Pravda.ru

Mundo

Zizek: O comunismo global ou a lei da selva, a decisão que o coronavírus nos impõe

24.03.2020
 
Zizek: O comunismo global ou a lei da selva, a decisão que o coronavírus nos impõe. 32903.jpeg

Zizek: O comunismo global ou a lei da selva, a decisão que o coronavírus nos impõe

À medida que se espalha o pânico do coronavírus, lidamos com uma derradeira escolha - ou enveredamos pela lógica brutal da sobrevivência dos mais aptos ou por uma espécie de comunismo reinventado com uma coordenação e colaboração globais.

Slavoj Zizek

A nossa comunicação social repete incansavelmente a fórmula "Não entrem em pânico!" E depois mostram-nos todas aquelas notícias que mais não fazem do que espoletar o pânico. A situação assemelha-se à que recordo da minha juventude num país comunista: quando os representantes do governo asseguravam ao público em geral que não havia razão para pânico, todos encarávamos essa mensagem como sinal claro de que eles próprios estavam já em pânico.

É demasiado sério para perdermos tempo com pânico

O pânico tem a sua própria lógica. O facto de no Reino Unido, devido ao pânico do coronavírus, até os rolos de papel higiénico terem desaparecido das lojas recorda-nos um estranho incidente com papel higiénico que sucedeu na nossa juventude, na Jugoslávia socialista. De súbito, começou a circular o boato que não havia papel higiénico suficiente nas lojas. As autoridades rapidamente asseguraram que havia papel higiénico suficiente para os consumos habituais, e, surpreendentemente, tal não só era verdade como a maior parte das pessoas acreditaram até que assim fosse.

Contudo, no dia seguinte o consumidor comum começou a pensar: sei que há papel higiénico suficiente e que o boato é mentira, mas e se alguém acreditar neste boato e, em pânico, começar a comprar reservas excessivas de papel higiénico, fazendo com que acabemos por ficar sem papel higiénico? Se calhar é melhor eu também comprar uma reserva.

Nem é preciso acreditar que outros possam levar o boato a sério - é suficiente acreditar que outras pessoas irão acreditar que haja pessoas que levem o boato a sério - o efeito é o mesmo, nomeadamente uma escassez real de papel higiénico nas lojas. Não estará a ocorrer algo parecido no Reino Unido (e também na Califórnia) neste exacto momento?

A estranha contraparte deste tipo de pânico excessivo e recorrente é a total ausência de pânico quando este em absoluto se justificaria. No último par de anos, depois das epidemias de SARS e ébola, disseram-nos bastas vezes que era só uma questão de tempo até que surgisse uma pandemia nova muito mais forte, a questão não era SE, mas QUANDO ia acontecer. Embora estivéssemos racionalmente convencidos da verdade destas previsões, de algum modo não as levamos a sério e tivemos relutância em agir e preparar-nos a sério - só nos preocupamos em lidar com isto em filmes apocalípticos como "Contágio".

O que este contraste nos revela é que o pânico não é o modo apropriado de lidarmos com uma ameaça real. Quando reagimos em pânico não levamos lá muito a sério a ameaça. Pelo contrário, trivializamos a mesma. Pensem em quão ridícula é a compra em barda de rolos papel higiénico: como se ter papel higiénico suficiente servisse para alguma coisa no meio de uma pandemia. Então o que seria uma reacção apropriada à pandemia do coronavírus? O que devemos aprender e o que devemos fazer para a enfrentar de modo sério?

A que me refiro por comunismo

Quando sugiro que a pandemia de coronavírus pode dar um novo vigor vital ao comunismo, a minha constatação é, como seria expectável, ridicularizada. Embora pareça que a vigorosa abordagem à crise por parte do Estado chinês tenha funcionado - pelo menos funcionou muito melhor do que está a acontecer agora na Itália, a velha lógica autoritária dos comunistas no poder também demonstrou claramente as suas limitações. Uma delas foi que o medo de dar más notícias a quem está no poder (e ao público) afecta os resultados práticos - aparentemente foi esta a razão pela qual aqueles que partilharam pela primeira vez a informação acerca do novo vírus foram presos, e há relatos de que esteja ainda a decorrer algo semelhante.

"A pressão para colocar a China de novo a funcionar depois do encerramento causado pelo coronavírus está a ressuscitar uma velha tentação: a de alterar os dados para que estes mostrem a quem está no poder aquilo que querem ver", relata a Bloomberg. "Este fenómeno está a ocorrer na província de Zhejiang, um pólo industrial na costa Leste, na forma dos gastos eléctricos. Pelo menos três cidades da província atribuíram às fábricas locais objectivos de consumo energético a cumprir por estarem a apresentar dados que demostram um ressurgimento da produção, de acordo com pessoas familiarizadas com esta questão. Tal fez com que algumas fábricas ligassem a sua maquinaria mesmo apesar de estarem vazias, relatam algumas pessoas."

