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As meninas do batalhão Juanambú

26.12.2017
 
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As meninas do batalhão Juanambú

Escrito por María Aureliana Buendía

A cada vez que voltam a mesma campanha midiática da direita colombiana em rádio, televisão, imprensa e internet, minha memória me remonta a décadas atrás.

Transcorriam os anos oitenta e o presidente Belisario Betancur abriu a mesa de negociações com a insurgência da Colômbia. O povo vibrou esperançoso ante a possibilidade de construir um caminho de reformas que conduzisse à paz com justiça social.

Enquanto isso, as Forças Militares, na contramão do governo nacional e da opinião pública, tramavam sabotar o processo de paz para continuar a guerra contra insurgente. São conhecidos os planos da época... Centenas de milhares foram deslocados, desterrados, desenraizados. Foi destruído o tecido social, a possibilidade de trabalhar, de produzir, 68% de proprietários deslocados pela violência ficaram em condições de indigência, engrossando os cinturões de miséria das cidades grandes e pequenas da Colômbia. Milhares de desaparecidos, assassinados, torturados; se produziu o genocídio contra partidos e organizações políticas como a União Patriótica.

A maioria de colombianos e da opinião internacional desconhecem os planos contra insurgentes das Forças Militares de então contra as organizações guerrilheiras. Não se sabe, por exemplo, que se prepararam centenas de agentes cujas missões eram se infiltrar nas fileiras das FARC e de outras organizações populares. Ninguém acreditaria que os treinavam para matar comandantes, envenenar a comida dos combatentes, danificar as peças das armas, roubar dinheiro. Outras missões mais sofisticadas tinham a ver com criar problemas entre os comandantes e a tropa guerrilheira, conseguir a insubordinação, a deserção e a traição.

Nessa tarefas ocuparam indiscriminadamente a mulheres e homens, gente corrente das regiões do país, desempregada, economicamente necessitada, também muito lúmpen. Jovens, a maioria menores de idade, eram "semeados" nas regiões, veredas e povoados por onde a guerrilha fazia suas incursões. Onde se violavam as normas de ingresso às FARC, por aí entrava a infiltração de agentes. Recebiam o pagamento e o treinamento nos Batalhões do Exército.

Um caso particularmente aterrorizante, pela perversão sem limite, foi o das meninas do Batalhão Juanambú. Este fato foi apresentado ante uma das tantas comissões de paz e/ou de verificação do cessar-fogo da época. O Batalhão Juanambú recrutava meninas num orfanato de Florencia, Caquetá, treinava-as para se infiltrarem nas estruturas guerrilheiras. As monjas do orfanato escolhiam as menores de tal maneira que cumprissem com os requisitos exigidos pelos militares: bonitas, inteligentes, com boas condições físicas.

Nos dois anos de treinamento aprendiam a quebrar o pescoço de um ser humano com um simples giro especial da cabeça, a moer vidro para colocá-lo nas comidas, a conhecer e usar armas com perfeição. O pior era que as deixavam sem sentimentos, sem autoestima, sem passado nem futuro, era a destruição de qualquer tipo de humanidade. Matar e beber o sangue de sua própria parceira, buscar e praticar sexo com qualquer um sem nenhum critério ou compromisso, se deixar engravidar para sair das fileiras prévio cumprimento da missão, mentir com desfaçatez, com segurança, olhando nos olhos.

Conhecemos e sofremos com as meninas de Juanambú: bonitas e muito jovens, tinham deixado a infância e a candura no Batalhão, hábeis, sagazes e sem entranhas. Os guerrilheiros as evitavam com certo temor e com toda razão. A essa lembrança me remonta a memória quando a falsa mídia apresenta "as provas" contra nossos companheiros revolucionários.

A política das FARC sempre foi transparente, justa e pública em relação ao ingresso das mulheres à guerrilha; em primeiro lugar, tão voluntário como o dos próprios homens. Com igualdade de direitos e deveres frente à organização e à luta, coisa que a sociedade colombiana não alcançou. Não em vão, uma muito alta porcentagem de mulheres fez parte das fileiras insurgentes. Foi na militância guerrilheira onde se tornaram sujeitos sociais conscientes de seu papel na história do país, lutando ombro a ombro com os camaradas homens. Tão queridas, apreciadas, respeitadas, amadas e necessárias como talvez não voltaremos a ser jamais.

Esperamos que a Comissão da Verdade e a Justiça Especial para a Paz se ocupem, entre outras, desta dramática história da guerra em Colômbia, das meninas de Juanambú. Que se estabeleçam responsabilidades frente aos métodos empregados na confrontação armada para derrotar a guerrilha, nem tudo se vale, jamais encontrarão um caso de guerrilheiras infiltradas nas Forças Armadas cumprindo este tipo de missões. A avaliação que nossos camaradas de luta têm sobre as mulheres em geral e as guerrilheiras em particular jamais permitiria algo semelhante.

A guerrilha das FARC, seus comandantes e combatentes, jamais pôde ser derrotada precisamente porque se erigiu como um coletivo revolucionário com princípios e virtudes altruístas.

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

 


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