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Solidariedade e Justiça Social: Outro Mundo É Possível

25.10.2017
 
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Solidariedade e Justiça Social: Outro Mundo É Possível

Em 2013, três conceituados cientistas da NASA publicaram um impactante estudo no qual, fundamentando-se em complexos modelos matemáticos, prognosticaram o possível colapso da civilização humana em poucas décadas.

Edu Montesanti

As causas evidenciadas como determinantes para que cientistas da NASA chegassem a tais conclusões foram, principalmente, duas: a insustentável super-exploração humana dos recursos do Planeta e a crescente desigualdade social, justamente as duas mais fortes características do capitalismo, inerentes à "lógica" deste sistema - que é ilógico, baseado na maximização do lucro, na competitividade e na lei do que mais pode materialmente, não no bem-estar, na solidariedade e na igualdade de direitos.

De acordo com o escritor esloveno Slavoj Žižek, o capitalismo só funciona à medida em que se fundamenta na existência de dois grupos sociais, o dos "incluídos" e o dos "excluídos. Se não fosse assim, isto é, se o sistema capitalista fosse benéfico às massas trabalhadoras, tratados como TPP, TISA e TTIP, estágios mais avançados das leis do mercado que submetem toda a sociedade e até recursos naturais como água e ar aos interesses financeiros (a ditadura do mercado), não estariam sendo discutidos secretamente pelos poucos tomadores de decisão internacionais. Porém, conforme dizia George Orwell, "enxergar o que está diante do nosso nariz exige um esforço constante".

Observou o mensal Tribuna Popular da Venezuela, em dezembro de 2014:

O capitalismo é baseado em crescer ou perder, o que significa dizer que se o capital não cresce, a burguesia não acumula. 
A questão é que o acúmulo do capital é limitado. Assim, a contradição que emana do capitalismo em sua fase imperialista é 
insolúvel em seu próprio marco. Disto se compreende a lógica depredatória e agressiva do capitalismo.

Disto se compreende que a lógica depredatória e agressiva deste sistema. E isso não é uma questão de maldade e nem de 
distúrbio mental de alguns capitalistas, mas a lógica do próprio capital, que na morte e no saqueio dos nossos povos cifra 
seu acúmulo. Mas, ainda assim, não pode solucionar sua contradição: a contradição que o desenvolve e o coloca em xeque.

Segundo reportagem do Instituto Humanitas Unisinos de 25 de junho de 2014, em entrevista com o economista francês Gaël Giraud:

Os mais ricos, independentemente dos países, são os que mais poluem o planeta causando, 
portanto, a destruição do clima e da biodiversidade, o que resulta em processo de desumanização.

Aponta Giraud: '(...) Na atualidade, uma pequena centena de pessoas no mundo possui riqueza equivalente à metade da humanidade. 
(...) A miséria afunda os mais pobres num inferno, e a ultra-riqueza isola os mais ricos num gueto separado do resto da humanidade, 
em pânico de perderem o seu conforto, incapazes de participar de um projeto histórico e político que ultrapasse as dimensões que 
são próximas da sua vida de luxo. Praticar justiça é uma libertação não somente das vítimas, mas também dos carrascos'.

Os carrascos mencionados por Giraud podem ser exemplificados no emblemático fato de que desde a crise financeira de 2008, mais acentuada do mundo pós-Grande Depressão de 1929 que jogou milhões de famílias às ruas em todo o mundo, apenas os bancos centrais de Estados Unidos, União Europeia e Inglaterra, já lucraram 9,8 trilhões de dólares até agosto de 2017; as próprias guerras são, historicamente, um grande negócio para as elites globais. Tudo isso é natural e inevitável no impiedoso sistema capitalista (leia 'Drones', Negócios & Genocídio: A Mais Nova Tecnologia da Guerra e o Bilionário Mercado das Mortes Sistemáticas).

