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A guerra saudita do petróleo contra Rússia, Irã e EUA

28.10.2014
 
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A Arábia Saudita iniciou uma guerra econômica contra alguns produtores selecionados de petróleo. A estratégia mascara a verdadeira agenda da Casa de Saud. Mas funcionará??


Para o vice-presidente da russa Rosneft, Mikhail Leontyev, "os preços podem ser manipulativos (...) a Arábia Saudita começou por oferecer grandes descontos no petróleo. É manipulação política, e a Arábia Saudita está sendo manipulada, o que pode acabar mal."


15/10/2014, Pepe Escobar, RT, Moscou
http://rt.com/op-edge/196148-saudiarabia-oil-russia-economic-confrontation/ 


É indispensável uma correção: os sauditas não estão sendo manipulados. O que a Casa de Saud está fazendo é disparar "Tomahawks de boatos", insistindo que estariam ótimos com o petróleo a $90 o barris; até a $80 pelos próximos dois anos; e até a $50-$60 para clientes da Ásia e norte-americanos.

A verdade é que o Brent cru já caiu a menos de $90 por barril, porque a China - e a Ásia como um todo - já estão reduzindo o crescimento econômico, embora em grau menor, comparado ao ocidente. A produção porém permanece alta - especialmente na Arábia Saudita e Kuwait - mesmo com bem pouco petróleo líbio e sírio no mercado e com o Irã forçado a cortar milhões de barris/dia na produção por causa da guerra econômica dos EUA, também chamada sanções.

A Casa de Saud está aplicando estratégia altamente predatória, que se resume a reduzir a fatia de mercado de seus concorrentes, no médio para longo prazo. Pelo menos em teoria, pode tornar miserável a vida de vários atores - dos EUA (desenvolvimento de energia, fracking e perfuração em água profunda que se tornam não lucrativos), aos produtores de cru pesado, azedo [orig. sour] como o Irã e a Venezuela. Mas o alvo principal, que ninguém se engane, é a Rússia.

Nada mais fácil que uma estratégia que fira simultaneamente Irã, Iraque, Venezuela, Equador e Rússia ser vista como jogo de poder a favor do "Império do Caos", com Washington acertando negócios com Riad. Negócios que implicariam que bombardear o Califa Ibrahim, líder do ISIS/ISIL/Daesh, seria só um prelúdio para bombardear as forças de Bashar al-Assad; em troca, os sauditas baixariam os preços para ferir os inimigos do "Império do Caos".

Mas é muito mais complicado que isso.

Jogue a culpa em Washington

O orçamento russo para 2015 exige que o petróleo permaneça, no mínimo, a $100 o barril. Mesmo assim, o Kremlin está obtendo empréstimos de nada menos que $7 bilhões em 2015, dos "investidores externos" usuais, mais $27,2 bilhões internamente. Não se vê nem sinal de terremoto econômico.

Além do mais, o rublo já caiu mais de 14% desde julho, frente ao dólar norte-americano. Por falar nisso, as moedas dos principais países BRICS também caíram: 7,8% o real do Brasil; 1,6% a rúpia indiana. E a Rússia, diferente do que se via na era Yeltsin, não está quebrada: ainda tem reservas de, pelo menos, $455 bilhões.

O objetivo da Casa de Saud, de tentar atropelar a Rússia como principal fornecedor de petróleo para a União Europeia não passa de delírio-sonho: todas as refinarias da União Europeia teriam de ser praticamente refeitas de alto a baixo, para processar o cru saudita, que é leve; e isso custa uma fortuna.

Geopoliticamente, a coisa fica ainda mais saborosa, quando se vê que a estratégia central da Casa de Saud é jogar a culpa de tudo em Washington, por não ter cumprido a promessa de "Assad tem de sair", nem realizado a obsessão dos neoconservadores de bombardear o Irã. É ainda pior (para os sauditas), porque Washington - pelo menos por hora - parece mais concentrada em derrubar o Califa Ibrahim do que em derrubar Bashar al-Assad, e pode talvez estar a um passo de assinar um acordo nuclear com Teerã, como parte das conversas com o P5+1, dia 24 de novembro.

No front da energia, o pior dos pesadelos da Casa de Saud seria ambos, Irã e  Iraque, tornarem-se rapidamente capazes de tomar o lugar dos sauditas como  produtores swing chave de petróleo no mundo. Daí vem o ímpeto dos sauditas para privar os dois países da muito necessária renda do petróleo. Pode funcionar - com as sanções mordendo Teerã ainda mais fundo. Mas Teerã sempre pode compensar, vendendo mais gás para a Ásia.

Aqui, afinal, está o xis da questão. Uma depauperada Casa de Saud acredita que possa forçar Moscou a abandonar o apoio que dá a Damasco; e Washington a não assinar acordo algum com Teerã. Tudo isso, só vendendo petróleo abaixo do preço médio. É sinal de desespero. E, além disso, pode ser interpretado como a Casa de Saud sem saber o que faz - se não a estiver ostensivamente sabotando - da tal coalizão dos covardes/sem noção, em sua campanha contra os bandidos do Califa Ibrahim.

