Pravda.ru

Mundo

Ucrânia e Zeitgeist

27.05.2014
 
Ucrânia e Zeitgeist. 20364.jpeg

"Com os recentes eventos na Ucrânia, essa zeitgeist  [al. orig., manifestação do "espírito da época"] norte-americana impressa profundamente foi indiscutivelmente esmagada e convertida em 'objeto' inamovível: a realidade de que a 'política do poder' jamais se afastou ou deixou de reinar, mas permaneceu onde sempre esteve, durante todo o tempo, à espreita sob a superfície. O resultado da guerra no Iraque, a posição do Irã na questão nuclear, o fracasso no Afeganistão, o desafio que vem da China - todos foram sinais de uma deriva geopolítica, com os estados jogando as cartas políticas que cada um possui, e sempre contra os EUA. Mas a Ucrânia emergiu como símbolo icônico dessa colisão de memes."

O professor Stephen Walt observou com certa ironia, em artigo recente,[1] que uma das provavelmente piores 'predições' de Bill Clinton parece ter sido feita em 1992, quando o ex-presidente disse que "num mundo no qual a liberdade, não a tirania, está em marcha, o cálculo cínico do puro poder político simplesmente não dá certo. Não é adequado para uma nova era." 


Walt observa que declarar o fim da política do poder e a aurora de uma nova ordem mundial cada vez mais participativa, globalizada, comandada por mercados liberais, institucionalizada e dita benevolente, sempre foi artigo de fé nos EUA ou, pelo menos, já o é há muito tempo. De fato, começou nos anos que levaram à 2a. Guerra Mundial - quando um pequeno grupo de analistas no Conselho de Relações Exteriores [orig. Council for Foreign Relations] pôs-se a repetir que esse devia ser o meme que diferenciaria e definiria o avanço (já então esperado) dos EUA rumo ao poder hegemônico -, saído do Velho Imperialismo do século 19 movido a fogo de navios canhoneiros. O meme apelaria ao legado dos Pais (Protestantes) Peregrinos sobre os EUA serem a 'Nova Jerusalém' que redimiria o mundo; mas, mais pragmaticamente, "porque a dominação pelos EUA tornou impossíveis, por definição, as rivalidades geopolíticas: como pode(ria) haver "política de poder", quando só havia uma única grande potência?" - perguntava Walt.

Aquele meme pôs os EUA no ponto focal de uma ordem pressuposta tranquila e pintava o papel global dos EUA sob luz consistentemente positiva: oferecia uma visão otimista dos assuntos internacionais; uma cooperação mutuamente benéfica que empurraria todos na direção do "Fim da História" era não apenas exigida de todos os estados, mas também, adicionalmente, obrigava os participantes a aderir a uma única visão, limitada e culturalmente polarizada do 'bem', tornada equivalente a um 'Absoluto', como 'A Verdade' [em maiúsculas]. Esse último aspecto viria a ser a pior parte do meme, dado que armou os 'intervencionistas morais' liberais com o argumento de que precisavam para tomar na alça de mira dos respectivos alvos todos os 'estados bandidos' menos poderosos e seus respectivos governantes, os quais (aos olhos daqueles 'éticos') tornaram-se 'inimigos do bem'. "Nem mesmo a China em ascensão foi problema para eles" - Walt sugere: "nesse bravo novo mundo globalizado, EUA poderosos, mas benevolentes, abraçariam a China e gradualmente "socializariam" Pequim para dentro de uma ordem mundial governada por instituições desenhadas e (predominantemente) feitas nos EUA" [itálicos de Conflicts Forum].

Com os recentes eventos na Ucrânia, essa zeitgeist  [al. orig., "manifestação do espírito da época"] norte-americana impressa profundamente foi indiscutivelmente esmagada e convertida em 'objeto' inamovível: a realidade de que a 'política do poder' jamais se afastou ou deixou de reinar, mas permaneceu onde sempre esteve, durante todo o tempo, à espreita sob a superfície. O resultado da guerra no Iraque, a posição do Irã na questão nuclear, o fracasso no Afeganistão, o desafio que vem da China - todos foram sinais de uma deriva geopolítica, com os estados jogando as cartas políticas que cada um possui, contra os EUA. Mas a Ucrânia emergiu como símbolo icônico dessa colisão de memes.