"Se Conforme"

O sistema dominante disfarçado precariamente de democracia - na qual deveria prevalecer o bem-comum independente do poder aquisitivo de cada um - utiliza-se da ditadura do consumismo e das aparências que cria, diariamente nos laboratórios de publicidade e marketing, necessidades fúteis, concorrentes a serem superados ou até mesmo inimigos a serem combatidos a fim de gerar individualismo, anular ideais e senso cidadão de seres acríticos, conformistas, apáticos, compulsivos e dotados de fobias na busca desenfreada por preenchimento interior de acordo com as sutis imposições do marketing sobre sociedades homogêneas nunca satisfeitas, excludentes e intolerantes com as diferenças, mesmo aquelas que, simplesmente, estejam de alguma maneira fora do agressivo estereótipo preponderante.

Com isso tudo, subproduto do consumo alienado e da imposição de valores, as massas acabam facilmente manipuladas pelo sistema político e por sua porta-voz sustentada exatamente pelos "donos" desse sistema, usurpadores do poder: a grande mídia. Os cidadãos que se recusam a viver aprisionados desta maneira devem ser combatidos como ameaça, através dos mais diversos rótulos - ideólogos, rebeldes, baderneiros, subversivos, autoritários, paranoicos, etc.

Já o grande valor do indivíduo dentro desta lógica reside na capacidade de vender produtos (atendimento médico, aula, etc) a clientes (pacientes, alunos, etc) e no lucro que se gera através deles, não no caráter, na bagagem intelectual nem necessariamente na qualidade real dentro daquilo que se propõe a fazer.

Esta realidade permeia todos os segmentos de uma sociedade que rezam a excludente cartilha das leis do capital, onde "quem pode manda, e que tem juízo obedece cegamente", ou seja, as virtudes e o respeito são divisíveis, absolutamente relativos de acordo com os privilégios e a escassez das respectivas classes sociais. 

Cidadania acaba sendo sinônimo de consumir, ou seja, o indivíduo é reconhecido, passa a ter determinado grau de voz e sendo respeitado, mesmo nos direitos fundamentais, de acordo com sua capacidade de consumo. Assim, até a honra e o opróbrio são mercantilizados, tanto quanto a água e o ar que se respira. 

Pois é por obra e graça do sistema capitalista que grandes estúpidos, ao realizar atividades medíocres acabam aplaudidos alegremente pelas multidões pelo alto retorno financeiro, enquanto mentes brilhantes e trabalhos formidáveis podem ser "chutados" por todos os lados se os ganhos forem baixos (o sistema capitalista tende a premiar os medíocres, já que se apoia fundamentalmente neles para sobreviver), ou mesmo se essas mentes simplesmente não aparentarem ter e poder. Neste sistema competitivo por natureza em que vale a cavernosa lei do mais forte, é também preciso parecer ser e parecer ter.

Consequência natural disso são mentalidades que priorizam o aspecto financeiro em detrimento da prioridade no avanço humano e na sociedade, coletivamente, sendo, no sistema capitalista formador de imbecis por excelência, uma experiência cruel tentar-se viver na contra-mão dessa "lógica" do individualismo, e dos ganhos materiais acima de tudo. Se sua escolha profissional é inevitavelmente depreciada, se não se adequa aos aspectos financeiros impostos pelo mesquinho mercado, alimentado por sua mídia propagandista. 

Por exemplo, nobres professores de Artes, Música, Filosofia e Sociologia além dos socialmente importantíssimos e tão batalhadores lixeiros, que nos digam! É desnecessário mencionar que essa "lógica" capitalista precariza o sistema de ensino, cooperando na formação dos imbecis acima mencionados.

Disso também decorre a ausência de interesse coletivo e por aspectos gerais do mundo em que se vive, acomodando o indíviduo àquilo que diz respeito a temas mais intimamente ligados ao seu entorno, além de passividade desde a leitura de jornais até questões da própria vida cotidiana. É desta maneira que o capitalismo apoia-se, fundamentalmente, na ausência de senso crítico e de questionamento, enfim, no afamado comodismo que inclui preguiça intelectual. 

Escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm em Era dos Extremos - O Breve Século XX (informações, role a tela), que "a destruição do passado - o melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX", o qual terminou melancolicamente sob todos os aspectos: social, político e econômico. Pois tão certo quanto este fenômeno observado por Hobsbawm, incentivado pelo establishment, é a tentativa tenaz de aniquiliar qualquer alternativa ao status quo, usando geralmente como subterfúgio estigmatizações aos questionadores do sistema o que os permite sair, por cínicos flancos, do debate minimamente sério. 

