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Syriza e a fantasia do euro-sem-arrocho

23.02.2015
 
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SYRIZA quer curar a lepra da Grécia, mas quer que a Grécia continue a viver hospedada no leprosário. Quero dizer: SYRIZA quer livrar a Grécia das dores do arrocho [‘austeridade’], mas insiste em continuar na zona do euro.

2/1/2015, Greg Palast, Διάλογος [Diálogo], Atenas – http://dialogosmedia.org/?p=2568

“Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou o FMI passear – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de ‘austeridade’] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, ferramenta para massiva transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil jamais cedeu o controle sobre sua moeda." 

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SYRIZA quer curar a lepra da Grécia, mas quer que a Grécia continue a viver hospedada no leprosário. Quero dizer: SYRIZA quer livrar a Grécia das dores do arrocho [‘austeridade’], mas insiste em continuar na zona do euro.

 

O problema é que o arrocho é só um sintoma da doença: a doença é o próprio euro.

 

Nos últimos cinco anos, os gregos ouviram dizer que, se curarem a doença de vocês – quer dizer, se abandonarem o euro –, o céu desabará sobre a cabeça de vocês. Acho que ninguém percebeu, mas o céu já desabou. Com desemprego acima de 25%, não há mais o que desabar.

 

Em 2010, quando o desemprego estava em terríveis 10%, a “troika” prometeu que medidas de arrocho [austeridade] duro restaurariam, já em 2012, a economia grega. Olhem em volta e perguntem a vocês mesmos: a troika

acertou?

 

Há um dito nos EUA: “Me engane uma vez, a vergonha é sua. Me engane duas vezes, a vergonha é minha.” 

 

Se a Grécia pode sobreviver sem o euro? Mas vocês já estão mortos. Não passam de fantasmas. Disseram aos gregos que se deixarem o euro e não honrarem as dívidas, não terão acesso aos mercados mundiais de capitais. A realidade é que vocês já não têm acesso aos mercados mundiais: ninguém empresta a zumbis.

 

Muitas nações dão-se muito bem sem o euro: Suécia, Dinamarca e Bangladesh vivem excelentemente sem o euro – e também a Turquia, que teve a sorte de ser excluída da eurozona. Enquanto os turcos se mantiverem agarrados à lira, nem mesmo um islamo-fascista com dano cerebral grave como Tayyip Erdoğan conseguirá destruir a economia turca.

 

Se os gregos podem abandonar o euro? Há os mais felizes precedentes a seguir. A moeda argentina foi, antes, ligada ao dólar dos EUA, como a Grécia é hoje ligada ao euro.* Em 2000, os argentinos famintos e irados, revoltaram-se. A Argentina derrubou a ditadura do dólar, todos os diktats do FMI e as ameaças dos credores, e aplicou um calote, rindo, nos seus papéis em dólar. Desde então a economia argentina só cresce. Se a Argentina está hoje sob ataque dos abutres financeiros, é, exclusivamente, porque o país tornou-se tentadoramente muito rico.

 

Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou passear o FMI – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de ‘austeridade’] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, meio massivo de transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil jamais cedeu o controle sobre sua moeda. 

 

“Arrocho” [‘austeridade’]: É religião, não é economia 

 

 

 

O euro é simplesmente o marco alemão com estrelinhas em volta. Não se pode adotar a moeda alemã, sem adotar o ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, como ministro.

 

E Schäuble determinou que a Grécia tem de ser punida. Não há, é claro, teoria econômica crível que diga que o arrocho [‘austeridade’] – quer dizer, cortar gastos do governo, cortar salários, cortar demanda de consumo – poderia de algum modo ajudar país em recessão, em deflação.

 

Mas o arrocho, também chamado de ‘austeridade’, nada tem a ver com economia. É religião: a crença, entre os duros luteranos alemãos, de que os gregos já se divertiram demais, já gastaram dinheiro demais, já passaram tempo demais espreguiçando-se ao sol – e agora têm de pagar um preço pelos seus pecados.

 

Estranhamente, ouço essas bobagens de autoflagelamento também dos próprios gregos: somos vagabundos, preguiçosos. Merecemos o castigo. Estupidez e mais estupidez. Em média, o trabalhador grego trabalha mais horas que qualquer outro trabalhador nas 34 nações da OECD; o alemão é o que trabalha menos.

 

Alexis Tsipras gostaria de poder fingir que o arrocho [‘austeridade’] e o euro seriam coisas diferentes, que se pode casar com a bonitinha e não convidar para a festa a cunhada feia. Aparentemente, o chefe do SYRIZA vive abençoadamente ignorante da história do euro. O horror do arrocho [‘austeridade’] não é consequência da prodigalidade da Grécia: ele está projetado e previsto no plano do euro, desde o início.