Uma das consequências mais óbvias é que as duas narrativas (a dos EUA[2] e a[3] da Rússia,[4] sobre o significado da Ucrânia) simplesmente não se tocam em praticamente nenhum ponto: uma é a narrativa do clamor progressista da história que converge sobre alguns valores; a outra é a narrativa de uma soberania reobtida, e de seu corolário, na insistência sobre o direito de uma nação viver sob suas próprias luzes e em última instância de defender à outrance [fr. orig., "a qualquer preço"] o seu 'modo-de-ser'. Indiscutivelmente, estamos numa era na qual cada vez mais todos nós queremos viver conforme e queremos ser governadas por instituições que reflitam os nossos próprios modos de cada um sermos.

O que significa tudo isso em relação à crise na Ucrânia, e o que se deve esperar da política externa dos EUA para o Oriente Médio?

A tensão primordial aqui - e provável causa-chave do desancoramento e da disfuncionalidade da política externa dos EUA - é que o presidente Obama parece compreender muito bem o terrível problema em que vive: ele vê e compreende as reações adversas e a crescente limitação que se vai impondo contra a visão de mundo de 'EUA-potência-hegemônica-benevolente'. O presidente Obama vê, mas está também preso na mesma armadilha - como se viu no discurso que fez em Bruxelas no início da crise na Ucrânia (no qual proclamou a 'marcha' universal em direção à ordem global benevolente [e deu ao mundo a impressão de que estivesse em surto de esquizofrenia (NTs)]).

Mas Obama também sugere que realmente não acredita em nada do que diz: em outros c contextos, contradisse o mote de Bruxelas; e tem dito explicitamente[5] em entrevistas, que ele, como presidente dos EUA, de fato não tem 'joy-stick' com o qual possa controlar os eventos (em outras palavras, disse que a 'ordem benevolente' não é 'ordem', ou, no mínimo, não foi pré-ordenada); isso, provavelmente, é o melhor que Obama pode fazer para acompanhar os eventos muito incertos no Oriente Médio e esperar que tomem rumo de algum modo mais favorável. E o vice-conselheiro de comunicações estratégicas de Obama para Segurança Nacional[6] disse que a verdadeira ambição da política externa de Obama é desmamar os sabichões da política externa de Washington e acabar com suas "narrativas antiquadas".

O presidente Obama também sabe - como todas as pesquisas sugerem - que a opinião pública norte-americana compreende instintivamente tudo isso e está ao lado do presidente, na oposição a políticas intervencionistas. Mas os Republicanos, os liberais Democratas intervencionistas, os especialistas da think-tank-elândia e da imprensa-empresa, e os lobbies de interesses setoriais, da indústria da Defesa a Wall Street - para nem falar dos neoconservadores[7] -, absolutamente não querem nem ouvir falar disso tudo. E estão cercando Obama por todos os lados, para que seja mais assertivo e mais agressivo - especialmente contra a Rússia e o presidente Putin (já 'posto' como 'inimigo essencial dos bons e do bem').

O presidente Obama parece ter respondido a essas tremendas pressões e aos ataques contra os fracassos de suas políticas externas (Síria, Israel/Palestina e a 'iniciativa desorientada' na direção do Irã), ao conceder algum espaço tático aos 'falcões', ao mesmo tempo em que limitou sua 'linha vermelha' (não declarada) à posição de evitar intervenção militar direta em qualquer daquelas crises.

Com isso, pôs-se em posição de dizer aos críticos: 'Bem, o que, afinal, vocês querem de mim?! Querem que eu seja mais assertivo e mais agressivo, e parecem nada ter aprendido do Iraque - dado que vocês [os que criticam Obama] também se opõem a intervenção naquelas crises. O que, afinal, vocês propõem, que eu já não esteja fazendo?!'