Se mesmo no auge da Guerra Fria era um profundo contrassenso (com fins imperialistas de ambos os lados) afirmar que não havia alternativas ao artificial antagonismo criado entre os sistemas estadunidense e soviético (este último, um capitalismo de Estado que de socialista não tinha nada, a não ser o nome e, portanto, jamais alternativa real ao capitalismo liberal), tentar argumentar que a queda do Muro de Berlim em 1989 significou o fim da história, isto é, especulação (para não dizer excesso de estupidez) que alega que o mundo está fadado a viver para sempre sob o sistema capitalista, é a maior covardia intelectual contemporânea na defesa desesperada dos privilégios dos burocratas dominantes, para os quais a história e a capacidade humana de transformação cabem em uma caixinha de fósforos.

Voltou a estar em moda, da maneira mais patética revivendo os anos de maior tensão da Guerra Fria de péssima memória, o drama moral de Bem contra o Mal por parte dos mais fanáticos defensores do capitalismo que tacham de "terrorista", "pedófilo", "contra os valores morais e da família" qualquer indivíduo que "ouse" se dispor a pensar em uma perspectiva para o futuro, que vá além do capitalismo. Não é mera coincidência, por sua vez, que esses mesmos justiceiros histéricos que padecem de algo como esquizofrenia democrática, sejam os que mais se esquecem dos piores crimes contra a humanidade em nome do mesmo sistema que defendem. 

A desonestidade intelectual deste setor cegado e embebido em fanatismo, é incapaz de perceber que o "raciocínio" que apregoa que quem considera alternativas ao capitalismo está defendendo, por exemplo, o genocídio de Stalin ou regimes e atos condenáveis deste tipo, levaria a considerar, então, que quem defende tolerância religiosa em relação aos islamitas está defendendo organizações terroristas como Taliban, Estado Islamita e Al-Qaeda: um completo absurdo, evidentemente.

O falso moralismo, com forte apelo maniquesísta e sempre de mãos dadas com a agressividade e a mentira, costuma ser o principal refúgio dos espíritos retrógrados a fim de tentar disfarçar a ignorancia e o péssimo caráter de sua essência. Adolf Hitler, entre outros tantos crápulas capitalistas, usaram e abusaram deste artifício para impor seu império do medo e da opressão criando inimigos que, na grande maioria das vezes, não existia. Alguma semelhança com o Império capitalista de turno? Pois é.

Isso tudo para que as classes dominantes tenham garantidos seus privilégios, para que tenham, elas sim, total liberdade em usurpar um Estado cujas estruturas excludentes criadas por essas mesmas classes, possuem, estas sim, lógica bastante simples: excluir a maioria para assegurar o acúmulo de riquezas desta ínfima minoria já que, simples matemática, o excesso de alguns depende da escassez da multidão. 

Sintetizou bem a perversa e básica equação capitalista Terry Boyland, proprietário da empresa CPQi, prestadora de serviços de tecnologia a bancos na América Latina, na reunião da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos em Nova York, no início de outubro de 2017: "Então quer dizer que ainda não vamos poder reduzir salários? Isso é a coisa mais anticapitalista que existe". 

Boyland expôs, em poucas palavras, que o capitalismo é a liberdade do alto empresariado e dos políticos, garante caminho livre para a usurpação do poder sobre massas oprimidas, escravas do sistema - paradoxalmente, as mesmas que o sustentam.

Tal perversidade, estrutural do sistema capitalista, explica porque estudos científicos nos Estados Unidos de 2011 constataram que é quatro vezes mais comum encontrar psicopatas nas empresas, que na população em geral. Segundo reportagem da revista Super Interessante à época intitulada Psicopatas S.A., até 3,9% dos executivos de empresas poderiam ser psicopatas naquele ano. 

"Eles são capazes de apunhalar empregados e clientes pelas costas, contar mentiras premeditadas, arruinar colegas poderosos, fraudar a contabilidade e eliminar provas para conseguir o que querem", disse à Super Interessante Martha Stout, psiquiatra da Escola Médica de Harvard por 25 anos e autora do livro Meu Vizinho É um Psicopata.

