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Socorro! Cessar-fogo!

23.12.2007
 
Pages: 123
Socorro! Cessar-fogo!

O chefe do governo do Hamás na Faixa de Ghaza, Ismail Haniyeh, fez contato com um jornal israelense e propôs um cessar-fogo. Fim dos Qassams, fim dos morteiros, fim dos homens-bomba, fim das incursões militares na Faixa de Ghaza, fim dos ataques a “alvos políticos” e execução de líderes. Um completo cessar-fogo. E não só na Faixa de Ghaza, mas também na Cisjordânia. Os líderes militares ficaram furiosos.


Uri Avnery*

Tradução de Caia Fittipaldi

ESQUEÇAM os Qassams. Esqueçam os morteiros. São nada, comparados com o que o Hamás detonou sobre nós, esta semana!


O chefe do governo do Hamás na Faixa de Ghaza, Ismail Haniyeh, fez contato com um jornal israelense e propôs um cessar-fogo. Fim dos Qassams, fim dos morteiros, fim dos homens-bomba, fim das incursões militares na Faixa de Ghaza, fim dos ataques a “alvos políticos” e execução de líderes. Um completo cessar-fogo. E não só na Faixa de Ghaza, mas também na Cisjordânia.

Os líderes militares ficaram furiosos. Quem ele pensa que é, este sujeito? Pensa que pode nos deter, com seus truques sujos?


ESTA É a segunda vez, em poucos dias, que há um atentado contra nossos planos de guerra.


Há duas semanas, a comunidade de inteligência dos EUA declarou, em relatório oficial, que o Irã havia suspendido, há quatro anos, todos os esforços para produzir uma bomba nuclear.

Em vez de suspirarem aliviadíssimos, os militares israelenses reagiram com fúria explícita. Desde então, todos os colunistas de jornal em Israel, e toda a gigantesca rede de jornalistas alugados, em todo o mundo, tentam desqualificar aquele relatório. É falso, não tem fundamento, é motivado por uma agenda secreta, sinistra.


Milagrosamente, o relatório sobreviveu ileso. Sem um arranhão.


O relatório, pelo que se vê, varreu da mesa de negociações qualquer possibilidade de um ataque norte-americano ou israelense contra o Irã. E, agora, aparece a iniciativa pró-paz, de Haniyeh, e põe em perigo toda a estratégia do establishment militar israelense para a Faixa de Ghaza.


Outra vez, mobilizou-se o coro dos militares. Generais de uniforme e de pijama, correspondentes militares, correspondentes políticos, comentaristas de todos os tamanhos, gêneros e cores, políticos de esquerda, políticos de direita... todos estão atacando a proposta de Haniyeh.


A mensagem é: não podemos aceitar esta proposta, de jeito nenhum! Não devemos sequer considerá-la! Ao contrário: a proposta mostra que o Hamás está fraco, quase derrotado. Portanto, é hora de intensificar a guerra contra eles, apertar ainda mais o bloqueio de Ghazaa, matar mais líderes – e, aliás, por que não assassinar o próprio Haniyeh? O que estamos esperando?


Opera aqui o mesmo paradoxo inerente ao conflito, como sempre operou, desde o início: se os palestinos estão fortes, é perigoso fazer a paz com eles. Se estão fracos, não é preciso fazer a paz com eles. De um jeito ou de outro, é preciso derrotar os palestinos.


"Não há o que discutir!" Ehud Olmert declarou, imediatamente. Então, está tudo bem e o massacre pode prosseguir.

E O MASSACRE prossegue. Na Faixa de Ghazaa e nas regiões próximas, prossegue uma pequena guerra, cada dia mais cruel. Como sempre, os dois lados alegam que apenas respondem às atrocidades cometidas pelo outro lado.


O lado israelense diz que reage aos foguetes Qassams e aos morteiros. Que Estado soberano toleraria ser bombardeado por mísseis que chovem sobre ele, vindos do outro lado da fronteira?

É verdade, milhares de mísseis mataram um número muito pequeno de pessoas. Mil vezes mais pessoas morrem ou são feridas em acidentes nas estradas. Mas os Qassams semeiam o terror, os habitantes de Sderot e arredores exigem vingança e proteção para suas casas, o que custaria uma fortuna.


Se os Qassams realmente perturbassem os líderes políticos e militares israelenses, eles aceitariam a proposta de cessar-fogo. Mas os líderes não estão preocupados com o que aconteça à população de Sderot, localizada na “periferia” geográfica e política, longe do centro do país. Sem qualquer peso econômico ou político. Aos olhos dos líderes, o sofrimento de Sderot é, afinal de contas, tolerável. O sofrimento de Sderot, sobretudo, tem um lado muito positivo: serve como pretexto perfeito para a ação do exército.

O OBJETIVO ESTRATÉGICO de Israel em Ghaza não é acabar com os Qassams. Seria tudo exatamente igual, mesmo que nem um único Qassam fosse jamais disparado contra Israel.


O verdadeiro objetivo é quebrar os palestinos, quer dizer, quebrar o Hamás.


O método é simples, chega a ser primitivo: apertar o cerco por terra, mar e ar, até que a situação fique absolutamente intolerável na Faixa.


A falta absoluta de suprimentos, exceto um mínimo indispensável para evitar a fome absoluta, reduziu a vida a padrões desumanos. Não há nem importação nem exportação de praticamente coisa alguma, a vida econômica está paralisada, o custo de vida subiu à estratosfera. O suprimento de combustível foi reduzido à metade, e há planos para reduzi-lo ainda mais. O suprimento de água pode ser arbitrariamente suspenso.

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