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Dia da África: Um apelo à hipocrisia

24.05.2009
 
Dia da África: Um apelo à hipocrisia

Amanhã é 25 de Maio. O dia em que se formou a Organização da Unidade Africana em 1963. É o dia em que a comunidade internacional recorda que África existe e com egoísmo presunçoso, tenta coletivamente ganhar pontos promovendo todas as causas africanas enquanto perpetua os males que assombram os africanos.

Tornou-se moda, para tantos, serem vistos como campeões de uma caridade ou de uma ONG africana para as mesmas razões que apresentar um bebê negro ao colo, patrocinar uma criança africana ou adotar um bebé sub-sahariano atrae a atenção mais facilmente do que algum miserável das espeluncas de Mumbai, uma moça indesejada da Mongólia Interior ou de qualquer outra criança que teve a infelicidade de ter nascido no lado errado de alguma fronteira.

Especialmente se a criança africana é fotogénica.

Mas quem, por exemplo, diz uma palavra sobre as crianças Sahraui, ou então do povo da Sara Ocidental, invadido e anexado pelo Marrocos em 1976 e negado o direito a ser nação? Quem aumenta a consciência pública sobre os milhares de línguas africanas - e simultaneamente de culturas - ameaçadas com a extinção quase numa base diária? Quem se importa que os governos ocidentais – os mesmos que tiveram tantos dilemas sobre Saddam Hussein - negoceiam com regimes africanos não-democráticos, fazendo vista grossa aos seus abomináveis registos de Direitos Humanos?

Quem lê sobre as onze milhões (11.000.000) de pessoas deslocadas em África central e oriental, a pior crise de deslocação do mundo, causada pela violência por sua vez ventilada pelos poderes exteriores que continuam a desejar governar África com uma política da divisão interna, enquanto espreitam os recursos do continente e subornam os gerentes das instituições que os controlam? Se corrupção existe em África, não é só porque os oficiais são corruptos, é igualmente porque foram corrompidos.

Mas de repente, beleza! É o dia 25 de Maio! É dia da África! E amanhã tantos vão vestir a camisola da África e vão tirar a poeira dos apontamentos do ano passado, fazendo umas alterações à peça de opinião e apoiando as Grandes Causas Africanas de 2009 (depois de terem passado sem dúvida um ano inteiro a escrever disparates sobre África, ou não terem escrito nada, ou terem feito comentários insultuosos e racistas contra Africanos).

Aqueles que assim fazem devem sentir especialmente envergonhados quando souberem que o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA em inglês) acaba de emitir um relatório que reclama ter recebido apenas 27 por cento dos fundos necessários para a sustentação da população em África central, um terço dos fundos necessários para criar a estabilidade em Somália, onde 40 por cento da população são dependentes do apoio alimentar e cujo capital hospeda meio milhão de refugiados que vivem nas circunstâncias mais chocantes.

Aqueles que lêem estas linhas pela primeira vez e que podem sentir-se surpreendidos sobre a falta na informação acerca da África no pacote diário de “notícias” que eles recebem, devem compreender que aqueles que costuram, editam e controlam esta “informação” decidiram há anos que África é e será vendida como um lugar escuro e perigoso com pessoas escuras e perigosas, não vivendo, mas existindo, com seca, guerras e fome, AIDS e malária e corrupção, ébola e mais corrupção. Uma causa perdida.

Aqueles que acreditam que África não é uma causa perdida mas que negam que os problemas existem são tão culpados como aqueles que perpetuam as situações que assombram os africanos através de práticas de corrupção e de actividades comerciais escuras.

A única maneira de dar algum significado ao Dia da África é enfrentar os fatos e definitivamente, de uma vez por todas, fazer algo, coletivamente, porque os problemas da África foram criados não somente por Africanos. Este processo deve começar com os meios de comunicação a fazerem seu trabalho, nomeadamente informarem, não espalhando boatos, desinformação e enganando o público, de modo que os cidadãos do mundo possam esperançosamente fazer algo para ajudar seus irmãos africanos, visto que é óbvio que as gerações dos nossos líderes não fizeram absolutamente nada para corrigir os erros da escravidão, do imperialismo e do colonialismo.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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