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ISIL: erros crassos. Será que a história sempre se repete?

22.08.2014
 
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Comecei o meu dia ontem a assistir o vídeo da decapitação de um fotojornalista americano, James Foley, de 40 anos, assassinado na mais bárbara, depravada demonstração de covardia que eu testemunhei em muitos anos. Capturado porque estava no sítio errado, James Foley perdeu a vida nas mãos do ISIL, outra criação do imperialismo ocidental, por ser norte-americano.

Há dois mil e sessenta e sete anos, no ano 53 aC, Marcus Licínius Crassus, o homem mais rico da história do Império Romano, decidiu ignorar a oferta do rei arménio Artavazdes II, para atacar o Império da Pártia (parte do moderna Turquia, Iraque e Irã), pela Armênia, oferecendo cerca de 40.000 tropas seus para se juntarem às sete legiões de Crassus. Prosseguiu para travar a desastrosa batalha de Carrhae. (1)

James Wright Foley, 40, foi seqüestrado por um grupo armado em Binesh, Síria, em 22 de novembro, de 2012. Um foto-jornalista freelancer, ele ganhava a vida vivendo no limite, tirando fotos em zonas de guerra. Se ele tivesse ficado em casa nos EUA e não tivesse vagueado em partes da Síria controladas por terroristas, ele não teria sido capturado, mas pagou o último preço pela sua audácia.
 
Seja qual for o caso, o preço final para um foto- jornalista, em nenhuma parte do mundo, pode ser uma decapitação, acto que nunca pode ser justificado, justificável ou aceitável. Neste caso, o que eu testemunhei nessa manhã foi um acto de pura covardia, em que um homem derrotado, impotente, desarmado e indefeso, com as mãos amarradas atrás das costas, foi forçado a endereçar uma mensagem (provavelmente em troca de poupar a vida de outros cativos) para a sua família, para a Força Aérea dos EUA, que ele pediu para não bombardear as forças do ISIL e para o seu país, acabando por dizer que desejava que ele não fosse cidadão norte-americano, antes de ter sua cabeça cortada por um covarde, psicopata, escondido atrás de uma máscara, empunhando uma faca na mão esquerda, abordando o público com um sotaque do sul da Inglaterra (o tipo de sotaque que se ouve, me disseram, nos subúrbios de Londres de Brixton ou Balham).

Crassus (que em Latim significa sólido, ou denso) sabia mais. Ele decidiu atacar os Pártios atravessando o rio Eufrates, ganhando tempo, em vez de atacar por Arménia, entrando assim em território que os pártios conheciam muito bem e dominavam com seus catafractas, cavalos fortemente armados montados por cavaleiros hábeis, foram tanques do seu tempo. Crassus tinha sete legiões (42 mil soldados de infantaria, divididos em 70 coortes de 600 homens, ou 420 centúrios, cada um comandado por um centurião), apoiados por 4.000 auxiliares (infantaria leve) e cerca de 4.000 cavalaria. Os pártios eram muito inferiores em número, tendo cerca de 1.000 catafractas, 9.000 arqueiros de cavalaria ligeira e cerca de mil camelos de abastecimento, estrategicamente colocados em ambos os flancos e no centro, habilmente colocadas pelo Spahbod (Marechal de Campo) Surena, que tinha uma fonte inesgotável de flechas.

Em nenhum texto das religiões tradicionais, e isso inclui o Alcorão, a decapitação de um foto-jornalista é justificada ou justificável. A versão radical do Islão que ISIL segue é uma blasfêmia, um insulto a todos os muçulmanos de todo o mundo e seus soldados são nada mais, nada menos do que um bando de psicopatas dementes, covardes que decapitam cativos indefesos e amarrados, estupram mulheres e enterram crianças vivas.

Dito isto, ISIL (o Estado Islâmico do Iraque e do Levante), ou Estado Islâmico (ad-Dawlat al-Islamiyyah) é o resultado da política ocidental. Aventuras imperialistas, no século 21.

