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Síria e a farsa de Genebra-2

23.01.2014
 
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Mohammad Hassan Deedaur comenta (Facebook, 22/1/2014, 20h):

"Não conseguiram mudar o regime à força, com terrorismo, atentados, assassinato e doidos que comem gente. Agora, tentam mudar o regime com essa conferência-farsa, ao mesmo tempo em que distribuem toda a propaganda possível, servindo-se dos fantoches que têm na imprensa-empresa
(BBC, France24 e o resto da press-tituta, no jornalismo impresso)."

No verão, multidões acorrem a Montreux, Suíça, para assistir ao festival de jazz. Essa semana, o show é de um bando absolutamente sem swing nem pegada, na conferência (em teoria) seríssima "Genebra-2" sobre a Síria.

Para que serve Genebra-2? Nada tem a ver com 'paz'. Não gerará acordo internacional que ponha fim à tragédia na Síria. Os horríveis fatos da guerra em campo permanecerão como são, fatos e horríveis; muitos dos criminosos lá estarão reunidos em Montreux. A sociedade civil síria não foi sequer convidada.

E, então, a farsa degenerou logo em lamentável paródia, antes até de começar.

Domingo passado, parecia que o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon decidira pular fora do status de legume, sua marca registrada, ao convidar o Irã para Genebra-2. O convite não durou 24 horas; depois da sempre presente 'pressão' por Washington - instigada por aqueles democratas de 200 quilates da Casa de Saud - o convite foi devidamente revogado.

E aí apareceu Ban Ki-moon, feito papagaio do Departamento de Estado dos EUA, segundo o qual Teerã não aceitara os princípios expressos no Comunicado de Genebra-1, que exigia cessação sustentada da violência armada. Diplomatas iranianos exigiram fortemente o direito de discordar e disseram que Teerã compreende que a base das conversações é a plena implementação da conferência anterior, de junho de 2012, mesmo o Irã não tendo participado dela.

Ban Ki-moon convidou até a Santa Sé, além de Austrália, Luxemburgo, México e a República da Coreia, dentre outros, a Montreux; como se esse pessoal tivesse qualquer ideia sobre o que se passa na Síria.

Mas o cúmulo da farsa é que o Irã não pode ir, mas Arábia Saudita e Qatar - que continuam a armar todos os 'rebeldes' sírios que encontrem pela frente, de jovens em busca de adrenalina a Takfiris e degoladores apoiados pelo ocidente -, podem ir. E lá estão.

Apresento-lhes a Al-Qaeda 'do bem' e a Al-Qaeda 'do mal'

E para que tanta conversa? Washington resolveu que o Irã não pode estar em Montreux, porque apoia Assad. Nada mais simples.

É normal, é a regra, que Washington mande na ONU. Washington dar ordens também a 'oposição' síria exilada também é a regra. Todos são fantoches, nessa comédia letal.

Quanto aos 'especialistas' ocidentais, andam mais chapados que moscas sobre cadáveres. Parte integrante do novo mito ocidental, segundo o qual a Frente Islâmica patrocinada pela Arábia Saudita - e formada em setembro passado contra o Conselho Militar Supremo patrocinado pelos EUA - seriam todos a al-Qaeda 'do bem', temos agora comandantes 'rebeldes' a reconhecer todos os dias, para veículos da imprensa-empresa ocidental, que eles todos também são, ora, a  Al-Qaeda.

Dezenas de milhares de jihadis estrangeiros usam agora a rede clandestina de casas protegidas da Al-Qaeda na Turquia -, mas, ora, nem é assim tão grave. A narrativa ensina que 'nossos novos amigos' na Frente Islâmica são apenas "muçulmanos salafistas conservadores". E que mal tem se eles são dados a torturar os inimigos e só pensam em exterminar os xiitas ou os cristãos? Nem é assim tão grave.

Quanto à gangue da Al-Qaeda 'do mal' - da Frente Al-Nusra e do grupo Ahrar al-Sham ao ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant/Estado Islâmico do Iraque e Levante [Síria]) - estão em plena ação. Afinal, são os que têm experiência/alavancagem em solo. E quando chegar a hora, eles darão mais um nó na corda em volta dos tolos pescoços ocidentais.

