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Rússia, Arábia Saudita: novidades

25.06.2015
 
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Salman bin Abdulaziz Al Saud (80 anos), rei da Arábia Saudita, aceitou o convite do presidente Vladimir Putin para visitar a Rússia, disse o vice-príncipe-coroado e ministro da Defesa saudita Mohammad bin Salman, na 5ª-feira, 18 de junho, em Moscou. O evento pode vir a ser o ponto de virada nesse relacionamento. O príncipe disse que seu país considera a Rússia como parceira importante e relembrou que a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer o reino, em 1926.

Karim Khakimov, diplomata soviético conhecido, orientalista e especialista em Oriente Médio, foi o primeiro embaixador na Arábia Saudita, e muito contribuiu para o desenvolvimento de relações, alcançando útil compreensão mútua, com os dois países aprendendo sobre história e tradições um do outro.

Hoje a Arábia Saudita é importante potência regional. O reino ocupa a posição de liderança espiritual do mundo muçulmano e abriga em seu território os dois principais locais sagrados para esses fiéis, Meca e Medina, cidades chaves na vida do Profeta Maomé. O Hajj é uma peregrinação islâmica anual e dever dos crentes (todos os muçulmanos adultos e fisicamente e financeiramente aptos, que possam simultaneamente manter a família durante a sua ausência), que têm de cumpri-lo pelo menos uma vez na vida. A peregrinação é um dos pilares do Islã. A reunião, durante o Hajj é considerada a maior congregação anual de pessoas em todo o mundo.

O reino é o maior dos sete estados árabes à volta do Golfo Persa, a saber Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Iraque, Omã, Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Todas essas nações (com exceção do Iraque) são parte do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) dos Estados Árabes do Golfo. Esses países coordenam suas ações em vários campos. O Escudo de Força da Península (ou "Escudo da Península") é o braço militar do CCG, que visa a deter e a revidar agressão militar contra qualquer estado membro do CCG. 

O reino saudita, rico em petróleo é membro protagonista da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os lucros acumulados das exportações de petróleo permitem à Arábia Saudita melhorar a infraestrutura econômica, social e educacional do país, e investir em todo o mundo, inclusive nos países desenvolvidos do ocidente.

Salman foi coroado novo rei da Arábia Saudita dia 23/1/2015, depois da morte de seu meio-irmão, rei Abdullah. Em abril de 2015, o rei Salman indicou um sobrinho como seu herdeiro presuntivo, e fez do próprio filho o segundo na linha de sucessão.

Ao fazer do ministro do Interior Mohammed bin Nayef, 55, príncipe coroado, e do Ministro da Defesa Mohammed bin Salman, 30, vice-príncipe-coroado, o rei Salman decidiu, de fato, a linha de sucessão por várias décadas, no maior exportador de petróleo do mundo. Esse arranjo significa que a coroa passará para uma nova geração pela primeira vez, desde 1953, quando o trono passou do fundador da dinastia rei Abdulaziz Ibn Saud, para o primeiro de seis dos seus filhos que lá se sucederam até hoje. Praticamente todos os poderes do rei estão agora concentrados nessas novas quatro mãos.

A reforma já vem em boa hora. O velho sistema originou uma coorte de problemas e inquietação social. Como outros estados árabes, o reino também teve problemas (talvez não tão agudos como em outros países árabes, mas ainda assim graves) que poderiam levar a levantes como os da Primavera Árabe que sacudiram o Oriente Médio em 2011-2012. Do modo como as coisas foram feitas, o rei deu a herdeiros jovens uma chance, ao mesmo tempo em que preserva a sucessão. Só o tempo dirá se o sistema funciona. Há competição entre grupos dentro da família real, embora nunca tenha havido golpe na sucessão.

O rei Salman também fez mudanças na estrutura do governo. Muqrin bin Abdulaziz (70 anos), 35º e mais jovem filho vivo do rei Abdulaziz, fundador da dinastia foi substituído como príncipe coroado. O novo príncipe coroado, Mohammed bin Nayef, é o primeiro de sua geração a ser introduzido nos altos escalões do governo, e continuará como ministro do Interior, mas também terá o papel, como príncipe coroado, de vice-primeiro-ministro. A idade desse príncipe sugere que terá papel importante nas próximas várias décadas na Arábia Saudita, e faz dele o mais provável próximo rei. 

O príncipe Mohammed bin Salman, responsável pelos ataques aéreos sauditas no Iêmen, permanecerá como ministro da Defesa, acumulando a função com o título de vice-príncipe-coroado. Também comanda um grande conselho que supervisiona todas as questões econômicas e de desenvolvimento. 

Em outra importante mudança, Salman substituiu o veterano ministro de Relações Exteriores príncipe Saud al-Faisal, no cargo desde outubro de 1975, pelo embaixador do reino em Washington embaixador Adel al-Jubeir, o primeiro não membro da família real a ocupar a chefia daquele ministério. A substituição do veterano ministro de Relações Exteriores pelo embaixador saudita nos EUA e insiderhá muito tempo em Washington, plebeu e mais jovem, acentua a sensação de mudança generacional. 

A mulher que há mais tempo tinha lugar no governo saudita, Nora al-Fayez, foi demitida do cargo de vice-ministra para a educação feminina, como diz o decreto. Jamais aceita pelos ultraconservadores, ela trabalhava aplicadamente para conseguir incluir educação física no currículo para moças nas escolas públicas sauditas.

A reforma da sucessão e as mudanças no governo não devem ser interpretadas como alguma drástica mudança de política. Dar chance às novas gerações é tema de candentes discussões no reino já há muito tempo. As novas nomeações, especialmente a nomeação do novo ministro de Relações Exteriores, prova que as linhas políticas gerais permanecem inalteradas.

Mas a decisão da nova liderança saudita de desenvolver relações com a Rússia pode incluir mais coisas que relações bilaterais que se modificam no Oriente Médio e Próximo, e podem mesmo influenciar tendências globais. As relações desenvolveram-se lentamente desde a crise síria, em relação à qual Rússia e Reino Saudita têm posições divergentes. As relações foram negativamente afetadas pela intervenção do Reino no Bahrain em 2011 para sufocar levante da população xiita, e pelos ataques aéreos contra os houthis no Iêmen. 

Sem considerar diferenças que haja nos conflitos regionais, a Arábia Saudita fez tentativas para melhorar as relações. Recentemente, delegações sauditas visitaram a Rússia. Os visitantes da Arábia Saudita disseram à agência russa de notícias RIA Novosti que, independente das diferentes posições sobre a Síria, os dois lados podem cuidar de promover cooperação benéfica para ambos, seguindo o modelo das relações entre Rússia e Turquia.

Há motivos importantes por trás do desejo dos sauditas de promover o desenvolvimento de cooperação bilateral. Primeiro, que a Rússia retomou seu lugar entre as potências mundiais. Tem significativa influência global - fator a considerar quando se trata de encaminhar soluções de problemas regionais. Segundo, a Arábia Saudita seguiu a política imposta pelos EUA, de apoio aos radicais armados, como os que lutam contra o regime de Bashar al-Assad na Síria. E aquela política resultou no surgimento de um "Estado Islâmico" extremista, que hoje ameaça também a segurança da Arábia Saudita. 

O mesmo aconteceu no Iêmen. A coalizão de estados árabes liderada pela Arábia Saudita lançou campanha aérea contra os houthis, sob o pretexto de defender o governo do já deposto presidente do Iêmen Abd-Rabbu Mansour Hadi. Os houthis têm o apoio da maioria da população, além do apoio do Irã. Condenados internacionalmente, os bombardeios aéreos levaram a grande número de mortes de civis e não trouxeram qualquer dos resultados previstos pelos EUA. A Arábia Saudita fracassou e não conseguiu conter o levante dos houthis. A al-Qaeda na Península Árabe iemenita (AQAP) também ameaça a Arábia Saudita.