Outra natural e destrutiva consequência do capitalismo é a concentração de propriedades, gerando o que pode ser denominado de ditadura do mercado. Dez empresas transnacionais controlam praticamente tudo o que nos serve como alimento não nos proporcionando opções, enquanto permite que os detentores de todo esse poder simplesmente decidam o que e como são processados os produtos mais básicos para a nossa existência. É desnecessário dizer que tais empresários acabam também exercendo domínio sobre a tal "democracia" representativa, vigente nos países capitalistas.

No início de 2014, um estudo da Oxfam International concluiu que as 85 pessoas mais ricas do mundo concentravam a fortuna equivalente aos 3,5 bilhões dos indivíduos mais pobres do planeta, sendo que 1% da população mundial detinha a metade da riqueza produzida, ou seja, 110 trilhões de dólares. Esse processo apenas se agrava, ano após ano no sistema capitalista, por si só incapaz de distribuir riqueza e gerar justiça social.

A realidade é que o sistema vigente, baseado em individualismo, constante competitividade e acúmulo ao invés de justiça social e solidaredade, não apenas incentiva como requer que indivíduos possuam este péssimo caráter observado pela psiquiatra norte-americana. Uma pova prática disso pode ser tirada por qualquer pessoa que ouse, em entrevista profissional, dizer que seu grande objetivo de vida não é ganhar muito dinheiro, mas ser feliz; que não almeja adquirir um grande carro, mas que um Fusca ou uma bicicleta já é suficiente; que não se simpatiza com a competição entre colegas, mas com a solidariedade; que não opta por mentir se necessário para vender, mas em ser honesto no ato da venda dizendo a mais absoluta verdade sobre o(s) produto(s) a ser(em) comercializado(s).

"Celulares São Alugados para 'Ostentação'", era o título de reportagem do jornal O Globo em 18 de outubro de 2014. "'Ganho R$ 2 mil por Mês', Diz Editor que Aluga iPhones para 'Ostentação'", trazia o subtítulo da reportagem, que seguia assim: "Marco Aurélio Costa aluga celulares por até R$ 170 dependendo do modelo. Editor de imagens já possui cinco smartphones da Apple para alugar em Natal". É desnecessário dizer alguma coisa sobre mais este subproduto do capitalismo, idiotizador por excelência.

Os defensores desse sistema têm como principal argumento o precário subterfúgio regressivo - e apoiado exatamente no comodismo, mais acima abordado - que afirma que o ser humano e o mundo são "assim mesmo", ou seja, o homem é egoísta por natureza e vale a lei do mais forte, geralmente tendo como exemplo, para dar um toque de naturalismo e talvez de ingenuidade, o fato de alguns animais se alimentarem de outros: "é a lei da vida". Alguns "mais religiosos" apontam, "sabiamente" e "cheios de fé", que Deus quis assim - "do contrário, não seria assim", palram.

Os "mais religiosos", por sua vez, marcando o histórico atraso intelectual deste segmento costumam dizer (justo eles, "cheios de fé" que reivindicam ser!) que "essa coisa de mundo solidário e igualitário em que não haja necessidades, é lá para o Céu", ironicamente esbanjando ceticismo ao mesmo tempo que trazem implícito, neste argumento, o reconhecimento de que o capitalismo é um sistema fracassado já que não prioriza o bem-estar dos habitantes desta terra. 

Para parte deste setor, que não admite questionamentos (outra desalentadora contradição, característica que também os marca), um sistema baseado nos princípios de igualdade entre os seres humanos e na preservação ambiental seria impositor, mas não: seus impositores de "cabrestos ungidos" sim, é que são impostores. 

Para nem mencionar estigmas espalhados por grande parte dos "donos dos templos, que impõem na cabeça de seus súditos que socialistas são todos pedófilos, maconheiros, até terroristas e outras imbecilidades deste tipo na ausência de argumentos em defesa de um sistema capitalista opressor por natureza que, conforme já obsevado, só pode ser defendido baseado em ataques mentirosos e toda sorte de imbecilidades, à estatura exata do próprio capitalismo e dos mesquinhos interesses pessoais por que advogam.

