Pravda.ru

Mundo

Mudança, ou mais da mesma coisa?

27.10.2008
 
Pages: 123
Mudança, ou mais da mesma coisa?

Num artigo recente no Miami Herald, o colunista vencedor do Prêmio Pulitzer Leonard Pitts discutiu dois memorandos do governo, "ainda classificados," que não apenas revelavam como o governo dos Estados Unidos, sob George W. Bush, autorizara e se engajara no uso da tortura, como também como o próprio Bush óbvia e intencionalmente mentiu ao povo estaunidense a respeito dessa realidade. Os memorandos, escritos em 2003 e 2004, visavam a aliviar as preocupações do então diretor da CIA George Tenet de que agentes pudessem ser processados criminalmente por torturar suspeitos de terrorismo de "alto valor". No entanto, dois anos depois, George W. Bush dizia ao povo estadunidense: "Os Estados Unidos não torturam. É contra nossas leis e nossos valores. Não autorizei isso — e não autorizarei."

Pitts fez outras duas constrangedoras observações em seu artigo. A primeira foi que a mídia controlada pelas corporações ignorou, em grande medida, as revelações daqueles memorandos, uma revelação que, embora importuna, certamente não causa surpresa, dada a pletora dos assim chamados canais de "notícias" que promovem sensacionalismo e superficialidade acima da substância.

O segundo e importante ponto de vista de Pitt referiu-se a como o povo estadunidense tornou-se tão cerebralmente lavado depois dos eventos do 11 de setembro de 2001 que não parece mais perturbar-se com a mendacidade de seu governo, uso de tortura, vigilância sem mandado, negação do devido processo legal, ou prisão prolongada de suspeitos sem acusação ou julgamento.

A tragédia é que essa negação do processo devido tornou-se tão evidente que advogados de acusação designados, no passado, para processar alegados suspeitos de terrorismo na Baía de Guantânamo renunciaram em protesto, condenando os tribunais militares como pouco mais do que tribunais de fachada onde se nega sistematicamente aos advogados de defesa acesso à evidência que os poderia auxiliar em refutar as acusações levantadas contra os prisioneiros de Guantânamo.

Mesmo quando essa conduta indevida leva acusações contra alegados suspeitos de terrorismo a serem retiradas, o resultado é simplesmente mais corrupção e maquinações. Isso ficou claramente em evidência quando recentemente foram retiradas acusações contra cinco prisioneiros de Guantânamo. Em vez de eles serem libertados, esses prisioneiros foram simplesmente lançados em detenção ainda mais prolongada e num limbo legal, enquanto os advogados de acusação (aos quais obviamente falta a integridade de seus colegas que protestaram) debatem se ou não deveriam "formular de novo" as acusações.

Ainda mais perturbadora do que as perversidades perpetradas pela ditadura Bush é a disposição do povo estadunidense de aceitar, e até desculpar, essas perversidades, apesar de isso significar, como disse Pitts, "Engolir mentiras como se fossem doces." O que na verdade leva à pergunta de se George W. Bush e seus subordinados tornaram os estadunidenses mais perversos, ou se a administração Bush simplesmente reflete uma perversidade que sempre existiu à sombra nos Estados Unidos, mas que agora não mais teme a luz do dia.

A trágica realidade é que mentirosos levam vantagem na sociedade estadunidense, e talvez em sociedades por todo o mundo. Pessoas honestas em seu trato com os outros tendem a assumir que os outros serão também honestos para com elas; em decorrência, tornam-se mais vulneráveis a mentiras.

Ademais, como Adolph Hitler ressaltou em sua "teoria das grandes mentiras," os líderes políticos levam grande vantagem quando se trata de contar mentiras. Uma pessoa "comum" preconizando a guerra por meio de argumentar enganosamente que um país está produzindo "armas de destruição em massa" provavelmente será descartada como paranóica. Coloque-se a mesma mentira, entretanto, nas mãos de um presidente, e será prontamente crida.

O motivo pelo qual as mentiras, e os mentirosos que as contam, tornaram-se endêmicos na sociedade estadunindense é raramente haver consequências por se contarem mentiras e, em muitos casos, mentir pode ser positivamente vantajoso.

George W. Bush não sentiu (e não sente) compunção por mentir para o povo estadunidense porque a vida inteira dele tem sido uma enorme mentira. Ele deve sua riqueza e instrução não a qualquer acume de inteligência ou negócios, mas ao tratamento preferencial recebido por meio de conexões de família; no entanto, ele tem a audácia de condenar políticas de ação afirmativa como "tratamento preferencial.

" Ele faz discursos jingoístas e, a partir da segurança da Casa Branca, diz aos insurgentes iraquianos "que venham" e, não obstante, mais uma vez, recorreu a conexões de família para evitar servir no Vietnã. Ambas as suas assim chamadas "eleições" para a presidência foram mentiras completas, manipuladas por expurgos ilícitos de eleitores em perspectiva, autoridades eleitorais corruptas, e "juízes" não éticos do Supremo Tribunal tais como Antonin Scalia, que desejou assegurar que seu "companheiro de caçadas" Dick Cheney fosse elevado à vice-presidência.

Eis porque Bush não hesitou em mentir a respeito das alegadas "armas de destruição em massa" do Iraque, dos alegados "vínculos" de Saddam Hussein com a Al-Qaeda, ou do uso de tortura pela CIA.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular