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Para oeste, ho, pela estrada Eurásia BRIC da China, ho

25.03.2015
 
Para oeste, ho, pela estrada Eurásia BRIC da China, ho. 21860.jpeg

"...é imperativo que nenhum desafiante eurasiano apareça capaz de dominar a Eurásia e, pois, de desafiar também os EUA" (Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard, 1997).

Se "O que se guarda num nome?!",[1] imaginem num ideograma! Tudo. Um único ideograma chinês,  jie ("entre duas coisas") - ilustra claramente a iniciativa chave de política exterior do novo sonho chinês.

Na parte superior do ideograma de quatro gestos-traços - a qual deve ser lida simbolicamente como o telhado de uma casa -, o gesto-traço à esquerda significa o Cinturão Econômico da Rota da Seda; e o gesto-traço à direita significa a Rota da Seda Marítima do Século 21. Na parte inferior do ideograma, o gesto-traço à esquerda significa o corredor China-Paquistão, via província Xinjiang; e o gesto-traço à direita, o corredor China-Myanmar-Bangladesh-Índia, via província Yunnan.

A cultura chinesa é farta em fórmulas, lemas - e símbolos. Com muitos intelectuais chineses já temerosos de que a recente manifestação do "poder suave" do Império do Meio acabe perdida na tradução, o ideograma jie acima - repleto de conectividade - já é o ponto de partida para que 1,3 bilhão de chineses, mais os chineses da diáspora, visualizem os dois eixos gêmeos - continental e naval - da visão da Nova Rota da Seda exposta pelo presidente Xi Jinping, conceito também conhecido como "Uma Estrada, Um Cinto-em-volta".

Em termos práticos, também ajuda que a Nova Rota da Seda venha empurrada por um Fundo da Rota da Seda, de multibilhões de dólares, e pelo Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura [orig.Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)], o qual, não por acaso, atraiu a atenção de investidores europeus.

A Nova Rota da Seda, de fato, estradas, simboliza o movimento de pivô da China na direção de um bastião ancestral: a Eurásia. Implica uma China poderosa, ainda mais rica pelo que há à volta daquele bastião, e sem perder a própria essência de civilização-estado. Pode-se chamar de remix moderno das dinastias Tang, Sung e Ming (inicial) - como Pequim fez ver, inteligente e recentemente, mediante uma exposição soberba, no Museu Nacional da China, de peças raras da Rota da Seda reunidas de vários museus regionais.

No passado, a China já realizou uma grande empreitada de infraestrutura de unificação: a Grande Muralha. Para o futuro, tem o projeto gigante de unificar a Eurásia via ferrovia de alta velocidade. Se se considera a amplidão dessa visão, a ideia de mostrar Xi como se só pensasse em se igualar a Mao Zedong e a Deng Xiaoping soa tão pedestre!

Claro que o novo impulso da China pode ser interpretado como projeto para um novo sistema tributário, de vias afluentes ordenadas e centradas em Pequim. Ao mesmo tempo, muitos nos EUA sentem-se pouco confortáveis com a ideia de que a Nova Rota da Seda possa ser uma resposta geopolítica, "desenvolvimento pacífico", resposta "ganha-ganha", à pivotagem de Obama, movida a Pentágono, na direção da Ásia.

Pequim apressou-se a desqualificar quaisquer noções de aspiração à hegemonia. Os chineses têm repetido que não se trata de nenhum Plano Marshall. É inegável que o Plano Marshall "cobriu só nações ocidentais e excluiu todos os países e regiões que o ocidente supunha que fossem ideologicamente próximas da União Soviética". A China, por outro lado, está focada em integrar "economias emergentes" numa vasta rede paneurasiana de trocas/comércio.

AchtungSeidenstrasse! (Atenção! Rota da Seda!)

Não surpreende que as principais nações, na devastada União Europeia, tenham gravitado para o lado do Novo Banco Asiático de Investimento de Infraestrutura (AIIB) - que desempenhará papel chave na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda. 

Ferdinand von Richthofen - geógrafo alemão - foi quem inventou o conceito de Seidenstrasse (Rota da Seda). Marco Polo conectou para sempre a Itália, à Rota da Seda. A União Europeia já é a principal parceira comercial da China. E, outra vez muito simbólico, em 2015 festejam-se 40 anos das relações China-UE. Está aí, bem visível, a possibilidade de que surja um Fundo Sino-Europeu que financie infraestrutura e até projetos de energia limpa por toda uma Eurásia já integrada.

É como se o Anjo da História - aquela imagem espantosa pintada por Paul Klee e revisitada pelo filósofo Walter Benjamin - estivesse agora tentando nos dizer que uma sinergia de SeidenstrasseChina-UE do século 21 é hoje absolutamente inevitável. E que, crucialmente, terá de incluir a Rússia, que é parte vital da Nova Rota da Seda mediante um já próximo upgrade numa ferrovia Trans-Siberiana de alta velocidade, de $280 bilhões, financiados por Rússia-China. É aí onde o projeto da Nova Rota da Seda e a ideia inicial do presidente Putin, de um empório comercial gigante "de Lisboa a Vladivostok", efetivamente se fundem.

Em paralelo, a Rota da Seda Marítima do século 21 aprofundará a interação comercial já frenética, por mar, entre China e o Sudeste da Ásia. A província Fujian - cara a cara com Taiwan - desempenhará papel chave. Aspecto crucialmente importante, Xi viveu muitos anos de sua vida em Fujian. E Hong Kong, não por acaso, também quer participar na ação.

Todos esses desenvolvimentos são viáveis, porque a China finalmente ficou pronta para se tornar exportadora massiva de capital líquido, e a principal fonte de crédito para o Sul Global. Em poucos meses, Pequim lançará o Sistema Internacional Chinês de, destinado a turbinar o yuan como moeda global chave para todos os tipos de trocas. Há também o Banco AIIB. E se isso não bastasse, ainda há o Novo Banco de Desenvolvimento lançado pelos BRICSs para concorrer com o Banco Mundial, que tem sede em Xangai.

Pode-se contra-argumentar que o sucesso de toda a Rota da Seda depende de como Pequim lidará com a agitada Xinjiang, terra dos uigures - que é, sem dúvida, um dos nodos chaves da Eurásia. Essa é uma subtrama no roteiro - marcada pela insegurança, para dizer o mínimo - que se terá de acompanhar em detalhe pelo resto da década. Certo, isso sim, é que a maior parte da Ásia sentirá o impulso tremendo da China na Eurásia.

E a Eurásia - na direção contrária à do perene pensamento desejante de Brzezinski - provavelmente assumirá o formato de um desafio geopolítico: uma parceria estratégica China-Rússia de facto que se manifesta em várias facetas da Nova Rota da Seda e que também dará nova força à Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)].

Com o tempo, ambos, Irã e Paquistão, serão também admitidos como membros da SCO. Relações muito próximas entre o que foi a Pérsia antiga e a China estendem-se por dois milênios - e, agora, Pequim as vê como questão de segurança nacional. O Paquistão é outro nodo essencial da Rota da Seda Marítima, especialmente por causa do porto de Gwadar no Oceano Índico, o qual, em poucos anos, pode ser também ponto chave de passagem do gasoduto Irã-Paquistão. E pode também vir a ser o ponto inicial de outro grande gambito chinês no Oleogasodutostão, paralelo à rodovia Karakorum, que levará gás para Xinjiang.

Para Pequim, Irã e Paquistão - a intersecção do sudoeste da Ásia e do sul da Ásia - são nodos fundamentalmente estratégicos da Nova Rota da Seda. Por ali, a China pode projetar seu poder comercial/de negócios não só para o Oceano Índico, mas também para o Golfo Persa.

Got vision, will travel[2] [*Tive uma visão, vou viajar]

O alarme que toma conta de Washington ante esses desenvolvimentos evidencia a rutilante ausência de qualquer visão made-in-the-USA que seduzisse a opinião pública paneurasiana - além da turva postura de pivoteamento militar, misturada à incansável expansão da OTAN, e da fraude corporativa chamada TTIP, a 'parceria' de "livre comércio", conhecida por toda a Ásia como "OTAN comercial".

O contragolpe contra os itens acima listados pode já estar vindo via os BRICSs; via a Organização de Cooperação de Xangai; via o ininterrupto fortalecimento da parceria estratégica R´

Rússia-China. Há também a expansão da União Eurasiana (Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Rússia - aos quais logo se incorporará o Quirguistão, a ser seguido pelo Tadjiquistão). No Oriente Médio, a Síria estuda seriamente a possibilidade, e um acordo comercial com o Egito já está alinhavado. No sudeste asiático, até o final de 2015 estará firmado o pacto com o Vietnã.

Uma agenda "secreta" de Rússia e China, para ajudar a concluir um acordo Irã-P5+1 pavimenta a estrada para que Teerã seja admitida na Organização de Cooperação de Xangai como membro pleno. Pode-se esperar, para 2016, um alinhamento na SCO que unirá pelo menos 60% da Eurásia, com população de 3,5 bilhões de pessoas e riqueza de petróleo e gás que supera a dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo.

Por tudo isso, a verdadeira história não é como se dará o colapso da China, como tanto insiste David Shambaugh, dito o segundo maior especialista norte-americano em China (quem é o primeiro? Henry Kissinger?). Essa linha já foi firmemente desqualificada por várias fontes. 

A verdadeira história, que um Asia Times revitalizado cobrirá em detalhes nos próximos anos, é como os muitíssimos aspectos da Nova Rota da Seda estarão configurando um novo sonho eurasiano. Tenha visão, viaje.[3] Bon voyage. *****

 


[1] Orig. What's in a name. É fala de Julieta, em Romeu e Julieta, ato 2, cena 2: "O que há num nome?! O que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume?" [NTs].

[2] A tradução é tentativa. Impossível saber com certeza, mas a expressão parece ser um reaproveitamento metafórico de "Have Gun. Will Travel" [aproximadamente, talvez, "Tenho arma. Vou viajar"]. Sobre o seriado norte-americano (1957-1963), do gênero western, que levou esse título, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Have_Gun_%E2%80%93_Will_Travel [NTs].

[3] Orig. "Have vision, will travel". Parece ser mais uma variação de "Have Gun. Will Travel" (vide nota 2). A tradução aqui também é tentativa. Todos os comentários e correções são bem-vindos. [NTs].

 

22/3/2015, Pepe Escobar, (novo) Asia Times Online

 


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