sua importância para o movimento comunista nas décadas de 1920 e 1930, sua vida e obra são ainda pouco conhecidas pelo conjunto da militância comunista no Brasil. Sem dúvida nenhuma, o preconceito e o sectarismo estão por trás deste injustificável desconhecimento. Na década de 1990 a estes dois fatores se juntaram outros: a crise da perspectiva revolucionária e a capitulação de vários intelectuais e organizações do campo da luta pelo socialismo. Hoje, mais do que nunca, é necessário resgatar a história e as contribuições teóricas de homens como Gramsci. Somente assim poderemos construir alternativas viáveis para a crise do socialismo e para a teoria que lhe serviu de suporte durante todo o século XX: o marxismo.

A infância e a adolescência na Sardenha

Gramsci nasceu em 22 de janeiro 1891 numa pequena cidade na ilha da Sardenha – uma das regiões mais pobres da Itália. Sua infância foi marcada pelo infortúnio. Logo nos primeiros anos de vida desenvolveu uma deficiência física que o impediu de crescer normalmente.

Uma outra tragédia atingiu a família do pequeno Gramsci. Seu pai, gerente do cartório local, foi preso e acusado de roubo. Na verdade tratava-se de uma vingança de seus adversários políticos. A prisão colocou a família em uma situação de penúria. Em 1903 Gramsci, que fora aprovado no exame de admissão no ginásio, não pode cursá-lo e foi obrigado a trabalhar numa repartição pública onde passavas dez horas por dia carregando pastas de processos volumosos. Um trabalho que agravou o seu problema físico e de saúde. Tinha na ocasião apenas 12 anos de idade.

Dois anos depois seguiu para o ginásio na pequena cidade de Santu Lussurgiu, onde viveu na casa de uma família de camponeses pobres. Ali teve contato, pela primeira vez, com as idéias socialistas. Seu irmão mais velho que trabalhava em Turim – um importante centro industrial da Itália - enviava-lhe esporadicamente o jornal do Partido Socialista Italiano, o Avanti! Mais tarde Gramsci mudou-se para Cagliari, capital da Sardenha, onde passou a morar com seu irmão que agora trabalhava na Câmara do Trabalho, uma espécie de organização sindical. Os dois passaram a freqüentar assiduamente as reuniões de operários socialistas.

A forte influência deste ambiente já podia ser sentida nas suas redações escolares. Aos 19 anos escreveu: “A Revolução Francesa abateu muitos privilégios, despertou oprimidos; não fez mais do que substituir uma classe por outra no domínio. Deixou, contudo, uma grande lição: que os privilégios sociais, sendo produto da sociedade e não da natureza, podem ser superados. A humanidade necessita de um outro banho de sangue para cancelar muitas dessas injustiças”.

Gramsci em Turim Vermelha

Em 1911, graças a uma bolsa de estudos, ingressou na Universidade de Turim para fazer o curso de Letras. Ali entrou em contato com a filosofia de Benedetto Croce e Giovanni Gentile, filósofos idealistas (neohegelianos) e adversários do positivismo imperante nos meios intelectuais progressistas da Itália do norte. A influência hegeliana podia ser sentida nos seus trabalhos entre os anos de 1914 e 1917. Num artigo publicado em 1914 escreveu: “Os revolucionários (...) concebem a historia como criação do próprio espírito”.

O idealismo, antipositivista, se refletiu também no famoso artigo que ele saldou a revolução socialista na Rússia. Escreveu ele: “A revolução dos bolcheviques é cimentada mais por ideologia que por fatos (...) Ela e a revolução contra O Capital de Karl Marx. O Capital de Marx era, na Rússia, o livro dos burgueses, mais do que dos proletários. Era a demonstração critica da fatal necessidade de que na Rússia se formasse uma burguesia, se iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma civilização de tipo ocidental (...) Os fatos superaram as ideologias. Os fatos fizeram explodir os esquemas críticos segundo os quais a historia da Rússia deveria desenvolver-se conforme os cânones do materialismo-histórico (...) se os bolcheviques renegam algumas afirmações de Marx de O Capital, não renegam seu pensamento imanente, vivificador. Eles não são ‘marxistas’, eis tudo (...). Vivem o pensamento marxista, o que não morre nunca e que é a continuação do pensamento idealista italiano e alemão, e que em Marx se havia contaminado de incrustações positivistas e naturalistas”.

Na universidade conheceu os jovens Palmiro Togliatti, também da Sardenha, e Antonio Tasca. Este último era militante da juventude socialista. Através dele Gramsci e Togliatti entraram em contato com os círculos socialistas turinenses e com o movimento operário mais avançado da Itália. O primeiro artigo político de Gramsci foi “Neutralidade ativa e operante”, escrito em outubro de 1914, no qual defendeu uma posição belicista. Postura que rapidamente renegou, mas pela qual pagou caro nos anos seguintes.

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