Em resumo, Obama está dizendo aos críticos que são eles - paradoxalmente - que advogam a favor da política de poder do século 19, como solução para todos os problemas, até os mais complexos. Somos testemunhas das consequências dessa tática presidencial de 'brincar' de ceder terreno (para preservar o seu próprio objetivo estratégico de não iniciar novas guerras) hoje, no Oriente Médio: escalada em todos os fronts - sobretudo porque Obama 'liberou' a entrada dos nomes mais linha-dura da política externa no Departamento de Defesa - como 'tática' para aliviar as pressões imediatas diretamente sobre ele mesmo.

Mas, como Obama com certeza também sabe, essa tática para defender o objetivo estratégico de não fazer intervenções militares (como seus adversários lhe cobram) está, sim, cedendo espaço a atores regionais (Israel, Arábia Saudita, etc.,) e a alguns elementos dos interesses norte-americanos, para ocupar esse 'espaço' limitado - o que está sendo feito e vem empurrando os limites para cada vez mais longe (por exemplo, a nova leva de armamentos enviados aos terroristas sírios; e maior reconhecimento político para aqueles atores em Washington).

Esse ano há eleições nos EUA, e os Democratas correm grave risco no Senado. Obama está sendo pressionado contra a sua dita política externa 'fraca' por Hillary Clinton, que parece ser a primeira pré-candidata para 2016, e, também, por tradicionais aliados dos EUA como Israel e Arábia Saudita.[8]

Tudo sugere que os objetivos originais da política externa de Obama (um estado palestino, o 'reset' com a Rússia e o acordo nuclear com o Irã) já se tornaram politicamente irrecuperáveis para ele; e que o resultado mais provável é que o presidente tenha de ceder ainda mais terreno para 'conter' seus atacantes, dado que Obama já está preso no campo da defesa, e os falcões exigem mais e mais apoio aos terroristas sírios; e insistem em negar completamente a "possibilidade física para construir capacidade" [é a expressão que se usa para fazer referência à capacidade mínima de enriquecimento de urânio que possibilita(ria) ao Irã construir uma bomba atômica (NTs)]. Em resumo, é altamente provável que os violentos conflitos na Síria sejam reincendiados, em vez de acalmados, nos próximos meses. E a obcecada insistência dos EUA em negar até a capacidade mínima de enriquecimento de urânio ao Irã pode acabar por configurar impasse total e empurrar o Irã para fora da mesa de negociações, se os EUA persistirem na posição de negar aos iranianos também o direito de usar energia nuclear também para fins pacíficos.

Nessa 5ª-feira, Obama alertou Democratas reunidos num jantar para levantar fundos para campanhas eleitorais, que a inquietação e um senso de frustração que toma conta do país estão alimentando uma espécie de desilusão cínica contra o governo, que poderá se manifestar em baixo comparecimento dos eleitores Democratas às eleições de novembro, para o Congresso. Segundo Politico,[9] "Obama disse ao grande dinheiro dos doadores de campanha que o presidente sente uma pressão de urgência nessas eleições, e que é indispensável que o Senado continue Democrata". Não há dúvidas de que muitos norte-americanos sentem-se perdidos e sem orientação, e que percebem a onda de 'desempoderamento' dos EUA em todo o mundo. Obama já alertou que essa frustração - alimentada e amplificada pela imprensa-empresa e pelos adversários do governo Obama (muitos dos quais dentro do próprio governo Obama) - criam grave risco para o Partido Democrata nas eleições de meio de mandato.

E é onde a Ucrânia tem, também, papel chave. James Traub[10] em artigo intitulado The Enemy We Have Been Waiting For [O inimigo pelo qual tanto esperamos], escreve: "Então, Putin empurrou o governo Obama [da posição de 'engajamento'] outra vez para o mundo da agressão (...). A verdade é que foi Putin quem ditou as regras da luta (...) Mesmo assim, acho que nem o exibicionismo de Putin, nem a zombaria do senador John McCain durarão muito. Putin é o inimigo pelo qual Obama estava esperando".