Já os mais "técnicos" saem-se com ilusões - baseadas na baixa estatura intelectual, outro fator já observado como esencial neste sistema - do tipo, "todos têm a chance de se tornar milionários" no sistema capitalista apresentado como "um mundo de possibilidades", o qual não precisa ser pensado muito profundamente para que seja constatado exatamente o inverso disso: vale e pode (inclusive moralmente) quem tem e, tão importante quanto isso, quem aparenta ter.

Do contrário, não se terá a possibilidade sequer de se mover do bairro de Santo Amaro ao Parque do Ibirapuera em São Paulo - ou se se conseguir chegar lá, ainda que a pé, o pior ainda estará por vir: no maior parque da América Latina, o cidadão comum das classes menos favorecidas ou que aparente certa simplicidade, terá de vencer a agressiva exclusão social, com todo o mal-estar bem conhecido que envolve esse ambiente no que deveria ser um período de lazer; e se for o caso, na tentativa de vender algo como artesanato ou uma série de livros para sobreviver, sofrerá forte repressão policial, apreensão dos produtos além da própria ridicularização societária, apenas para citar alguns exemplos menos dramáticos deste "mundo de possibilidades" em que, "dependendo apenas do esforço, qualquer um pode se tornar milionário".

Assim, em nome do excesso nas mãos de algumas dúzias de famílias nacionais e do 1% mundial, devemos todos nos conformar com o status quo opressor sobre as miseráveis maiorias, sem nenhuma perspectiva de mudança como se todo ser humano fosse melancólico como eles que inclusive primam, segundo imposição também da ditadura do capital e da informação rendida às "leis do mercado", pela glorificação dos iguais não admitindo diferenças, questionamentos nem muito menos afirmação e avanço cultural (esta, também negociável no sistema capitalista).

O capitalismo é inimigo declarado da felicidade
Jorge Riechmann, no livro ¿Cómo Vivir?


Devido ao "raciocínio" dos aiatolás do capital que apostam na ingenuidade alheia e extravasam a estupidez, povos e culturas milenares têm sido completamente dizimados ao longo da impiedosa história, ditada pelos donos e usurpadores do poder em nome de um suposto progresso financeiro e tecnológico que, à frente do bem comum, trouxe o mundo a este estado caótico onde se multiplicam velozmente fome, doenças facilmente tratáveis, violência, roubalheira indiscriminada, guerras, degradação ambiental, extinção de espécies e, logo, da espécie humana pela própria espécie.

Mesmo um sistema capitalista reformado através do neodesenvolvimentismo, que apregoa a expansão do agronegócio e de projetos energéticos apoiada na intensiva extração/mercantilização dos recursos naturais, tem se mostrado inviável: produção e crescimento econômico contínuos não podem ser sustentados pela natureza; o sistema capitalista e seus burros estão, literalmente, dando n'água que deverá ser o maior motivo de guerras no futuro próximo, certamente bem mais grave à humanidade e ao ecossistema que as corridas pelo ouro europeia e norte-americana, que dizimou covardemente povos americanos originários em nome do "progresso mercantilista" que não traz felicidade genuína, satisfação interior, progresso humano. 

Sem capitalismo, sem a exploração do trabalho assalariado e o homem "cobaia" ou escravo do progresso tecnológico, grandes avanços foram conquistados inclusive pelos índios no campo das ciências, da medicina e da astronomia - é evidente que os livros de História elaborados pelos donos do poder e a publicidade a serviço do capital, não contam nada disso. 

Enfim, as evidências mostram claramente que sem capitalismo o mundo seria bem mais satisfatório hoje, a vida seria plena para quem realmente quisesse vivê-la. Apenas um sistema perverso como este seria capaz de tornar regiões outrora as mais ricas da América Latina (tais como o Nordeste brasileiro, Potosi na Bolívia e partes de Colômbia, Peru e América Central), exatamente nas mais pobres da região hoje devido, sobretudo, ao uso intensivo da terra, ao extrativismo e à mercantilização dos recursos naturais - além, é claro, do extermínio dos povos originários em nome do "progresso" e da competitividade que se apoia na lei do mais forte, essência do capitalismo. 