 

Foi exatamente o que me explicou o próprio pai do euro, o economista Robert Mundell da Universidade de Columbia. (Estudei economia com o parceiro de Mundell, Milton Friedman.) Mundell não inventou só o euro: inventou também a políticas-máquinas-de-produzir miséria de Thatcher e Reagan, chamadas “economia de oferta” [orig. “supply-side economics”] – ou, como a chamava George Bush Pai, “economia vudu”. Vudu de oferta é a crença há muito tempo desmascarada, segundo a qual se o país desmonta o poder dos sindicatos, corta impostos para empresas, elimina regulações que o governo impunha e a propriedade pública em geral... ‘disso’ advirá a prosperidade econômica.

 

O euro é simplesmente o outro lado da moeda ‘da oferta’. Como diz Mundell, o euro é o modo como Congressos e Parlamentos podem perder o máximo poder nas políticas monetária e fiscal. A democracia, sempre com potencial para incomodar, é extraída do sistema econômico. “Sem política fiscal”, Mundell me disse, “o único modo pelo qual as nações podem manter empregos é promovendo a redução competitiva das leis que legislam sobre o business.”

 

A Grécia, para sobreviver numa economia do euro, só conseguirá reviver o emprego se reduzir salários. De fato, a recente mínima redução no desemprego é o sinal de que os gregos já estão aceitando, aos poucos, um futuro permanente de baixos salários, servindo piña colada a alemães em cruzeiros turísticos.

 

Há quem diga que devemos à Alemanha, ao FMI e ao Banco Central Europeu pelo ‘resgate’ da Grécia. Estupidez. Nenhum dos bilhões dos fundos de ‘resgate’ foram para os bolsos dos gregos. Todos eles fora para o caixa do Deutsche Bank e de outros credores estrangeiros. O Tesouro da União Europeia engoliu 90% de seus papeis de bancos privados. A Alemanha resgatou a Alemanha, não a Grécia.

 

E agora a Grécia tem de pagar à Alemanha, Sr. Tsipras, quer dizer: se o senhor ainda quer usar a moeda alemã.

 

Ironicamente, é Robert Mundell, o pai do euro, cuja famosa Teoria das Áreas Monetárias Ótimas (pela qual ganhou o Prêmio Nobel), quem explica claramente por que Alemanha e Grécia de modo algum podem partilhar uma mesma moeda. Uma nação baseada em turismo, pesca e agricultura não pode cimentar os próprios termos de comércio como uma nação industrial. As consequências logo se veem: mediante o euro, a Alemanha mantém a moeda grega ridiculamente supervalorizada, de modo que Grécia, como Itália, Espanha e Portugal, não possam fazer concorrência às exportações alemãs.

 

Desculpe, Sr. Tsipras, mas permanecer no erro é decisão de maluco. Não pode ser – não honestamente. Não há meio possível pelo qual a Grécia consiga satisfazer a exigência do euro de limitar o déficit grego a 3% do PIB, sem eliminar as pensões e aposentadorias pagas pelo estado, sem arrochar salários. E não é ‘austeridade’ temporária; é arrocho que perdurará por todo o século 21. 

 

E não há meio honesto para derrubar a dívida nacional pelo “critério de convergência” do euro de 60% do PIB, sem liquidação em massa de propriedade do estado. Mas o problema com essas privatizações é que, quando você vende uma empresa de água, nem por isso você deixa de precisar beber água. A única diferença é que, depois da privatização, o preço da água sobe, e só alguns insiders e seus parceiros estrangeiros conseguem ao mesmo tempo beber água e enriquecer.

 

A razão pela qual a Grécia está hoje presa por dívidas são as fraudes criminosas cometidas por governos anteriores para satisfazer os “critérios de convergência” do euro. A ruína da nação começou com swaps de moedas secretos, fraudulentos, concebidos há uma década por Goldman Sachs, para esconder os déficits gregos que excediam o limite de 3%-do-PIB da zona do euro. Quando se descobriu a verdade, os detentores da dívida grega viram que haviam sido tungados. Esses compradores da dívida, então, exigiram níveis de juros de usurário (ou, se alguém preferir: “spread” altíssimo), para protegerem-se contra fraudes futuras. Os juros sobre juros cobrados desses papeis puseram de joelhos a nação grega.

 

Em outras palavras: a causa da crise são os crimes cometidos para unir-se ao e permanecer no euro, não alguma prodigalidade grega. Isso permitiu que o euro – essa máquina de Mundell à prova de qualquer remorso – fizesse seu trabalho, até forçar a Grécia a ceder todo o poder e todos os fundos que pertenceram à classe trabalhadora. Sem poder sobre a própria oferta de dinheiro e taxa de câmbio, a Grécia desbou de joelhos, implorando a mercê da Alemanha.

 

Mas não há mercê. Como o Schäube alemão não se cansa de repetir, os votos de vocês valem nada. “Novas eleições nada mudam nos acordos firmados com o governo grego” – como diz ele. – “Os gregos não têm alternativa.” 

 

Ah, ministro Schäuble, mas, sim, os gregos têm saída. Os gregos podem dizer ao senhor e sua gangue, que peguem o seu euro de vocês e... engulam.******

 

 

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* O peso argentino era ligado ao dólar norte-americano à razão de 1:1 [em 1996, nos governos da tucanaria privateira no Brasil, também o era a moeda brasileira (NTs)].


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