Para completar essa pintura sinistra, a Europa talvez seja esquecida, para arrastar-se como puder durante o inverno -, mesmo sabendo-se dos problemas de suprimento de gás com a Rússia, por causa da Ucrânia. Ainda assim, os preços baixos do petróleo dos sauditas não impedirão um quarta recessão em seis anos, que já está na esquina, à espera da União Europeia.

Para o leste, jovens russos!

A Rússia, entrementes, olha lenta, mas firmemente, para o leste. O vice-premiê da China Wang Yang resumiu com clareza: "A China quer exportar para a Rússia produtos competitivos como produtos agrícolas, equipamento de petróleo e gás; e está pronta para importar produtos de engenharia da Rússia." Acrescentem-se aí os alimentos importados em quantidades maiores da América Latina, e nada sugere que Moscou esteja encurralada nas cordas.

Uma delegação chinesa de peso considerável, chefiada pelo premiê Li Keqiang acaba de assinar um pacote de negócios em Moscou, que vão da energia às finanças, e de navegação por satélite a cooperação nas ferrovias para trens de alta velocidade. Para a China, que já superou a Alemanha como principal parceira comercial da Rússia em 2011, esse é puro jogo de ganha-ganha.

Os bancos centrais de China e Rússia acabam de assinar acordo crucial, de três anos, para troca bilateral da moeda, de 150 bilhões de yuan. E o negócio é prorrogável e expansível. A City de Londres reclamou muito, mas reclamar é o que mais fazem.

Esse novo acordo, deixa de lado o dólar. Não surpreende que que seja hoje item chave da guerra econômica por procuração, de salve-se quem puder, entre EUA e Ásia. Moscou saúda o acordo, é claro, porque consegue neutralizar muitos dos efeitos colaterais da estratégia saudita.

A parceria estratégica Rússia-China está em ascensão desce o "negócio de gás do século", "epocal" (pela definição de Putin), de $400 bilhões e para 30 anos, assinado em maio. E as reverberações econômicas não vão parar.

Haverá com certeza um alinhamento das Novas Rotas da Seda comandadas pelos chineses, com uma ferrovia Trans-Siberiana modernizada. Na reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] em Dushanbe, o presidente Putin elogiou o "grande potencial" do desenvolvimento de um "sistema comum de transporte SCO" que ligue "a ferrovia Trans-Siberiana russa e a linha principal Baikal-Amur" com as Rotas da Seda chinesas, "beneficiando assim todos os países na Eurasia."

Moscou está progressivamente levantando as restrições e agora está oferecendo a Pequim quantidade imensa de investimentos potenciais. Pequim está ganhando progressivamente acesso não só às matérias primas russas muito necessárias, mas também ganhando acesso a tecnologia de ponta e armamento avançado.

Pequim receberá sistemas de mísseis S-400 e jatos de combate Su-35, logo no primeiro trimestre de 2015. Depois, na sequência, virão o novíssimo submarino russo, Amur 1650, além de componentes para satélites alimentados por energia nuclear.

A estrada é pavimentada com yuan

Os presidentes Putin e Xi, que já se encontraram nada menos que nove vezes desde a posse de Xi, ano passado, estão metendo muito medo ao "Império do Caos." Não é de estranhar; a prioridade número 1, dos dois e compartilhada, é morder a hegemonia do dólar norte-americano - e especialmente do petrodólar - no sistema financeiro global.

O yuan está sendo negociado na Bolsa de Valores de Moscou - a primeira Bolsa fora da China a oferecer negócios regulados com o yuan. Ainda está em apenas $1,1 bilhão (em setembro). Importadores russos pagam com yuan, em vez de dólares, por 8% de todos os bens chineses, mas a coisa está crescendo depressa. E crescerá exponencialmente, quando Moscou finalmente decidir aceitar yuan no "negócio de gás do século" com a Gazprom, de $400 bilhões.

Assim caminha o mundo multipolar. A Casa de Saud usa a arma-petrodólar? O contragolpe é aumentar o comércio numa cesta de moedas. Adicionalmente, Moscou manda um recado à União Europeia, que está perdendo grande parte do comércio russo, por causa das tais sanções contraproducentes, o que acelera a próxima recessão na União Europeia. Guerra econômica também é via de duas mãos.

A Casa de Saud pensa que pode jogar um tsunami de petróleo no mercado, apoiado por um tsunami de 'noticiário' e 'opiniões de especialistas' - criando a ilusão de que os sauditas controlariam os preços do petróleo. Não controlam. Na exata medida em que essa estratégia saudita está condenada ao fracasso, Pequim vai apontando o caminho a seguir para fora do pântano: negociar em outras moedas estabiliza os preços. No frigir dos ovos, os únicos perdedores serão os que insistirem em comerciar em dólares norte-americanos. ***** 

 


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