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O próximo alvo da administração de Bush

25.04.2006
 
O próximo alvo da administração de Bush

Depois de ter descartado como “ficção” as denúncias de que a Casa Branca estaria preparando um ataque ao Irã e ainda sob o impacto das críticas de generais da reserva à inépcia do secretário de Defesa Donald Rumsfeld, o presidente George W. Bush admitiu que os EUA poderiam lançar um ataque nuclear “limitado” contra o regime dos aiatolás para impedi-lo de produzir uma bomba atômica. “Todas as opções estão sobre a mesa”, disse Bush, respondendo a uma pergunta sobre a possibilidade de um bombardeio às instalações iranianas com armas nucleares táticas. “Mas queremos resolver essa questão diplomaticamente”. Do lado iraniano, o presidente radical Mahmmoud Ahmedinejah reagiu com bravatas do tipo “cortar as mãos do agressor” (uma punição prevista na sh’aria, a lei islâmica), mas também com a ameaça de ataques suicidas contra alvos ocidentais, para os quais já estariam sendo treinados cerca de 40 mil militantes, segundo o jornal britânico The Guardian.

O pretexto americano, desta vez, é o fato de o Irã ter retomado o programa de enriquecimento de urânio. Teerã afirma que esse programa tem objetivos pacíficos (o urânio enriquecido a 3,5% produz energia; para produzir uma bomba seria necessário enriquecê-lo a 90%) e é garantido pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual o governo iraniano é signatário. Mas Washington suspeita de que o Irã, por baixo do pano, esteja realizando um programa paralelo para desenvolver uma bomba nuclear ou, pelo menos, ter a capacidade de produzi-la. Isso porque, em 2003, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) descobriu que Teerã ocultara um programa de enriquecimento de urânio durante 18 anos.

Nos últimos dias, a hipótese de um ataque americano ao Irã com armas nucleares tornou-se um pesadelo perigosamente real, como havia alertado o economista Paul Krugman em artigo no The New York Times: “Dada a combinação de insensatez e desonestidade manifestada por Bush ao lançar a guerra no Iraque, por que deveríamos supor que ele não tornaria a fazer a mesma coisa?” A inspiração bélica dos falcões de Washington vem de Israel, que em 1981 bombardeou o reator iraquiano de Osirak, atrasando o programa nuclear de Saddam Hussein. Mas a maioria dos analistas não crê no sucesso militar dessa empreitada: ela provocaria muitas vítimas civis entre os iranianos e acabaria fortalecendo o regime xiita de Teerã, com graves repercussões no Iraque, também de maioria xiita. Isso poderia levar o Oriente Médio a uma guerra de proporções bíblicas, com conseqüências econômicas devastadoras para os países ocidentais.

O que salta aos olhos é a clara postura de dois pesos e duas medidas sobre armas nucleares adotada pela administração Bush. A Casa Branca sempre fez vista grossa ao fato de países aliados como Israel, Índia e Paquistão possuírem armas atômicas. Há pouco mais de um mês, durante a sua visita à Índia, Bush desmoralizou de vez o TNP ao assinar com o governo de Nova Déli um tratado de cooperação nuclear – na prática, esse acordo premia um país que jamais se submeteu à não-proliferação e sobre o qual não existe nenhum controle internacional. A Coréia do Norte, mesmo sendo um dos vértices do “eixo do mal”, não precisa temer nenhuma ameaça de invasão dos EUA – o país está em via de produzir ogivas nucleares e tem mísseis que atingem o Japão. Já o Iraque, que ao final das contas não tinha nenhum arsenal de armas de destruição em massa, foi invadido. Por essa lógica, se for verdade que os aiatolás estão mesmo tentando construir uma bomba atômica, eles não são tão loucos como um certo tipo de propaganda tenta insinuar. Apenas buscam o equilíbrio de poder, como entendia a velha diplomacia realista dos EUA antes da chegada dos missionários de direita de Bush.


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