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RDP Coréia: Entrevista com Peter Kuznick

25.08.2017
 
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Tensão na Península da Coreia Eleva Risco de Confronto Nuclear: Entrevista com Peter Kuznick - O renomado historiador norte-americano e especialista nuclear Peter Kuznick comenta, nesta entrevista, a crescente tensão na Península da Coreia, e os riscos de guerra nuclear entre Estados Unidos e Coréia do Norte. 

Na semana passada, em 10 de agosto Trump alertou que suas declarações anteriores de que responderia com "fúria e fogo" a Pyongyang um dia antes, não haviam sido suficientemente fortes: acentuou o tom afirmando que se Kim Jong-un, ditador norte-coreano, atacar o território norte-americano de Guam no Oceano Pacífico, "acontecerá algo que ninguém jamais viu antes", sem especificar seus planos.

Enquanto aponta que não há solução militar para a questão, Peter Kuznick observa que ambos os lados se beneficiam com um longo conflito, política e economicamente. "O perigo existe quando um lado leva o outro a blefar". Para Kuznick, o risco de guerra nuclear é muito alto: "Quando há imbecis como Trump e [senador] Graham que não parecem valorizar a vida humana, agindo como palhaços valentõess, a ameaça de guerra torna-se real". 

Este crescente risco de ataque com bomas atômicas de agora, o próprio especialista nuclear já havia advertido que ocorreria com o novo regime de Trump, em entrevista de dezembro do ano passado intitulada Trump, Relações EUA-Rússia e Risco de Guerra Nuclear (role a tela).

Peter Kuznick é diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University em Washington D.C., e autor de vários livros; o pesquisador é co-autor, com Oliver Stone, de A História Não Contada dos Estados Unidos.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Edu Montesanti: The Washington Post informou na quinta-feira (10): "Cheong Seong-chang, especialista em liderança do Instituto Sejong do Sul de tendências de esquerda da Coreia do Norte, concordou com Madden que Kim não quer um real conflito com os Estados Unidos. 'Os norte-coreanos não estão levando a sério [ameaças de Trump]. Eles estão apontando que Trump diz essas coisas porque ainda não 'consolidou seu poder', disse ele". 

Michel Chossudovski disse pessoalmente a mim, no último dia 11, que os norte-americanos têm que pensar "quem é uma ameaça real para o mundo? É Washington", enquanto o senhor mesmo, professor Kuznick, me apontou no ano passado (entrevista A História Não Contada dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos) que "o que Kennedy e Khrushchev aprenderam com a crise dos mísseis cubanos é que, uma vez que uma crise se desenvolve, ela rapidamente foge do controle. Apesar de ambos terem tentado desesperadamente evitar uma guerra nuclear em 1962, perceberam que perderam o controle ". Já o estadunidense Boletim dos Cientistas Atômicos (Bulletin of the Atomic Scientists) publicou em janeiro, no anual Cronômetro do Dia do Juízo Final, a iminência de confronto nuclear em "2,5 minutos para a meia-noite" [início de uma guerra nuclear], quando o presidente Trump assumiu o poder: "As deliberações do cronômetro deste ano sentiram uma situação mais urgente que o habitual".

Paul Tonnsson observou recentemente na Al-Jazeera três cenários de forma como a crise coreana pode se desenvolver: "Guerra, crise permanente ou acordo negociado. O primeiro é menos provável, o segundo muito provável, e o terceiro mais provável que a guerra". Quais cenários o senhor enxerga para como a crescente tensão norte-americana com os norte-coreanos pode se desenvolver em um futuro próximo, professor Kuznick?

Peter Kuznick:
 O professor Tonnsson está correto. Não existe solução militar. Por outro lado, ambos os lados beneficiam-se de um conflito prolongado.

O regime da Coreia do Norte precisa de uma ameaça externa para justificar sua existência, e sufocar uma população cada vez mais consciente do quanto o regime é ruim. O padrão de vida dos norte-coreanos é inferior a 5% dos sul-coreanos. Isso é assustador. Na década de 1970, a economia da Coréia do Norte estava superando efetivamente à do vizinho do sul.

Kim Jong-un é capaz de aliviar a ira e a privação do povo norte-coreano culpando os Estados Unidos pelo isolamento e desespero econômico, e pela ameaça que representa à Coréia do Norte.

E há bastante verdade nessa explicação a fim de justificar a existência contínua do regime corrupto da Coréia do Norte, e a lealdade de grande parte da população.

Trump também precisa de uma ameaça externa para justificar o aumento maciço do seu regime em gastos militares, além de cortes inconciliáveis em programas domésticos e gastos sociais.

