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O fustigo do cavalo morto, ou a vingança de Putin

25.08.2008
 
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O fustigo do cavalo morto, ou a vingança de Putin

(Roma) O velho adágio segundo o qual o tempo é o grande igualador encontra aplicação, de modo especial, nos Estados Unidos totalitários contemporâneos. Diferentemente do velho-cavalo-espancado-até-cair-morto, nosso povo é espancado de maneira tão horrendamente clínica que nem percebe estar sendo desancado. Embora cônscios de sua mortalidade, seres humanos brandamente fustigados vieram a parecer o cavalo chicoteado nisto, em que não parecem perceber que estão morrendo em conseqüência do derreamento. O problema é que há pouca ou nenhuma opinião pública. E a memória coletiva morta.

Um segundo apotegma relativo a cavalos, aquele segundo o qual pode-se levar o cavalo até a água, mas não se pode obrigá-lo a beber, já não se aplica mais aos estadunidenses. Bebemos e bebemos e bebemos sem sequer um olhar para cima dirigido a nossos atormentadores. Sem um til de curiosidade acerca de quem são eles e o que estão fazendo a nós.

Vladimir Putin terá sem dúvida ficado pasmado com como a Geórgia e seus titereiros estadunidenses caíram como patinhos na armadilha caucasiana. Ingenuamente, inconseqüentemente, Saakashvili, líder títere dos Estados Unidos na Geórgia, enviou suas tropas armadas pelos Estados Unidos à Ossétia do Sul atirando violentamente em qualquer coisa que se movesse e desafiando Moscou em seu território próprio.

 O que poderia ser mais louco do que isso? Naquele primeiro dia a mídia européia mostrou a "invasão" georgiana da Ossétia do Sul, do mesmo modo que, no dia SEGUINTE, mostrou a esmagadora reação russa que reduziu a Geórgia à realidade virtual do estado procurador dos Estados Unidos no qual se tornou.

Pela primeira vez desde o colapso da URSS, a Rússia lançou-se à ofensiva. Sua vitória, consumada em poucas horas, reescreveu o equilíbrio global do poder. Não obstante, o público estadunidense sabe pouco ou nada desses eventos que abalam os alicerces do mundo. O New York Times e o Washington Post, a CNN e a Fox, só falam da invasão russa da Geórgia, um país de vitivinicultores e operadores de turismo. Será que o povo estadunidense nunca se pergunta por que essa súbita irrupção de operações militares na pacífica Geórgia que subitamente resolveu desafiar a poderosa Rússia e invadir territórios habitados por cidadãos russos? Será que as pessoas não se indagam por que e como os tanques russos não estão com pressa nenhuma de abandonar a "independente" Geórgia?

O resultado desses eventos é que duas décadas depois da queda da Rússia Soviética, o coração da Europa — refiro-me a Alemanha, França e Itália — a despeito de suas advertências a Moscou para que se retire nunca esteve tão próximo da Rússia. Se o mais pró-estadundense líder europeu, o Premie da Itália, Sílvio Berlusconi, tiver que escolher entre Bush e Putin, infalivelmente escolherá Putin. Esse coração europeu não está a fim de construir a aliança anti-russa com a qual Bush e Cheney sonharam. Washington não entende o fato elementar de que a Rússia é uma parte essencial da Europa a qual está, hoje, transbordante de turistas russos substituindo, em muitos lugares, como em Veneza, os estadunidenses ausentes.

Talvez essa desagradável combinação de eventos explique por que o New York Times e o Washington Post, a CNN e a Fox, não tenham contado às pessoas a realidade da ação militar de dois dias — no primeiro dia, a incursão georgiana na Ossétia do Sul, e no segundo a esmagadora resposta russa. Era a guerra! Em vez disso, a mídia dos Estados Unidos descreveu, em linguagem de Guerra Fria, a ficção de uma invasão imperialista não provocada russa da pacífica Geórgia.

Só os Estados Unidos, seus pequeninos aliados da região do Báltico, a Geórgia, em certa medida a Ucrânia e a dúctil direitista Polônia acreditavam que a Rússia não faria nada. A Polônia e a República Tcheca, e muito provavelmente os estados bálticos também, hoje ainda desejosos de empurrar as fronteiras russas de volta aos portões de Moscou, logo terão que enfrentar a realidade de sua história européia e de seu lugar correto dentro dela. Logo compreenderão que o futuro deles é a Europa, não os Estados Unidos, que os consideram território para instalações militares.

A ruptura entre o coração da Europa e esses satélites estadunidenses temporários desavém a OTAN, a União Européia e o Ocidente em geral. Aproxima, porém, o coração da Europa e a Rússia. A "guerra" na Geórgia torna essa tendência explícita. Logo que a vitória de Moscou tornou-se evidente, o presidente francês Sarkozy, também atual Presidente rotativo da União Européia, voou para Moscou, em seguida para Tbilisi, como representante da Europa. Não mediador da paz, sua missão era, com efeito, ratificar a vitória russa, reconhecer a esfera de influência da Rússia na região caucasiana e selar a derrota dos Estados Unidos. A Geórgia agora pode esquecer a Ossétia do Sul e a Abcásia, bem como suas ambições de tornar-se membro da OTAN. Afinal de contas, quem é que deseja um satélite dos Estados Unidos na OTAN?

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