Dentre estes casos de povos ricos levados à miséria pelos donos do capital internacional, merece destaque o Paraguai que, em meados do século XIX, emergia como grande potência latino-americana do ponto de vista econômico e cultural: auto-suficiente em produção e estável politicamente, a única nação (até hoje) bilíngue de continente latino-americano era absolutamente independente, e enviava anualmente centenas de jovens às melhores universidades europeias, fato inaceitável ao mesmo Império britânico que, décadas antes, havia promovido a "independência" da região em busca da ampliação de seu mercado, de maior exploração da mão-de-obra e das riquezas naturais já sem os fantoches portugueses, e os moribundos imperialistas espanhois. 

Pois a Inglaterra transformou o líder guarani Francisco Solano López no bandido, ditador e expansionista obsessivo que jamais fora. Baseada nisso, a potência europeia incitou Argentina, Brasil e Uruguai a invadir e dizimar o vizinho rioplatense, tornando-o um dos mais pobres do continente e até do mundo após seis anos de genocídio (1864-1870), apesar da riqueza natural e cultural paraguaia que, em parte, sobrevive até os dias de hoje mesmo tendo o Paraguai sido, há um século e meio, literal e impiedosamente jogado ao chão: 94% dos cidadãos dos sexo masculino foram assassinados. Quando não havia mais homens adultos para combater, os poucos meninos que restavam vivos dispuseram-se a defender o pouco que sobrava do seu povo e foram, voluntariamente e praticamente sem armas, ao campo de batalha, niños combatientes igualmente mortos pela Tríplice Aliança apenas para resumir o que foi o maior genocídio da história da "América independente", em nome do "progresso", i. e., interesses do capital (leia resenha do livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, do historiador brasileiro José Julio Chiavenato, obra tão indispensável quanto proibida na Biblioteca Nacional do Brasil e no conteúdo dos vestibulares, País afora).

O mesmo ocorre no naturalmente rico continente africano, com muito mais recursos naturais que Europa, América do Norte e Japão, porém transformado em terra miserável devido aos seculares interesses do capital naquela região: concorrência, privatizações inclusive dos recursos naturais, e toda a exploração e pilhagem (interna e, sobretudo, estrangeira) decorrentes do sistema de livre-mercado. E mais um fato ironicamente emblemático do capitalismo: os países da África mais ricos em minérios são exatamente os mais pobres inclusive em democracia, tais como Angola, Libéria, Congo, Costa do Marfim, Ruanda e Serra Leoa, entre outros [leia Africa Is Not Poor, We Are Stealing Its Wealth (A África Não É Pobre, Nós Estamos Roubando Sua Riqueza) de Nick Dearden, em Al-Jazeera do Qatar]. 

Em tempos de estágio avançado deste sistema podre que coloca seu desenvolvimento, os interesses do capital à frente do bem-estar e do desenvolvimento humano, ter e receber o mínimo de dignidade são o mais árduo desafio - para algumas bilhões de pessoas em todo o mundo, missão impossível.

Jesus foi o primeiro socialista: dividiu o pão e o vinho; Judas foi o primeiro capitalista: vendeu Jesus por trinta moedas
Hugo Chávez

Disse o papa Francisco em entrevista ao jornal italiano La Repubblica no dia 11 de novembro de 2016: "São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade".

Quando fez tal afirmação, o papa certamente não tinha em mente o capitalismo de Estado soviético imperialista, tirânico muito mal chamado de socialista, mas sim, por exemplo, a organização social dos povos originários da região hoje conhecida como América Latina, baseada na inclusão e no bem-estar acima de tudo: do indivíduo, da família, da comunidade, dos animais e da terra.

Em O Mal-Estar na Civilização (1930), o psicanalista Sigmund Freud anteviu que o capitalismo de Estado soviético, mal classificado de comunismo, não traria bem-estar à sociedade russa e a seus futuros Estados-satélites, muito pelo contrário:

As premissas psicológicas nas quais o sistema comunista está baseado mantêm ilusões insustentáveis. A agressividade 
humana não foi alterada nos seus fundamentos naturais e nesse processo ela será provavelmente enviada a novas 
áreas de conflito social. Só podemos nos preocupar com o que os soviéticos farão depois de se livrar dos burgueses.