Se o Ocidente em geral e os Estados Unidos da América, em particular, não tivessem criado extremistas nas Madrassah (escolas religiosas) de Paquistão, para agitar a dissidência entre os Pashtun no Afeganistão, criando os guerreiros religiosos (Mujahidin) para usar contra os governos socialistas progressistas em Cabul, pró-soviéticos, que abordavam de forma positiva assuntos relacionados com direitos humanos, direitos das mulheres e os direitos das crianças, e a criação de um Estado socialmente progressista e inclusiva, não existiriam os Taliban hoje.

Marcus Licínius Crassus fora avisado para não atacar os pártios num terreno aberto no deserto, muito menos com a legião romana disposta como estava habitualmente, cada uma com 6.000 soldados divididos em 10 grupos de seiscentos homens (coortes), e estes em seis centúrios de 100 homens, a linha de frente sendo substituída regularmente pela segunda linha, o escudo na mão esquerda defendendo o homem à esquerda e atacando com a espada empunhada na mão direita, enquanto ballistae (mísseis) foram disparados por trás das linhas e a cavalaria foi colocada nos flancos. Os pártios lançaram seus catafractas e cavalaria ligeira contra as linhas romanas, disparando chuvas de flechas descrevendo arcas altas e baixas, depois recuando rapidamente, os romanos perseguindo, e depois disparando o "tiro pártia" por cima do ombro, enquanto se retiraram, enquanto os legionários romanas esqueceram de içar o escudo de protecção.

Se o Ocidente em geral e os Estados Unidos da América e Reino Unido, em especial, não tivessem desestabilizado o Iraque, pela remoção do governo de base sunita de Saddam Hussein, o país não teria implodido no que vemos hoje, lembrando-se a espinha dorsal da ISIL se constitui por alguns elementos das forças Ba'atista, sunitas, que apoiavam Saddam Hussein.

Se o Ocidente em geral e do Eixo FUKUS (França-Reino Unido= UK-EUA=US), em especial, não tivessem desestabilizado a Líbia, removendo o Governo Jamahiriya de Muammar al-Qathafi, o país não estaria vivendo o pesadelo que está vivendo hoje, com gangues rivais atacando uns aos outros, cidade lutando contra cidade  num mosaico de fragmentação. Isso, em um país que teve o maior Índice de Desenvolvimento Humano em África. Tinha! Para os EUA, a NATO e o Eixo FUKUS, isso não importa.

Marcus Licínius Crassus prosseguiu. Afinal, ele era o homem mais rico de Roma, e na história romana... possivelmente, na história mundial a julgar pelos padrões de hoje, ele tinha 62 anos e achava que não podia errar. Afinal, ele havia derrotado Spartacus, e foi Patrono de ninguém menos que Caius Július César. O resultado da batalha de Carrhae foi a destruição quase total das sete legiões de Crassus, com apenas algumas centenas de baixas pártias.

E não nos esqueçamos de que a política do Ocidente tem sido de fomentar atos terroristas e usar o terrorismo como um meio de derrubar governos no Iraque, na Líbia, e a fracassada tentativa de fazer a mesma coisa na Síria, assim como no passado, a política imperialista se constituía por identificar o segundo grupo mais importante em termos de exercer o poder em um país (a principal força política fora do Governo), elevá-lo a uma posição de poder e usá-lo como um meio para implementar as políticas imperialistas (porque sem ajuda externa, esse grupo nunca teria sido entendido como o ponto de equilíbrio naquela sociedade).

Há uma razão pela qual os governos estão no poder e a razão porquê é porque na camada abaixo do líder, existem grupos que o mantêm ele/ela na posição, como o ponto de equilíbrio. No caso do Iraque, foi o grupo muçulmano sunita, representada hoje por ISIL. Saddam Hussein tinha entendido isso, há duzentos mil milhões de dólares, e um milhão de vidas, atrás. O Ocidente, na sua ânsia imperialista habitual para intrusão e intromissão, escolheu quem? Os xiitas, o segundo grupo mais importante a exercer o poder fora do Governo.