Os regimes, neste sentido, são bastante semelhantes. Ambos priorizam a própria perpetuação, e o fortalecimento de suas forças militares sobre as necessidades do povo local. Ambos têm repressores perigosos e tirânicos em seu governo. Ambos acolhem o estado de crise, e pensam que podem impor aos seus inimigos a submissão.

O perigo existe quando um lado leva o outro a blefar. Portanto, crise prolongada é o cenário mais provável. Também serve a Trump como distração dos escândalos que envolvem sua administração.

Um acordo negociado é o que quase todos no mundo esperam, mas é improvável nas circunstâncias atuais. Todos sabemos o que tal acordo implicaria. A China vem promovendo um acordo negociado há anos, assim como a Rússia. A Coréia do Norte repetidamente indicou que pode estar pronta para aceitar um acordo. Os Estados Unidos recusaram.

Trump mantém, publicamente, a ilusão de que a Coreia do Norte vai abandonar o programa nuclear. O Norte efetivamente congelou seus programas nucleares e de mísseis de 1994 até 2002, quando George Bush, depois de suspender o acordo negociado por Clinton, acusou a Coreia do Norte de fazer parte do "Eixo do Mal" junto de Irã e Iraque.

Desde então, os Kim entenderam que a única garantia de que os Estados Unidos não derrubariam o governo norte-coreano seria através da capacidade de Pyongyang de atacar Seul, e atingiu as bases dos Estados Unidos com suas 28.500 tropas norte-americanas, além de poder dizimar as populações civis da Coréia do Sul e os 200 mil norte-americanos que vivem no Sul.

Agora o Norte adicionou sua crescente capacidade nuclear, que não abandonará sob nenhuma circunstância. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, o Norte emitiu uma declaração dizendo que o erro de Saddam Hussein foi não ter armazenado armas nucleares, o que teria impedido os Estados Unidos de invadir seu país.

Em seguida, a derrubada do regime de Gaddafi na Líbia, após ter desistido das Armas de Destruição em Massa, levou Pyongyang a considerar o que aconteceria ao governo norte-coreano se baixasse a guarda.

Então, embora eu adorasse ver uma Península Coreana desnuclearizada, isso levaria um processo de anos de conquista da confiança e de amizade para que se tornasse possível. Tal fato torna uma crise prolongada o cenário mais provável, mas muito perigoso e instável que, de repente, pode aumentar para além do controle.

Recentemente, a inteligência dos Estados Unidos estimou que o Norte pode ter até 60 armas nucleares, prontas para ser utilizadas. Acredito que esse número é altamente exagerado. E sabemos que os Estados Unidos têm muito mais do isso - cerca de sete mil.

Os Estados Unidos e a Coreia do Sul podem derrotar a Coréia do Norte sem o uso de armas nucleares. Uma Coreia do Norte desesperada poderia recorrer ao uso de armas nucleares se a derrota fosse iminente, mesmo sabendo que tal ação poderia ser suicida. Como responderiam os Estados Unidos? Como a China responderia? Se houver um grande revide nuclear, estaremos todos perdidos. 

Sabemos que as últimas descobertas científicas indicam que, mesmo uma guerra nuclear limitada entre Índia e Paquistão, em que 100 armas nucleares do tamanho da de Hiroshima relativamente pequenas fossem detonadas, causariam um inverno nuclear parcial resultando em temperaturas em declínio, e mortes de até duas bilhões de pessoas .

Eu me arrepio em pensar o que poderia acontecer em uma guerra nuclear entre Estados Unidos e Coreia do Norte.


O que o Post e diversos especialistas dizem é que "Kim Jong quer permanecer no poder - e isso é um argumento contra a guerra nuclear" (título da reportagem). Os políticos dos Estados Unidos pedem ação militar contra a Coreia do Norte, aparentemente apoiados pela grande mídia - como sempre. 

O senhor concorda com o Post? Do ponto de vista da Casa Branca, qual deveria ser a atitude da administração de Trump - que parece estar em desacordo entre discursos contraditórios, dia após dia - em relação a Pyongyang, considerando que a administração de Obama sancionou o Norte sem nenhum resultado prático - pelo contrário, Pyongyang tem desenvolvido intensamente seu arsenal nuclear?


Trump deve tomar medidas imediatas para desarmar a crise. É o momento da cúpula de acerto das diferenças. O regime norte-coreano pode ser odioso, mas a melhor maneira de ajudar as pessoas da Coreia do Norte é estabelecer relações diplomáticas e começar a fornecer ajuda. Isso também é do interesse das pessoas de Japão, Coréia do Sul, Guam e Estados Unidos.