Todas as políticas lideradas pelos EUA fracassaram e absolutamente não produziram qualquer resultado positivo contra as ameaças à segurança do reino. O bom-senso levou a Arábia Saudita a oferecer cinco dias de cessar-fogo aos houthis em maio, de modo que fosse possível atender aos problemas humanitários, enquanto os houthis e representantes do presidente deposto iniciaram conversações em Genebra com a intermediação da ONU. Essas conversas não trouxeram qualquer resultado. 

O que se vê é que a Arábia Saudita parece estar revisando suas políticas pró-EUA, mudando todo o curso político multidimensional daquelas políticas; e passando a incluir a cooperação com a Rússia. 

Especialmente importante, nisso, é que a Rússia pode servir como intermediária no processo de melhorar as relações entre Arábia Saudita e Irã. O Irã já inúmeras vezes declarou-se pronto a reunir-se com a Arábia Saudita em 'território neutro'.

A decisão do Reino, de melhorar as relações, foi confirmada durante a recente visita à Rússia, em junho de 2015, de uma delegação saudita chefiada pelo ministro de Defesa do Reino Saudita, o príncipe Mohammad bin Salman. O ministro foi recebido pelo presidente Vladimir Putin à margem do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo de 2015. A delegação saudita incluiu o vice-comandante da Marinha Saudita, almirante Ibrahim Nasir. Em visita ao 'Supermercado Militar' Exército-2015, o almirante disse que seu país se interessa por comprar navios russos, especialmente a nova corveta classe-Steregushchy. "Sim, estamos interessados. Por isso estamos aqui, e não falamos exclusivamente da Marinha. Estamos interessados em fragatas, corvetas e navios de guarda [orig. guard ships]. É muito cedo para comparar preços, avaliar a logística. Só depois tomaremos nossas decisões", disse o almirante. 

Cooperação econômica bilateral, a situação no Oriente Médio, inclusive o conflito na Síria e a ameaça que é o 'Estado Islâmico', todos esses foram itens discutidos na agenda da conversa entre o presidente Putin e o príncipe Mohammad bin Salman. A visita desse alto funcionário saudita pode ser vista, sim, como demarche contra os EUA - o país que ignorou o Fórum de São Petersburgo e insiste que as sanções contra a Rússia devem permanecer.

A Rússia também está interessada em desenvolver relações com a Arábia Saudita. Primeiro, a Arábia Saudita é um dos estados árabes líderes, como Egito e Argélia. Essa aproximação aumentará a presença russa no mundo árabe e muçulmano, o que ampliará sua influência internacional. Segundo, a Arábia Saudita tem vastos recursos financeiros. O relacionamento pode trazer significativos investimentos para a economia russa. Em terceiro, unir-se é o passo mais lógico, dos dois lados, contra o 'Estado Islâmico'. 

A Arábia Saudita pode vir a revisar a própria posição em algumas das questões do Oriente Médio. Com a Rússia como intermediária, pode melhorar suas relações com Síria e Irã - países também ameaçados pelo 'Estado Islâmico'. Como recentes eventos já mostraram, os grupos apoiados pela Arábia Saudita, como, por exemplo, a Frente al-Nusra, que luta contra o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria, é aliada do 'Estado Islâmico'. Nenhum desses grupos pode ser considerado, em sã consciência, amigo da Arábia Saudita.

Por fim, ao reforçar a cooperação econômica e militar com estados árabes, a Rússia pode fortalecer sua posição, para resistir melhor à pressão e às sanções impostas pelo 'ocidente'. Não se vê à vista qualquer indício de melhora nas relações entre Rússia e o 'ocidente'. *****

 

24/6/2015, Boris DOLGOV, Strategic Culture

 


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