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O colapso financeiro dos EUA acabará com a Guerra do Iraque

23.04.2008
 
Pages: 12
O colapso financeiro dos EUA acabará com a Guerra do Iraque

– E não serão os EUA a escolher o momento

por Mike Whitney

"Venha e veja nossas morgues transbordantes e descubra nossos pequeninos...

Poderá encontrá-los neste ou naquele canto, uma pequena mão espetada, a apontar para si...

Venha e procure por eles no entulho dos raids aéreos "cirúrgicos", poderá encontrar uma pequena perna ou uma pequena cabeça... a pedir sua atenção.

Venha e veja-os amontoados em montes de lixo, a catar restos de comida...

Venha e veja, venha..."

"Flying Kites", Layla Anwar

Os militares americanos venceram todas as batalhas que combateram, mas perderam a guerra.

As guerra são vencidas politicamente, não militarmente. Bush não entende isto. Ele ainda mantém a crença de que uma colonização política pode ser imposta pela força. Mas está errado. A utilização de força esmagadora só espalha a violência e aumenta a instabilidade política. Agora o Iraque é ingovernável. Era este o objectivo? Quilómetros de muralhas de betão a prova de dinamite agora serpenteiam Bagdad para separar as partes combatentes; o país está fragmentado em uma centena de pedaços mais pequenos, cada um deles dominado por comandantes da milícia local. Trata-se de sinais de fracasso, não de êxito. Eis porque o povo americano já não pode apoiar a ocupação. Ele está a ser prático, sabe que o plano de Bush não funcionará. Como disse Nir Rosen, "o Iraque tornou-se a Somália".

A administração ainda apoia o presidente iraquiano Nouri al Malik, mas al-Maliki é uma figura de proa sem significado que não terá qualquer efeito sobre o futuro do país. Ele não tem base popular de apoio e nada controla para além das muralhas da Zona Verde. O governo al-Maliki é meramente uma fachada árabe concebida para convencer o povo americano de que está a ser feito algum progresso político, mas não há progresso. É uma simulação. O futuro está nas mãos dos homens com armas; foram eles que dividiram o Iraque em feudos controlados localmente e são eles que acabarão por decidir quem dirige o Estado. No momento, o combate entre facções está a ser descrito como "guerra sectária", mas a expressão é intencionalmente enganadora.

O combate é de natureza política; as várias milícias estão a competir umas com as outras para ver quem preencherá o vácuo deixado pela remoção de Saddam. É uma luta pelo poder. Os media gostam de retratar o conflito como um choque entre árabes semi-loucos – "nostálgicos desesperados (dead-enders) e terroristas" – que gostam da ideia de matar seus compatriotas, mas isso é apenas um meio de demonizar o inimigo. Na verdade, a violência é inteiramente racional; é a reacção inevitável à dissolução do Estado e à ocupação por tropas estrangeiras. Muitos peritos militares previram que haveria erupções de combates após a invasão inicial, mas as suas advertências foram ignoradas por políticos despistados e os media coniventes. Agora a violência deflagrou outra vez em Bassorá e Bagda, e não há fim à vista. Só uma coisa parece certa, é que o futuro do Iraque não será decidido na urna eleitoral. Bush garantiu isto.

Os militares estado-unidenses não dominam o Iraque nem têm o poder para controlar acontecimentos no terreno. Eles são apenas uma das muitas milícias que competem pelo poder num Estado que é dirigido pelos senhores da guerra. Depois de o exército efectuar operações de combate ele é forçado a retirar-se para os seus campos e as suas bases. Este ponde precisa ser enfatizado a fim de entender que não há futuro real para a ocupação. Os EUA simplesmente não têm a mão-de-obra para manter o território ou estabelecer segurança. De facto, a presença de tropas americanas incita à violência porque elas são encaradas como forças de ocupação, não como libertadores. Inquéritos mostram que a vasta maioria do povo iraquiano quer as tropas americanas saiam. Os militares destruíram demasiado do país e sacrificaram demasiadas pessoas para esperar que estas atitudes venham a alterar-se em qualquer momento próximo. A poetisa e bloguista iraquiana Layla Anwar resumiu os sentimentos de muitas das vítimas de guerra num post recente no seu sítio web An Arab Woman Blues - Reflections in a sealed bottle... .

"Às portas da Babilónia a grande, você ainda está a lutar, a combater, perseguir este ou aquele, deter, bombardear do alto, preencher morgues, hospitais, cemitérios e embaixadas e fronteiras com filas para vistos de saída.

"Nenhum iraquiano deseja sua presença. Nenhum iraquiano aceita sua ocupação.

"Levem a notícia aos FDPs, vocês nunca controlarão o Iraque, nem em seis anos, nem em dez anos, nem em 20 anos... Vocês trouxeram sobre si próprios o ódio e a maldição de todos os iraquianos, dos árabes e do resto do mundo... agora enfrentem a vossa agonia". (Layla Anwar; "An Arab Woman's Blues: Reflections in a sealed bottle")

Será que Bush espera mudar a mente de Layla ou dos milhões de outros iraquianos que perderam seus seres queridos ou foram forçados ao exílio ou viram o seu país e a sua cultura esmagados debaixo da bota da ocupação estrangeira? A campanha pelos corações e mentes está perdida. Os EUA nunca serão bem vindos no Iraque.

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