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Intervencionismo: EUA querem influenciar a reforma política do Brasil

25.07.2008
 
Intervencionismo: EUA querem influenciar a reforma política do Brasil

A Folha de S. Paulo revelou nesta terça-feira que em 2005 a United States Agency for International Development (USAID), agência estadunidense ligada ao Departamento de Estado, promoveu no Congresso brasileiro um seminário sobre a reforma política brasileira, com a presença de palestrantes estrangeiros. O objetivo, segundo documentos passados à Folha era fazer o seminário coincidir com a véspera da discussão do tema no Legislativo brasileiro e um ano antes da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O evento foi realizado graças a uma parceria com a Universidade Candido Mendes, do Rio de Janeiro.

Dois pontos pareciam preocupar mais os proponentes do seminário: a profusão de partidos pequenos e a infidelidade partidária, que avaliavam ocorrer com mais freqüência nos partidos de direita. E uma providência: “A cobertura máxima da imprensa, com o objetivo de instruir a imprensa política sobre as questões”. O sucesso do programa seria avaliado por sua "influência no debate nacional". Um cuidado: a "nacionalização" da conferência, para que não seja vista como divulgadora da perspectiva dos EUA. "Devido à sensibilidade da questão", cuidavam-se.

Seminários, como este, são desenvolvidos mundo afora, “para ajudar países a desenvolver seus processos democráticos” e a verba provém principalmente da USAID e do National Endowment for Democracy (NED). Na realidade, buscam interferir na situação política local para beneficiar os projetos expansionistas de Washington. Esse mesmo tipo de ação foi acusado de fortalecer os grupos que derrubaram o então presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, em 2004. E de apoiar o golpe frustrado que tirou do poder o venezuelano Hugo Chávez por algumas horas em 2002.

USAID, velha conhecida do movimento estudantil no Brasil

A USAID foi recentemente escorraçada da Bolívia por financiar os grupos separatistas contra o governo Evo Morales. Por sua vez, o NED exerce importante papel no financiamento do grupo do dalai-lama e de outras organizações tibetanas no exílio. É também importante base de apoio financeiro, em diferentes regiões do planeta, ao grupo Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Ambos os programas, conforme escreveu o jornalista estadunidense Jeremy Bigwood, participam do financiamento secreto “de meios informativos e jornalistas estrangeiros”, em mais de 70 países.

Segundo o jornalista brasileiro Mário Augusto Jacobskind , a revista In These Times descobriu que os referidos programas mantêm centenas de organizações não governamentais estrangeiras, jornalistas, políticos, associações de jornalistas, meios de notícias, institutos de melhoramento de jornalistas e faculdades de jornalismo. O Centro para a Ajuda Internacional dos Meios de Comunicação (CIMA), uma repartição do Departamento de Estado financiada pelo NED distribuiu, via USAID, quase 53 milhões de dólares para os meios de comunicação estrangeiros.

O Convênio MEC-USAID, assinado com a ditadura militar brasileira, tinha como objetivo adequar a política educacional brasileira ao figurino de desenvolvimento econômico elaborado por Washington. A luta contra o famigerado convênio foi importante instrumento de ampliação e de unidade do movimento estudantil, transformado em principal força de resistência à ditadura militar.

Um espectro ronda a liberdade de expressão na Internet

A rede internacional de computadores está entre os diferentes instrumentos de interferência estadunidense fora do seu território. Dados divulgados em março deste ano pelo jornal cubano Juventud Rebelde revelam que o governo dos EUA mantém uma "lista negra" que incluiu páginas de Internet de 557 empresas cubanas ou internacionais com vínculos comerciais com Cuba.

Um total de 3.719 domínios com “extensão .COM” são bloqueados por ordem da OFAC, órgão do Tesouro estadunidense, sem a mínima notificação prévia aos seus donos. O diário cubano cita informações do The New York Times , segundo o qual alguns dos "sites, em inglês, francês e espanhol, funcionavam desde 1998".

Alguns, como www.cuba-hemingway.com , eram literários. Outros, como www.cuba-havanacity.com , tratavam temas da história e cultura de Cuba. Como www.ciaocuba.com e www.bonjourcuba.com , que eram meros sites comerciais dirigidos a turistas italianos e franceses. Juventud Rebelde apresentou uma longa lista com os nomes da cada um dos sites bloqueados pela OFAC. Entre estes, de países como o Canadá, Espanha, França, México, Brasil, Itália e Japão.

Que temos com isso? Nada, não somos cubanos. Como no poema de Maiakowsky: “Na primeira noite... Eles colhem uma flor...” São “apenas” ações de censura. A ponta do iceberg de uma agressão de maior alcance, e não somente contra Cuba, que atinge a rede mundial da Internet.


O próprio The New York Times qualificou de "escandalosa" a decisão de aplicar, para qualquer país, sanções “cujas legalidades não se sustentam nem sequer no próprio território dos Estados Unidos”.

Brasília, 23 de julho de 2008

Sidnei Liberal


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