A questão é que não, não, não é nada disso. Embora as respectivas narrativas jamais se toquem - os estrategistas políticos russos compreendem o pensamento norte-americano (provavelmente muito melhor do que Washington compreende Moscou). O presidente Putin absolutamente não está fazendo a velha política dos navios canhoneiros, um contra um no cenário de lutas, contra os EUA. Putin joga xadrez contemporâneo pluridimensional (global e multipolar). Putin pensa com a China, pensa com os BRICS, pensa com todo o Movimento dos Não Alinhados, pensa com o Oriente Médio e pensa com a Eurásia.

As prioridades de Obama talvez tenham mudado à luz de seus medos da frustração entre os norte-americanos e o impacto dessa frustração nos resultados das eleições de meio de mandato, para os Democratas. Originalmente, a ajuda silenciosa e não reconhecida que Putin dava a Obama era indispensável para que a política de Obama para o Oriente Médio funcionasse (o acordo das armas químicas na Síria, as negociações com o Irã, etc.), mas agora talvez tudo isso já seja secundário, ante as preocupações domésticas que pesam contra Obama para as próximas eleições nos EUA (como se diz em Washington, toda a política externa dos EUA é política doméstica).

Agora Putin pode tornar-se o 'inimigo que Obama estava esperando' - como meio para salvar os Democratas de uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato, se for convertido em personagem antigão, velho, ultrapassado, imagem em branco e preto de um 'jogo' inventado contra inimigo inventado, requentado da velha história, que dê aos norte-americanos alguma coisa assemelhada ao velho 'orgulho nacional' - pelo menos até o dia seguinte às eleições.

Talvez a nova iniciativa do presidente Putin, de conversações sobre a Ucrânia e sugestão de que se adiasse o referendo seja precisamente o reconhecimento do caixote no qual Obama adoraria vê-lo preso (o inimigo pelo qual estávamos esperando, segundo o conceito de Traub) - e do qual Putin procura abrir uma saída?  Seja como for, também parece provável que a crise ucraniana seja prolongada (pelo menos, até as eleições de meio de mandato nos EUA, enquanto so norte-americanos tentam decidir, para eles mesmos, o que, afinal, os EUA defendem, nesses novos tempos).

Mas o dividento político da Ucrânia (se realmente houver algum) será determinado, muito provavelmente, por quem jogar xadrez de melhor qualidade: Obama ou Putin. O Oriente Médio estará observando atentamente, mas o mais provável é que o grosso do dinheiro das apostas tome a direção de Putin, não de Obama. *****

 


[1] 2/5/2014, Foreign Policy http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/05/02/the_bad_old_days_are_back_china_us_russia_power_politics_realism

[2] 30/4/2014, http://consortiumnews.com/2014/04/30/kerrys-propaganda-war-on-russias-rt/

[3] 8/5/2014, http://en.ria.ru/russia/20140508/189672362/Russian-Defense-Official-Bashes-NATO-for-Ignoring-Troop-Pullout.html

[4]1/5/2014, http://consortiumnews.com/2014/05/01/whos-the-propagandist-us-or-rt/

[5] http://www.newyorker.com/reporting/2014/01/27/140127fa_fact_remnick?currentPage=all

[6] http://www.newyorker.com/reporting/2014/01/27/140127fa_fact_remnick?currentPage=all

[7] http://valdaiclub.com/near_abroad/68580.html

[8] http://english.alarabiya.net/en/views/news/middle-east/2014/05/04/Saudi-Arabia-flashes-its-might-in-strategic-military-parade.html

[9] http://www.politico.com/story/2014/05/barack-obama-2014-elections-democrats-106479.html?hp=r2

[10] 27/3/2014, http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/03/27/enemy_waiting_for_obama_putin_ukraine_speech

 

Conflicts Forum
18/5/2014, Comentário Semanal, 2-9/5/2014
http://www.conflictsforum.org/2014/conflicts-forums-weekly-comment-2-%e2%80%93-9-may-2014/

 


Loading. Please wait...

Fotos popular