No jornal alemão Neue Zeit (Novo Tempo), em 1923 Rosa Luxemburgo previu o mesmo ao condenar o caráter "ditadorial", as "sanções draconianas" e o "terror" praticado por líderes da Revolução Russa, incluindo Lenin e Stalin: "A única via que conduz à renovação é a própria escola da vida pública, democracia muito ampla e sem a menor limitação, a opinião pública". É interessante atentar que Rosa apontou as experiências devidamente adquiridas na vida cotidiana como de maior valor ao cidadão, em relação ao conhecimento teórico.

Sobre a velha aliança Estado-religião e a despolitização como suporte à opressão perpetrada pelas classes dominantes, vale observar que através do Relatório Rockefeller de 1975 substituiu-se na América Latina a Igreja Católica - parceira já não muito confiável - através da criação e financiamento de seitas evangélicas pela CIA, pelo pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e ONGs de fachada a fim de combater ideais socialistas na América Latina em defesa do imperialismo norte-americano. 

Exercendo lavagem cerebral, manipulando, dominando e acumulando riquezas, tais seitas possuem a acentuada capacidade de penetrar em setores populares que determinados movimentos não conseguem alcançar, sendo que muitas delas têm estado envolvidas até no tráfico de armas por meio de lideres supostamente religiosos de péssimo nível intelectual, o que pode muito bem explicar o "enigmático fenômeno" de "igrejas" multimilionárias e, automaticamente, a própria multiplicação de armamentos em territórios nacionais. Já houve denúncias por parte de indignado pastor evangélico brasileiro, de que alguns colegas participam da lavagem de dinheiro de políticos nacionais e do narcotráfico).

Os autores do relatório, arquitetado e financiado pela Fundação Rockefeller que, historicamente, promove políticas de dominação e exploração global através sobretudo da lavagem cerebral induzindo medo às massas, reclamaram, então, do que denominaram "excesso de democracia" alegando que este sistema só funciona se houver apatia e desinteresse societário. Em outras palavras: o capitalismo apenas se sustenta apoiado na alienação e despolitização dos indivíduos, na retirada de seu senso de cidadania e da noção de sua posição no mundo.

Pois WikiLeaks liberou telegrama secreto revelando que realmente existe uma organização secreta da qual a família Rockefeller é uma das 13 dinastias Illuminati, atuando como governo global nas sombras e estreitamente ligada ao governo dos EUA; o próprio Federal Reserve, banco central norte-americano, pertence a oito famílias-membro dos Illuminatientre elas os próprios Rockefeller.

Opor-se ao monoteísmo do mercado vai muito além de ideologia: cosmovisão, trata-se de questão de sobrevivência. A felicidade e a vida no planeta dependem de um outro mundo, possível, onde prevaleçam cooperação, valorização às diferenças (sejam elas quais forem, desde que não firam o espaço nem a liberdade do outro) e justiça social. 

Porém, se neste sistema "de mentiras universais falar a verdade é um ato revolucionário", conforme dizia o jornalista inglês George Orwell (1903-1950), os setores reacionários contemporâneos nesta era da informação global em tempo real têm estado tão transtornados com uma maior conscientização das sociedades mundiais a ponto de, com suas limitações intelectuais e culturais, reeditar os piores momentos da Guerra Fria criando um ambiente hostil, guerra psicológica mais baixa ao qualificar histericamente opositores do capitalismo de terroristas, apátridas que desejam impor o vermelho nas respectivas bandeiras nacionais e outras imbecilidades deste tipo, já não faltando mais nada para que, igualmente, tachem esquizofrenicamente de terrorista a quem alerte que recursos naturais como água, fauna e flora são direito de todos, e não bens de consumo como tudo é naturalmente transformado no sistema capitalista.

No caso particular do Brasil, altamente despolitizado [para regozijo dos Rockefeller e também por (ir)responsabilidade dos setores pateticamente autodenominados progressistas], a maior desgraça é que se conseguiu transformar até os pobres em seres reacionários e, rezando fielmente a mesquinha cartilha das classes mais abastadas, sem o menor senso de cidadania. Mas outro Brasil também é possível.

"A prática do socialismo exige uma transformação completa no espírito das massas degradadas por séculos de dominação da classe burguesa, instintos sociais em vez de instintos egoístas, iniciativa das massas em vez da inércia, idealismo que supere todos os sofrimentos"Rosa Luxemburgo.

 


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