Os Estados Unidos também devem adotar uma política da não utilização inicial, e começar a cumprir o compromisso assumido nos termos do artigo 6º do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares para colocar um fim em seu arsenal nuclear. Ele tem dado um novo impulso no âmbito do Tratado de Proibição Nuclear aprovado pela Assembléia Geral da ONU, em 7 de julho.

Se os Estados Unidos levarem a cabo um tratado para acabar oficialmente com a Guerra da Coreia, abandona uma política de mudança de regime na Coreia do Norte e deixa de realizar exercícios militares provocativos na Coreia do Sul, pode aliviar drasticamente as tensões e começar a construir a confiança que, espero, algum dia levará a relações pacíficas e ao abandono de armas nucleares.

A principal prioridade do regime de Kim é a auto-preservação. Não iniciará uma guerra nuclear, sabendo que com isso seria aniquilado. No entanto, a perspectiva de que isso possa se transformar em uma guerra indesejada permanece intoleravelmente alta à medida que a guerra de ameaças e contra-ameaças entre os dois perigosos tiranos aumenta, e mesmo uma guerra convencional poderia deixar mais de um milhão de mortos.

Talvez seja hora de voltar a mover os ponteiros do Cronômetro do Dia do Juízo Final para mais próximo da meia-noite. Esperemos também que isso sirva como um alerta para alertar a comunidade internacional para a necessidade desesperada de implementar o novo tratado de proibição nuclear da ONU, antes que a catástrofe inimaginável final ocorra.

Como Kennedy e Khrushchev fizeram em 1962 e 1963, vamos trazer algo positivo da ameaça aterrorizante que agora nos confronta. Mas esses eram tempos diferentes. Imagine o que restava do mundo hoje se fosse Donald Trump e Kim Jong-un confrontarem-se em outubro de 1962, em vez de Kennedy e Khrushchev.

No início deste mês, o secretário de Estado Rex Tillerson disse que "o governo dos EUA não está buscando uma mudança de regime na Coreia do Norte", acrescentando que os Estados Unidos desejariam diálogo, em algum momento. Na semana passada, o presidente Trump afirmou que Washington reagiria com "fúria e fogo" contra Pyongyang.

A mudança de posição é uma maneira de não evidenciar fraqueza do regime norte-americano? A mensagem "pacífica" poderia ser entendida pelo regime de Trump, dentro de uma perspectiva agora supostamente arrependida da Casa Branca, como uma vitória do regime norte-coreano em pleno desenvolvimento de armas nucleares para proteger-se?

Neste ponto, acho que não há muito a ganhar ao avaliar se os Estados Unidos ou a Coreia do Norte são a maior ameaça para o mundo. A Coreia do Norte é uma ameaça regional com capacidades globais crescentes. Estados Unidos é e continua sendo uma ameaça global.

Donald Trump tem poder de veto sobre a continuação da existência da espécie humana. Felizmente, Kim Jong-un ainda não conseguiu essa capacidade. Mas tanto os Estados Unidos quanto a Coreia do Norte precisam ser afastados do precipício de um confronto com implicações mortais.

Lindsey Graham, senador [republicano] extremamente militarista da Carolina do Sul, consola-se no fato de que, em caso de guerra, a maioria da matança ocorreria na Coreia. Ele comentou [no início de agosto]: "Se houver guerra para detê-los [os norte-coreanos], será por lá [na Península da Coreia]. Se milhares morrerem, morrerão por lá, não morrerão aqui e [o presidente Donald Trump] disse isso na minha cara... Estou dizendo [opções militares], são inevitáveis se a Coreia do Norte continuar [desenvolvendo seu arsenal nuclear]".

Os coreanos não se esqueceram do genocídio dos seus povos, tanto o Norte quanto o Sul durante a Guerra da Coreia [1950-53]. Eles entendem as apostas.

No entanto, quando há imbecis como Trump e Graham que não parecem valorizar a vida humana, agindo como palhaços valentõess, a ameaça de guerra torna-se real. Este é, particularmente, o caso quando os líderes da Coreia do Norte agem de modo semelhante ao espalhar ameaças enormes e vazias.

Portanto, apesar de os Estados Unidos terem sido uma ameaça maior para a paz mundial, o fato de termos dois líderes instáveis, impetuosos e imaturos envolvidos em uma combinação de arraso armado de armas nucleares, não nos dá motivos para estar em paz.

Edu Montesanti

www.edumontesanti.skyrock.com 

http://www.telesurtv.net/english/opinion/The-North-Korea-Conflict--Who-Will-Call-the-First-Bluff-20170814-0019.html#=_=

 


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