Vejam o grupo Ahrar al-Sham. Agora, estão no comando da Frente Islâmica - e em conversações com os norte-americanos. E adivinhem só... Vão a Montreux! A cobertura desse bolo Takfiri é que, na essência, os "interesses" deles estão sendo defendidos por ninguém menos que o secretário de Estado John Kerry, dos EUA. Washington promovendo a al-Qaeda? Ora, ora! Já vimos esse filme!

Fico, ou vou? Should I stay or should I go?[1]

Washington está vendendo a ficção de que estaria 'liderando' Genebra-2 para 'reconstruir' a Síria. Absoluto nonsense.

Teoricamente - e mesmo isso é muito discutível - o principal interesse do governo Obama no Sudeste Asiático é negociar um complexo acordo com o Irã, que tomará quase todo o ano de 2014.

De fato, toda a farsa está sendo jogada entre Washington e Teerã. A Marinha dos EUA não 'mudará o regime' de Assad, nem tão cedo, nem nunca; assim, tudo, em teoria, permanece sobre a mesa.

E todo o resto, a ONU, a Santa Sé, a Casa de Saud são figurantes, ainda que vários atores, da União Europeia à Índia, China e Japão, só pensem, exclusivamente, em, afinal, normalizar tudo com o Irã.

O governo sírio, por sua vez, estará presente em Montreux; concordou com a conferência, há muito tempo. Mas o presidente Assad já disse: não 'sairá', como o presidente Obama dos EUA exigiu. Não deixará que a 'oposição' patrocinada por estrangeiros tome o poder. E pensa, até, em concorrer às próximas eleições presidenciais.

Assad mordeu diretamente a jugular, quando disse que Genebra-2 deveria se ocupar de sua própria "Guerra ao Terror". Terror, diga-se de passagem, em vasta medida apoiado pelo ocidente.

Assim sendo, desse ponto de vista, até Washington precisa que Assad fique. Em resumo: os únicos atores realmente interessados em que Assad saia são a Casa de Saud e a Casa de Thani no Qatar. Muitos no ocidente estão agora percebendo que Assad deve ficar para combater 'os terroristas'.

O notoriamente sinistro embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford - que sempre surge onde os EUA estejam desestabilizando alguma coisa -, dessa vez convocou reunião de urgência em Istanbul, apoiado por Turquia e Qatar, e ordenou 'ida imediata' de todos a Montreux, tipo 'porque-eu-estou-mandando'.

Só precisou seguir o dinheiro. Os que não quisessem viajar - dentre outros, muitos desocupados da Coalizão Nacional Síria - ficariam rapidamente na penúria.

É, pois, a voz do 'patriotismo'! A Coalizão Nacional Síria, sempre furiosamente contra qualquer conversação com Assad, declara, repentinamente, que sim, que vai, apesar de um terço dos seus sinistros e escorregadios membros terem boicotado a reunião de Istanbul.

A parte ainda mais farsesca da farsa é o que Ford possa ter dito aos bravos da Coalizão Nacional Síria - ainda em discussão em todo o Oriente Médio. Se Ford realmente disse que a estratégia de Bandar Bush foi total fracasso (de fato, converteu a Síria em território da Al-Qaeda), então tudo indica que o governo Obama, para todos os propósitos práticos, partilha o mesmo objetivo que o presidente Assad: combater o 'terror'.

Mas, mesmo assim, Genebra-2 não 'resolverá' coisa alguma. Irã e Rússia continuarão a apoiar Damasco. O deserto, terra devastada, que se estende da Síria ao Iraque continuará a ser ocupado pelos jihadistas sectários linha duríssima apoiados por Bandar Bush e pelo Golfo.

A guerra continuará a expandir-se cada vez mais para dentro do Líbano. O governo de Damasco não cairá. A crise de refugiados se agravará. E o ocidente continuará a fazer pose de preocupado com 'o terror'.

Todo aquele não-jazz em Montreux dará em nada. E, na sequência, um burocrata qualquer convocará uma Genebra-3.

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22/1/2014, Pepe Escobar, Russia Today
http://rt.com/op-edge/syria-geneva-two-charade-015/
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[1] The Clash. Ouve-se em http://letras.mus.br/the-clash/7812/traducao.html , com letra (mal) traduzida, mas ajuda a ler [NTs].




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