Assim, podemos concluir que ISIL é um monstro criado pela intrusão ocidental. Saddam Hussein não tinha armas de destruição maciça, como ele mesmo disse. O único a dizer a verdade era o Presidente Hussein e o que mentiu entre os dentes foi o Presidente Bush. Todo o mundo sabia isso na altura, e os EUA e Reino Unido foram avisados​​. Muitas vezes, pela Rússia, por jornalistas do mundo inteiro, e por mim, aqui. Eles seguiram em frente ... e o resultado é o que se vê.

Marcus Licínius Crassus perdeu a batalha de Carrhae, perdeu a vida, perdeu seu filho Públius Licínius Crassus e de uma vez por todos a fronteira oriental da Roma ficou fixada na extremidade ocidental de uma área que os romanos nem entendiam nem compreendiam. Carrhae foi um divisor de águas.

Como de costume, outra confusão criada por aqueles que controlam a política externa em Washington e Londres. O caminho a seguir não é para tripudiar sobre mortes de um lado ou de outro - a perda de qualquer ser humano (ou animal) é uma tragédia, nenhuma mãe gosta de perder seu filho, ninguém gosta de perder um irmão, ou um pai, ou um cônjuge. Lágrimas caídas em funerais têm gosto de sal e aqui estamos falando da morte de James Foley, assassinado por um covarde com uma faca, a morte de civis iraquianos assassinados por um covarde no céu soltando bombas de 30.000 pés de altura, a morte de civis sírios assassinado por terroristas apoiados pelo ocidente, a morte de mulheres e crianças líbias assassinados com seus seios cortados em plena rua, serem empalados com barras de ferro, estupradas ou até enterradas vivas ... por terroristas apoiados pelo ocidente. Na morte de cerca de 100 cavaleiros pártios e cerca de 40 mil legionários romanos... suas famílias também sofreram.

O denominador comum de tudo isto é uma palavra de quatro letras, "West" (ocidente), sua política implementada na maioria dos casos por outra sigla de quatro letras, a OTAN. A palavra de quatro letras, Roma, dominou a história clássica por quase mil anos.

Finalmente, como reconstruir um Estado que foi clinicamente desestabilizado ao ponto em que sua sociedade foi reduzida a escombros? A resposta é quanto mais longe ficarem os dedos ocidentais,  melhor, a não ser financiar a limpeza da porcaria que fizeram e permitir que os membros das sociedades que destruíram tomem conta dos  seus próprios assuntos. Enquanto os países da OTAN gastam trilhões (mil biliões, ou milhões de milhões, de dólares) a cada década nas suas fúteis e criminosos, atos assassinos de intervenção, há crianças no mundo sem acesso à água potável ou ao ensino secundário. Os romanos, pelo menos, tentaram civilizar os territórios conquistados e respeitaram as autoridades locais, de um modo geral.

James Foley morreu porque estava vagueando numa zona de guerra cheia de terroristas apoiados pelo Ocidente e porque o seu país criou os monstros que tomaram sua vida de uma forma tão bárbara. A dignidade com que enfrentou a própria morte, sabendo o que estava para acontecer com ele e a força na sua voz quando ele entregou suas últimas palavras são, talvez, a confirmação de que ele fez isso tendo negociado para a vida dos outros cativos e isso é algo para sua família e entes queridos para se lembrarem nestes seus momentos horríveis de tristeza. Se seus captores mantiveram sua palavra ou não, é outra questão.

Marcus Licínius morreu porque cometeu um erro... crasso.

Foto: Darth Vader? Não...é o Spahbod da Pártia, Surena.

(1)

https://www.youtube.com/watch?v=irqwMf308mI



*Timothy Bancroft-Hinchey
Pravda.Ru
(timothy.hinchey@gmail.com)

 

*Timothy Bancroft-Hinchey é director e chefe de redacção da versão portuguesa da Pravda.Ru desde o seu lançamento em 14 de Setembro de 2002.

 

 


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