Também conseguimos adivinhar o que irá acontecer quando quem se encontra no poder reparar nesta batota: os gerentes locais serão acusados de sabotagem e serão severamente punidos, reproduzindo assim o vicioso ciclo da desconfiança... Iriamos precisar de um Julian Assange chinês que fizesse chegar ao público este lado oculto do modo como a China está a lidar com a pandemia. Portanto se este não é o comunismo que tenho em mente, a que me refiro por comunismo? Para o compreender, basta lermos as declarações públicas da OMS - eis uma das mais recentes:

O Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, líder da OMS, afirmou a semana passada que apesar das autoridades da saúde pública de todo o globo terem a habilidade de combater com eficácia a disseminação do vírus, a organização receia que em alguns países o nível de compromisso político não esteja a par do nível da ameaça. "Não se trata de uma simulação. Não é altura de desistir. Não é altura para desculpas. É altura de nos livrarmos de todos os travões. Há décadas que os países andam a planear para cenários como este. Agora é altura de aplicar esses planos", afirmou Tedros. "Esta pandemia pode ser travada, mas só empregando uma abordagem colectiva, coordenada e extensa que inclua todo o aparato governamental."

Podemos acrescentar que uma abordarem tão extensa devia estender-se bem para lá do aparato de um único governo: devia englobar uma mobilização local de pessoas fora do âmbito do controlo do Estado bem como uma colaboração e coordenação internacional forte e eficiente.

Se forem hospitalizados milhares de pessoas com problemas respiratórios, será necessário um vasto número de ventiladores e, para os obter, o Estado deve intervir directamente do mesmo modo que intervém em situações de guerra quando são necessárias milhares de armas, e deve contar com a colaboração de outros Estados. Tal como numa campanha militar, a informação deve ser partilhada e os planos plenamente coordenados - é a ISTO que me refiro pelo "comunismo" que precisamos hoje, ou, como diz Will Hutton: "agora, a forma da globalização desregulada do livre mercado propensa a crises e pandemias está seguramente a morrer. Mas está a surgir outra forma, que reconhece a interdependência e o primado da acção colectiva com base nos factos."

A coordenação & colaboração globais necessárias

O que ainda predomina é a máxima de "cada país por si": "existem sanções nacionais à exportação de produtos tão essenciais como mantimentos médicos, com países a ficarem para trás graças à sua própria análise da crise entre escassez localizada e abordagens fortuitas e primitivas à contenção", escreveu Will Hutton no "Guardian".

A pandemia do coronavírus não só assinala as limitações da globalização de mercado, assinala também as limitações do populismo nacionalista, que insiste na plena soberania do Estado: acabou-se o "América (ou quem seja) Primeiro!", uma vez que a América só pode ser salva graças à coordenação e colaboração global.

Não estou aqui a ser utópico, não apelo a uma solidariedade idealizada entre os povos - pelo contrário, a actual crise demonstra claramente como a solidariedade e a cooperação globais são do interesse da sobrevivência de todos nós, que são a única coisa racional e egoísta a fazer. E não se trata só do coronavírus: a própria China padeceu com uma gigantesca gripe suína há uns meses, e encontra-se agora ameaçada com a probabilidade de uma invasão de gafanhotos. Mais, como Owen Jones realçou, a crise climática mata muito mais pessoas em todo o mundo do que o coronavírus, mas quanto a isto não há pânico.

De uma perspectiva cínica e vitalista, podíamos sentir-nos tentados a vislumbrar o coronavírus como uma infecção benéfica que irá permitir que a humanidade se livre dos velhos, fracos e doentes, como quando arrancamos as ervas daninhas, contribuindo para a saúde global.

A extensa abordagem comunista que defendo é a única maneira de deixarmos para trás uma perspectiva vitalista tão primitiva. Já se notam indícios de solidariedade incondicional no debate actual, como nesta nota acerca do papel dos "três sábios" caso a pandemia tenha uma viragem mais catastrófica no Reino Unido: "os pacientes do SNS podem não conseguir obter cuidados que lhes salvem a vida no decorrer de uma epidemia de coronavírus na Grã-Bretanha se as unidades de cuidados intensivos não tiverem meios, alertam os médicos. Sob o dito protocolo dos 'três sábios', três consultores de topo em cada hospital ver-se-iam obrigados decidir racionar cuidados como camas e ventiladores, caso os hospitais se encham de pacientes."

Em que critérios se basearão "os três sábios"? Sacrificar os mais fracos e os mais velhos? E esta situação não causará a oportunidade ideal para uma imensa corrupção? Este tipo de procedimento não demonstra que estamos a preparar-nos para exercer a mais brutal lógica da sobrevivência do mais apto? Por isso, uma vez mais, a derradeira escolha é: isto ou um qualquer tipo de comunismo reinventado.

-

Slavoj Zizek é professor na European Graduate School, investigador no Instituto de Sociologia da Universidade de Ljubljana e professor visitante nas universidades de Columbia, Princeton, Nova Iorque e Michigan. Em 2014 recebeu a Medalha de Honra da Faculdade de Belas Artes do Porto. Tem dezenas de obras editadas em Portugal, sendo as mais recentes "Como Derrotar Trump" (Relógio D'Água, 2018), "A Coragem do Desespero" (Relógio D'Água, 2017), "A Europa à Deriva" (Objectiva, 2016).

© RT.com
10 de Março de 2020

Tradução: Flávio Gonçalves, Pravda.ru | Libertaria.pt

Imagem: Pixabay


Fotos popular